sexta-feira, 24 de abril de 2026

TEMPOS DE CHUMBO - 1

                Naquele ano de 1964, eu morava eu Altamira do Maranhão, um lugar que parecia encravado no outro do lado do mundo. A casa era grande e ficava na rua principal da cidade, rua de terra batida, e que no verão, fazia uma poeira desgraçada quando algum carro passava. Ainda bem que os carros eram raros na cidade. Minha mãe era costureira e gozava de uma certa popularidade na vizinhança, e meu pai era vereador, um homem conhecido por demais. Lembro que um dos nossos vizinhos era um senhor respeitado dono do cartório da cidade, e casado com uma mulher muito bonita e educada. Lembranças de um menino.

                Meu pai além de vereador era um comerciante de mão cheia, um verdadeiro camelô. Vendia o que lhe desse na telha. O comércio ficava no mesmo local de nossa casa, onde outrora tinha sido uma escola da prefeitura, fechada pouco tempos depois pela própria prefeitura. Na chamada mercearia vendia-se de tudo. desde arame farpado para cercas, cordas, panelas, até revolver. Sim, revolver! meu pai vendia revolveres. Claro, que não eram expostos nas prateleiras, ficavam guardados em armários fechados. Talvez viesse daí minha astúcia de menino em fazer revolver de bambu. Uma saga. O mais interessante era quando aparecia alguém para comprar revolver. Meu pai levava o sujeito para o quintal, pois a arma tinha que ser experimentada, e tome bala numa palmeira que ficava aos fundos da casa.

               Chegou a revolução, ou como queiram, a ditadura. Muita gente na cidade, ou quase todos, não entenderam nada com aquele bando de soldados do exército cercando a praça principal da cidade, onde ficava a câmara dos vereadores. Claro que o povo se encaminhou para lá, saber o que era aquilo. Eu também fui com minha mãe. Diziam que todos os vereadores estava presos dentro da câmara, e claro, meu pai também. As amigas de minha mãe a confortavam, para elas não ia acontecer nada. Os vereadores eram autoridades e não seriam presos, aquilo era um equivoco.

               O certo é que o cerco durou da manhã até a tarde, quando disseram que alguns vereadores seriam soltos e outros não. Claro que os soltos faziam parte do partido político que apoiava a ação revolucionaria naquele momento. Minha mãe ficou mais tranquila porque meu pai apoiava o líder do partido político da revolução, que naqueles momentos nem existia mais, no entanto, o seu líder continuava. De modo que meu pai foi solto por interferência do líder político que ele apoiava. Mas essa liberdade dos vereadores que foram soltos foi traumática. Além deles perderem os cargos de vereadores da cidade, tiveram que sair as presas, e se esconderem onde ninguém pudessem encontrá-los, por que tudo podia retroceder e eles serem presos de verdade.

               Eu e minha mãe não vimos mais meu pai. Ele saiu pelos fundos da câmara municipal e sumiu da cidade sem dizer  para onde iria. Ali começaria um calvário para a família.  

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