Quando saímos naquela manhã de nuvens de Altamira do Maranhão, eu, minha irmã e minha mãe naquela tropa de burros e um tropeiro de cara feia, chegamos em Vitorino Freira com três dias de viagem. O último trecho foi digno de uma aventura pitoresca. Passou um caminhão no local onde estávamos e o motorista, mesmo sem querer levar tanta bagagem, teve pena dos apelos de minha mãe. O caminhão levava na carroceria uma carga de algodão. Minha mãe foi na boleia e eu e minha irmã fomos em cima, segurando-se em cordas que amarravam os fardos de algodão. Lembro também que existiam algumas galinhas presas em engradeados. as galinhas foram a diversão durante a viagem que durou quase um dia naquelas estradas de terra e lamaçal.
Do Vitorino Freire viajamos para Teresina. Era o ano de 1965, e juntamos-nos aos outros dois irmãos que já estudavam na capital do Piauí. Meu pai depois de seis meses nunca mais dera noticia por mais que a familia quisesse saber de seu paradeiro. Fomos morar numa casinha no bairro Piçarra perto do Cine-São Raimundo, chamado de baganiha ,e lembro-me de meu avô Ernesto pai de meu pai com seu relógio de algibeira sempre com um conselho peculiar para quem lhe perguntava as horas - Pode ir, você já está atrasado - Dizia ele, olhando o relógio. Tempos depois fui entender porque eu sempre gostei de relógios. Aprendi com meu avô a nunca chegar atrasado nos compromissos.
Eu e minha irmã começamos a estudar o primário na Unidade Escolar Miguel Borges, no bairro Barrocão, esse período merece um capítulo especial. Nunca me esqueci daquele período em que estudei naquele colégio e também de minha primeira professora. Eu era um menino frágil, sofria de asma com crises terríveis que me levaram várias vezes ao hospital Getúlio Vargas.
Depois mudamos para outra casa que ficava na rua Olavo Bilac, perto da casa de uma tia. Mas eu e minha irmã continuamos a estudar no Miguel Borges. Só mais de um ano soubemos do paradeiro de nosso pai. Uma história estranha. Uma saga. Segundo comunicação dele mesmo naquela escapada da câmara municipal forra esbarrar numa tribo de índios, e fora acobertados por esses índios. Meu pai depois contava que tinha se juntado a uma índia de hábitos estranhos. Enquanto ele dormia na rede ela dormia no chão, e comia peixe cru com outros ingredientes. Ele contava isso com todo orgulho de ter escapado da ditadura militar.
Meu pai era um grande homem.
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