terça-feira, 30 de junho de 2020

BALÉ DA CIDADE - IMAGENS DE PURO PRAZER.

                                                     Publicado no Jornal Diário do Povo,10.06.1998,


                O Balé da Cidade de Teresina completa cinco anos de existência, fundado que foi no ano de 1993, e imprime sua marca como a melhor companhia de dança do estado do Piauí, não só pelo amadurecimento artístico,  mas principalmente pelo aprimoramento técnico.
                   O que se viu no último dia seis, na Casa da Cultura de Teresina, quando o Balé da Cidade apresentou novas coreografias e outras já apresentadas ao público, foram imagens de puro prazer, prendendo o olhar dos convidados.
                O Balé da Cidade fez uma apresentação especial antes de viajar para São Paulo e Santa Catarina, para participar do VI Passo de Arte e do XVI Festival Internacional de Dança de Joinvile, neste evento dividirá o palco com companhias internacionais. Para um grupo que foi formado a partir de oficinas de dança realizadas no Teatro do Boi, bairro Matadouro, é uma curta mas belissima trajetória.
                    Das coreografias apresentadas há que se destacar "Fantasia Nordestina", onde um solo de clarinete permeia a cena com Asa Branca, e os bailarinos mostram o homem nordestino observando o mundo cada um a seu modo, mas sempre com alegria no olhar e no corpo, deuses da resistência sofrida. Logo após o solo desagua a música Feira de Mangaio, do Quarteto de Brasilia, aí é puro lirismo e poesia, levando o expectador ao delírio.
               A participação do Balé da Cidade nos dois importantes eventos de dança será com as coreografias "E Por Nós O Silencio" e "Malandragem". A primeira trata dos horrores da 2º Guerra Mundial, o exterminio de judeus, num dos mais horriveis capitulo da história humana. As imagens são fortes, numa linguagem expressionista, ressaltada por uma trilha sonora densa, onde os sentimentos de dor, medo e sofrimento, estampam o holocausto nos campos de concentração nazista. Assim o Balé da Cidade de Teresina denuncia e alerta aos homens contra qualquer forma de violência dos direitos humanos. A segunda coreografia é pura brasilidade. É o malandro romantico apaixonado por suas mulheres melindrosas. Época em que as noites eram de eternos bailes.
                  Patrocinado por uma vontade politica da Prefeitura Municipal de Teresina, que desenvolve um grande programa na área cultural, o elenco do Balé da Cidade, sob a direção de Sidh Ribeiro está buscando o aperfeiçoamento, ainda um longo caminho a percorrer. No entanto, a afinação do corpo de baile, a disposição e a disciplina dos seus integrantes, são pontos fundamentais que contam a favor do Balé, onde a graça, a beleza e o vigor dos bailarinos fazem com que a posiçao que hora desfrutam seja impar no cenário da dança piauiense.
                  Motivo de orgulho da cidade de Teresina.
                 

segunda-feira, 15 de junho de 2020

A BELA OEIRAS


                                                            Publicado em agosto de 1998, Revista De Repente.

