quinta-feira, 26 de março de 2015

AO TEATRO, NO SEU DIA.


         No dia 27 de março, celebra-se o Dia Internacional do Teatro, um dia escolhido pelo ITT - Instituto Internacional do Teatro, orgão da Organização das Nações Unidas, para comemorar a arte da representação.
         Será que se pode em apenas um dia, manifestar-se pleno jubilo ao teatro, uma arte tão complexa e que dar tanto prazer, alegria e estranhamento? E o que dizer da sua fantástica trajetória ao longo da história dos povos? O teatro que tem sido arma de defesa e forma de ataque em momentos cruciais da humanidade.
          O teatro, como área da criação artística, tem deixado o homem, seja na infância ou na velhice, de olhos brilhantes de fascinação na sua magia, que num simples espaço de tempo pode desmascarar ou mistificar a vida. Teatro que tem sido o  amparo do homem, fazendo-o liberto das suas contradições; que gargalha da opressão e dos opressores e leva esperança aos excluídos;o teatro dos excessos dionisíacos; da pureza da alma; do narcisismo; da mentira e da verdade, e ainda da plenitude da vida.
           O homem não precisa deixar-se dominar pela vulgaridade, nem pelas coisas banais da vida, do mesmo modo que o artista não precisa enveredar pelo embuste, pois a criação, objeto  supremo do seu trabalho consiste, acima de tudo, na verdade. E o teatro procura exatamente desvendar o âmago das questões, por isso não adianta a fuga, o exibicionismo gratuito, pois o máximo que se pode alcançar é uma fantasia que se desfaz ao abrir-se as cortinas, ao iluminar-se o palco. O que se esperar dessa arte é o desnudar-se a vida, mas profundo do que a celebração da morte. Na ação do drama toda a essência do ser.  
        Talvez o teatro piauiense esteja precisando urgentemente de chegar a sociedade, aliás o teatro piauiense precisar mostrar-se, as pessoas precisam ver nosso teatro por que é no seio delas que a cena consagra-se. Mesmo que o teatro seja objeto de denúncias - oprimidos x opressores; famintos x abastados; idealistas x conservadores, inteligentes x medíocres. Teatro em que todos tenham o pleno direito de manifestação, por que no palco são criados personagens á semelhança de todas as criaturas. 
           Vamos lutar todos juntos para que o dia do teatro seja todos os dias, sempre na busca do mais. Vamos impulsionar e estimular a quem quiser fazer teatro, despertando-lhes sentimentos de prazer, amor e
 paz As derrotas do cotidiano já estão também incluídas no espetáculo e, para nós, são apenas obstáculos a serem transpostos sem desencanto nenhum. Aos que fraquejaram, desistiram da cena ou já se retiraram do palco, a nossa convicção de que o teatro foi uma lição de vida. Para o artista o palco é sua pátria, sua religião, reunião de todos os credos.
            Ainda que tenhamos pouco a comemorar nesse dia, renovemos as energias, revigoremos as forças. No investimento do que somos está a força para enfrentar o vindouro. Saudemos o Dia Internacional do Teatro.
         

