terça-feira, 31 de março de 2026

O DIA DA MORTE

 

         Morte não tem dia. Quem é que vai comemorar o dia da morte? Talvez eu esteja querendo dizer outra coisa. Comemora-se o dia dos mortos. Mas da morte jamais! Na verdade eu quis dizer o dia em que se morre. Mesmo assim qual o dia que se morre? Não se tem dia para morrer, pode ser a qualquer dia a qualquer hora. 

          Mas vamos dizer que todos nós tenhamos o nosso dia de morrer. É aquela coisa ninguém escapa da indesejada. Todo mundo vai ter seu dia e a sua hora. E não adianta querer apressar ou fugir desse dia. Alguns até que tentam, mas só se morre quando chega a hora. Com a morte de minha mãe tive a angústia de ver a morte chegar sem perdão. Aos 95 anos de idade todas as pessoas de sua família tinha morrido, e alguns parentes mais próximos e os amigos mais íntimos. Ela tinha consciência disso, e era uma dor permanente na sua alma. Minha mãe, não obstante todos os filhos a seu lado, estava sozinha. Eu compreendia isso de forma dolorosa.

         Muitas vezes ouvi ela falar - Por que só eu ainda estou viva? Não era uma pergunta de revolta, de raiva, de ódio. Parecia apenas uma constatação de maneira suave, porque logo em seguida ela completava -- Por que Deus ainda não me levou? Minha mãe que tinha sempre um sorriso no rosto e as feições de uma santa de quem sempre serviu ao próximo. O que dizer para ela quando fazia aquelas indagações? Simplesmente nada. Apenas lembrava para ela que seus filhos estavam ao seu lado, e a amavam muito.

          Mas nos últimos dias de vida pouco ela ouvia ou compreendia, porque os anos e a perda acelerada da memória tornavam seu dia-a-dia insuportável. Mesmo amparada e amada pelos filhos.

             Com a morte de minha mãe fiquei a pensar que não adianta querer apressar a morte, e nem fugir dela. Tem-se apenas que esperar. E viver a vida plenamente, se possível for, até ela chegar.  

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