Quando meu pai fugiu de Altamira do Maranhão para não ser preso pela ditadura militar, ninguém da família sabia para onde ele tinha ido. Minha mãe ficou em estado abalado, tendo grande solidariedade dos vizinhos, suas amigas e amigos, que eram muitos. Na casa grande ficaram eu, minha irmã, mais nova do que eu e minha mãe, acompanhado por uma senhora que morava com a gente. Meus dois irmãos mais velhos estudavam em Teresina, a capital do Piauí.
Ouvia-se falar de tudo na cidade de Altamira. Mortes pelos soldados do exercito, mal tratos e torturas em presos, o escambau. Como a cidade já era violenta demais, ninguém sabia o que era verdade ou que era mentira. Só para dar uma ideia, um dia correu o boato de que um bando de arruaceiros iria invadir a cidade para resgatar um preso do bando. As aulas foram suspensas e, na noite daquele dia, ninguém saiu as ruas da cidade. O fato me lembrou outro acontecido, antes de papai fugir. Quando um pistoleiro conhecido invadiu a cidade com comparsas e matou um soldado da policia por vingança. Esse pistoleiro era amigo de meu pai, e tempos depois eu soube que meu pai tinha dado cobertura ao mal feitor.
Passaram-se alguns meses que meu pai tinha sumido. Quando um dia chega lá em casa um tropeiro com uma tropa de seis burros, dizendo que meu pai tinha mandado ele pegar a família e deixar em Vitorino Freire, no Maranhão, na casa de uma comadre de minha mãe. Minha mãe ficou em pavorosa sem saber o que fazer, mas obedeceu as ordens. Nossa saída da casa grande foi numa manhã de nevoeiro denso, mas sem chuvas. Mamãe colocou naqueles seis burros tudo que conseguiu colocar e o resto ficou na casa grande, e eram muitas coisas. Lembro de todos os meus brinquedos e os de minha irão deixados para trás. Meu bem maior era uma bicicleta de pneus maciços, presente de meu pai, e uma das únicas bicicletas infantis da cidade. O choro de minha mãe foi intenso, e das amigas também. partimos deixando quase tudo para trás.
Aquele tropeiro era um homem, sisudo, grandão, de meter medo. Pegamos o caminha da cidade de Furo, onde tínhamos de atravessar o Rio Mearim para, só depois, pegar um carro para a cidade de Vitorino Freire. Foi uma viagem em lombos de burros inesquecível. Lembro das imensas poças de água na estrada que os animais tinham de atravessar. Em muitas delas os burros nadavam com a gente em cima, junto com as cargas. Mamãe rezava muito a cada travessia daquelas. Lembro que foram dois dias de viagem até chegar a beira do rio, onde o homem disse que o trato feito com meu pai tinha sido só até ali. O mais que ele fez foi ajudar mamãe a colocar as coisas numa grande balsa para a travessia do rio, depois se despediu e sumiu. Nunca me esqueçí daquele rosto sem um pingo de expressão. Ficamos na outra margem do Rio Mearim para esperar um transporte para Vitorino Freire.
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