domingo, 1 de março de 2015

OS DIÁLOGOS CULTURAIS



               Nada mais salutar do que o diálogo, a conversa, o debate , a troca de ideias,  na área cultural. O diálogo, por si só, pode ser esclarecedor e ajudar na busca de saídas, de iniciativas, de fomento. Quando há avanços, objetivos forem atingidos  e metas alcançadas, melhor ainda. Portanto, dialogar democraticamente nunca pode ser tempo perdido.
               A  arte e a cultura piauiense eram debatidas exaustivamente nos anos de 1980/1990, de forma que a classe artística alcançou, talvez, sua melhor performance, seja na música, no teatro, na dança, na literatura e nas artes plásticas. E aqui não vai nenhum saudosismo, é fato. Basta que se passe um visto na história.
                Entidades como Federação do Teatro Amador, União Brasileira de Escritores do Piauí, Sindicato dos Artistas e Técnicos, e até as fundações culturais puxavam congressos, debates, forum, seminários, encontros, palestras, com foco no desenvolvimento cultural. Hoje não se faz isso? Sim, ainda que com menos frequência, e com menos pressão, e menos vigor. Talvez pela diluição do  tempo ou mesmo pela desesperança em não atingir resultados, que custam a se concretizar ou que nunca se concretizam.
              Aí reside a ausência dos encontros culturais em nosso meio - um niilismo em não ver resultados. Mas é bom entender que a falta de mecanismos de pressão joga qualquer pretensão de avanço em políticas  públicas de cultura no limbo. E pior, as torna invisíveis. E nada pior para quem o criador, o artista ou para a arte do que a falta de visibilidade.
               Dialogar é informação, é estar a par da conjuntara, é se fortalecer, é se empoderar. Como tudo é uma questão de valor, de querer humano, de decisão política, a união da classe artística através do ajuntamento, dos diálogos, do debate e das discussões, leva á reivindicações, ao querer se apropriar, a valorização da classe, a solicitação de melhorias. A ser, portanto, visivel.
              Se algum artista piauiense não se enxerga e nem se reconhece como artista, talvez esteja aí também a rejeição em dialogar com seus iguais e, dessa forma, não se reconhecer como iguais, nem no plano da cidadania, nem no plano político. A cisão entre as áreas artísticas piauienses passa muito por esse reconhecimento. É preciso se reconhecer para ser. E numa época de auto estima e auto afirmação como a que vivemos, em que o artista piauiense precisar mergulhar para ser visto, necessita-se do mecanismos do diálogo, não só como afirmação da classe diante de si mesma mas diante do mundo.
             Portanto, por mais que saibamos que a cultura e a educação é um dever do Estado, sabemos também que a finalidade da cultura é a formação da identidade, a criação e a sensibilidade humana. Neste sentido, é que temos que investir nos diálogos culturais, para assim clarear caminhos e trilhas, rumo ao desenvolvimento.
              

domingo, 18 de janeiro de 2015

TEMPO DE CONTAR - Uma Ruma de Bosta


                Era o ano de 1981 e a ditadura militar no Brasil dava sinais de desgaste, mas no Piauí ela parecia tão longe de acabar que se contava nos dedos quem tinha coragem de enfrentá-la. No plano cultural, então, era um deus nos acuda, basta dizer que o diretor do Theatro 4 de Setembro, em Teresina, era um tenente. Para a classe teatral coisa pior não podia existir. O descontentamento era geral e irrestrito.
               Naquele ano as artistas de música entraram numa guerra contra os orgãos culturais do Estado, e lançaram um manifesto chamado de  Pau Baçu ou Movimento Heliotropista, que pouca gente sabia o que ora ou o que significava. O movimento ganhou as ruas com faixas, figurinos exóticos, caras pintadas e entrevistas em jornais. Muita gente de teatro se juntou ao pessoal de música e o manifesto foi lançado no Theatro 4 de Setembro quando se apresentava um espetáculo chamado "O Sangue Pagão Volta", de Artur Rimbaud. Nada mais apropriado. O manifesto lido no palco baixava o cacete na política de cultura desenvolvida pelo governo do Estado.
             De minha parte, e de alguns amigos de teatro, que não davam trégua na luta contra o descaso  cultural, aquilo era uma mão na roda. No entanto, preferimos ficar nos bastidores do movimento, apesar de termos consciência de que a luta era coletiva. Fomos até criticados por essa decisão. Mas era que naquele momento lutávamos em várias frentes, como membro da Federação de Teatro Amador do Piauí - Fetapi, uma entidade que atuava em todo o Estado, e era bastante respeitada. Então, entendíamos, também, que a luta devia ser permanente e não movimentos estanques como era o Pau Baçu, que de fato durou pouco.
             A luta encarniçada da Fetapi era para tirar o tal tenente da direção do Theatro 4 de Setembro Lembro que exatamente naquele período o Grupo Raízes estava em cartaz com a peça "Mata-me Com Teus Beijos", de Rubens Lima, dirigida por mim. O grupo ia apresentar-se no Theatro, mas quando chegou o cenário o tenente queria proibir a apresentação alegando que o Grupo iria encher o palco de porcaria. A negociação foi tensa e terrível. Apresentamos o espetáculo, mas a luta aumentou ainda mais.
               Foi quando surgiu a ideia da ruma de bosta. Era simples. Se o Secretario de Cultura do Estado junto com o Presidente da Fundação Cultural do Piauí não substituíssem o tenente da direção do Theatro 4 de Setembro. a Federação do Teatro Amador do Piauí contrataria uma fileira de carroças carregadas de bosta de vaca e,  em plena madrugada, mandaria despejar na porta da Secretaria de Cultura do Estado do Piauí. Pronto. Que ideia genial! Seu autor, Lili Martins, grande ator. Com certeza as manchetes estariam garantidas. A gente ria só de pensar. O danado era exatamente como sair ileso do caso sem que ninguém descobrisse quem teria feito aquilo, nem a policia.
               O fato é que a pressão aumentou na exigência pela saída do tenente,como aumentou também a luta por mudanças estruturais na política cultural do Estado, sem dúvida alguma ajudado pelo movimento Pau Baçu. Foram reuniões por cima de reuniões entre artistas e dirigentes dos orgãos de cultura. Como era unanimidade a saída do tenente, ele terminou sendo substituído. Foi a primeira vitória.                 
               Então, a ideia da ruma de bosta ficou só no plano. Bons tempos aqueles em que a classe artística tinha grande poder de pressão.
                

TEMPO DE CONTAR

domingo, 23 de novembro de 2014

NOITE COMUM EM NOSSOS DIAS



             Noite de brisa morna. Aberturado em plena via pública e jogado dentro de um fusca. Estalo na cara e tudo passou despercebido. Grito incontido. Depois no peito somente coração furado, e a revolta tomando conta do intimo. Eram doze horas? Tudo desconexo, sem razão de ser. Pensava em brincadeira, só podia ser. Um sequestro? Mas pra que? Duração do tempo nos pneus rangendo na Avenida Maranhão. Eram dois, os homens. O que fazia retornar ao mundo ardente dos infernais mundos conhecidos.
        - O que querem comigo?
          Curiosidade odiosa, os dois homens ansiosos no aspecto. Tempo passando, seria o fim? Silencio e só no vazio dos olhares. Vida de blefe. O que pensar agora nestes dias de tanta violência? Garganta seca sem vidência com dor em tudo que há, até na ponta dos cabelos das axilas, e além muitíssimo.
       - Calma, não queremos nada com você.
          Olhar vítreo revirando o espaço. O fusca tinha parado e a sala onde o colocaram estava vazia e suja. Zuada nos ouvidos crepitar na cabeça batendo pancadas violentas.Não pensar nos homens apenas como seres humanos, existe o instinto da brutalidade, da maldade por puro prazer. Pressão psicológica? Mas com que finalidade? Mil perguntas sem respostas. Tudo desigual. Ele, um anônimo, metido nessa transa de velhas teclas batidas. Agora eram puxões de orelha, tapas no rosto, queimaduras com cigarros. As paredes começavam a falar e o coração atormentado de medo e pavor. Oito horas da noite? Sentado numa cadeira com o pensamento varando a lembrança. Mas o que estaria acontecendo? Era funcionário público, estudante universitário de artes, fazia teatro, vários amigos...
      - Não interessa quem você é!
      - Por favor...
       Nos cabelos das pestanas também havia dor, sem antes haver. Degradante situação para um ser comum, que vivia sem evidência, agora encurralado por dois maníacos.
       - Tome cuidado com sua vida. Estamos de olho.
          Repetição infinita que furava os tímpanos. Eram doze horas? Parece não existir mais moral, dignidade humana em nossos tempos. As marcas da violência exalando, cabelos e pele queimados. O tempo passando no temporal dos rostos impassíveis. Quando chegaria o fim da trapaça, do engano. Só podia ser. Olhos de chumbo. Suor e dor restando vontade de retornar ao normal da vida. Quando a porta se abriu de vez, e foi empurrado.
      - Agora vai. E toma cuidado com a tua vida. Vamos...
        Disparada pelas ruas de domingo, que já era cedinho do outro dia. E o silencio. Cansado no corpo e uma alegria imensa de que tudo parecia ter terminado, virando apenas pó e cinzas. 
        No caminho de casa, riso na boca e lágrimas nos olhos. Tinha escapado de uma noite tão comum em nossos dias de violência, opressão e medo.  
                                                              (Publicado no Jornal do Piauí, em 18.04.1983)

domingo, 9 de novembro de 2014

TROFÉU DO TEATRO PIAUIENSE


         A criação do Troféu - Os Melhores do Ano do Teatro Piauiense, uma iniciativa nossa, já na sua terceira edição, tem como objetivo incentivar e elevar o nível artístico e técnico dos espetáculos produzidos no Estado do Piauí.
           Para colocar em prática essa iniciativa, procuramos parceria na Grande Otelo Companhia de Teatro, coordenada pelos amigos Edson Junior e Jesus Viana, que toparam a parada. Para tanto, uma comissão assiste todos os espetáculos em cartaz de janeiro a novembro de cada ano, no mês de novembro dar-se a cerimônia de entrega do  Troféu. Portanto, concorrem todos os espetáculos que estejam em temporada no ano, e, também, aqueles que continuam em temporada e que ainda não tenham concorrido ao Troféu.
          Atores, atrizes, técnicos, dramaturgos, diretores, entidades culturais, produtores, personalidades, incentivadores, enfim, todos aqueles que fazem e amam o teatro, serão agraciados anualmente com o Troféu - Os Melhores do Ano do Teatro Piauiense. A Comissão do Troféu, a principio, indica três concorrentes de cada categoria, e mais adiante escolhe o vencedor de cada categoria.
              A cada ano o Troféu homenageará, com seu ano, uma personalidade do teatro de nosso estado, de relevantes serviços prestados em sua área de atuação. Entre os artistas que já foram homenageados estão, o humorista e ator Octávio Cesar, o bonequeiro Afonso Miguel Aguiar e o ator e diretor teatral Cesar Crispim.
            Com essa promoção pretende-se, também, propiciar e elevar a auto estima de nossos artistas de teatro, buscando colocá-los no patamar que merecem.
             

domingo, 14 de setembro de 2014

NÃO É MAIS POSSÍVEL VIVER DE ESPERAR.


       Aproximam-se as eleições. As classes trabalhadoras fazem reivindicações, projeções e planejam dias melhores. Nada mais salutar. É da democracia, ir a luta, batalhar sugerir, ainda que o jogo político  termine beneficiando quem tem maior peso social, e esse beneficio nem sempre gera mudanças, ao contrário, quase sempre mantém o status estabelecido.
      A classe artística piauiense parecia  viver alheia a esse processo, a essa realidade política. A sociedade sempre viu nossos artistas como pessoas acomodadas, que não reivindica, que não luta por seus direitos constitucionais, ao contrário, se engaja em prol do primeiro candidato que lhe oferece alguma benesse, com um olho na fresta, e quase nunca por posição ideológica. Essa posição por coisas imediatas, seja promessa de emprego, ou mesmo um simples trabalho na campanha do candidato a ou b, sem engajamento político, ao nosso ver é o que tem levado o movimento artístico local a continuar patinando na espera de que alguma coisa possa mudar.
      Na classe artística existem aqueles que só atuam na sua trincheira de trabalho e nunca participam ou se pronunciam politicamente pelo avanço da classe, e aqueles engajados. A união dos dois seguimentos aqui colocados acontece em pouquíssimos momentos e, muitas vezes, apenas quando atinge interesses pessoais.Fazer é necessário, produzir é essencial, mas colocar sua palavra como artista e formador de opinião é, também, tão importante como a própria produção, afinal de contas ela abre caminhos para novos momentos.
      Atualmente a classe artística piauiense caminha para momentos definitivos. De um lado, os artistas estabelecidos, que optaram por sobreviver do que fazem nessa aridez de dificuldades, do outro uma geração de novos artistas com a necessidade imediata de ganhar a vida com a sua profissão, inclusive, muitos deles mais preparados para enfrentar o mercado de trabalho. Talvez aí esteja a mudança necessária que vai transformar a forma de organização da classe, a forma de luta e de atuação, para a abertura do próprio mercado de trabalho. 
       Sentimos essa mudança de forma segura, que certamente não terá descontinuidade, mesmo por que a geração de novos talentos começa a valorizar o seu legado cultural, formado por pessoas que abriram caminhos a duras penas. Esse reconhecimento da nova geração de artistas pelo seu passado é que vai sedimentar de vez a necessidade de não só fazer, criar e produzir, numa espécie de redoma, muitas vezes de forma aleatória, mas, também, lutar, propor, sugerir e reivindicar de forma coletiva, abrindo assim novas perspectivas.