                Do alto do morro do Leme, junto a estátua de Nossa Senhora da Vitória, a cidade de Oeiras é bela e tranquila. A cidade mãe do Estado do Piauí nos dá uma sensação enorme de prazer. Já tinha andado em Oeira, mas a primeira vez que tive oportunidade de ficar alguns dias na cidade foi durante a realização da XVI Mostra de Teatro Amador do Piauí, realizada pela Federação de Teatro Amador do Piauí - Fetapi, nesse ano de 1998. Só assim pude sentir o quanto  Oeiras é bela e apaixonante. Sou um consumidor voraz das coisas da cidade, principalmente de sua literatura construida por seus filhos ilustres e outros que amam ao conhecê-la. Quem pode negar O.G. Rego de Carvalho, Nogueira Tapety, Dagoberto Carvalho, Expedito Rego e tantos outros, são textos belos e de puro amor. Cidade de uma cultura vasta, legou ao povo piauiense vultos históricos e artisticos que fizeram a nossa história como povo. Foi durante os seis dias de realização da Mostra de Teatro que tive oportunidade de conhecer melhor a cidade.
              O ponto de partida era sempre o Cine-Teatro Oeiras, construido a década de quarenta e totalmente reformado no governo de Freitas Neto. Com o apoio total e irrestrito, e as dicas de nosso anfitrião Carlos Rubens, o querido Bill guardião maior da cidade, conhecemos muito de sua história. As ruas, as vielas, as igrejas, os sitios, riachos, os bares e a noite de luar de Oeiras. Ali tudo respira um passado cheio de lições e glórias. Achei impressionante de como o povo de Oeiras ama sua cidade, e defende sua cidade. Pensei que fosse apenas coisa de ficcionista, quando os escritores e poetas de Oeiras escrevem sobre ela com o coração e a alma. Chegamos a pensar que é puro bairrismo, ufanismo bobo, ou mesmo uma certa prepotência, mas não. Oeiras é fascinante!
                 O Solar dos Ferraz, a Casa do Médico, o Sobrado Major Selémerico, a Casa da Pólvora, os retábulos da catedral, o Museu, o bairros dos negros, com a panelada de dona Rosário, o Riacho do Mocha, os sinos, a religiosidade e as lendas. Oeiras, com absoluta certeza, é uma cidade teatral. Imaginem quanto esforço fez o Conselheiro Saraiva para mudar a capital do Piauí de Oeiras para Teresina. Deve ter sido muito dificil convencer os Oeirenses. Merecia um texto dramático para contar essa história. Mas Bill me contou que Oeiras é cheia de lendas. Acreditamos. São coisas infinitas sobre uma cidade de infinitos encantos.Não poderia ser diferente, as pessoas de Oeiras são prestativas e delicadas, como que a fazer jus de tantos vultos sagrados e históricos da cidade.
                  Posso até fobar que conheço algumas figuras ilustres da cidade, que me honram muito, como Aurélio Melo, Ferrer Freitas, Rita Campos, Reinaldo Soares, O.G.Rego, e nosso Carlos Rubem. Falando em Reinaldo não podemos esquecer do Instituto Histórico de Oeiras que completou, no ano de 1997, vinte e cinco anos de existencia, sob a sua presidência. Instituto guardião da história e da memória da cidade, seus intelectuais e seus mistérios. Qua a cidade, sem dúvidas, tem de sobra.
                 A poesia, a literatura, a música e a cultura popular estão por toda a cidade. Principalmente a música. A cidade parece toda musical. Os Bandolins de Oeiras, Possidônio Nunes Queiros, um amor que une o povo de Oeiras com sua música. Posi, dito na voz de Carlos Rubens, foi autor de valsas universais, imortalizadas no CD Valsas Piauienses, com pesquisa do maestro Emmanuel Coelho Maciel. Posi, transmitiu não só seu amor pela cidade, mas pelas mulheres de sua cidade. Tive a oportunidade de lutar pela edição do CD e assistir seu lançamento no Cine-Teatro Oeiras, um um dia memorável. Possidonio Nunes Queiroz, que não assistiu o lançamento de suas valsas, é um imortal com suas composições que transcendem aos umbrais do tempo.
                Penso que os mistérios de Oeiras ainda estão por serem descobertos. Uma tarefa nossa!
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sábado, 30 de maio de 2020

O TEATRO AMADOR E O MOMENTO BRASILEIRO

                                                     Publicado no Jornal da Manhã, 03.1986


           O artista amador brasileiro não desconhece o quadro politico nacional, tem conhecimento que a atual fase, chamada de transição, não significa o fim do autoritarismo, nem a conquista do estado democrático. Tem pleno conhecimento de que este governo eleito, travestido de democrático, é composto por muitos dos setores que deram respaldo ao regime anterior. Assim começa a carta de Vila Velha, Espirito Santo, tirada no IV Congresso Brasileiro de Teatro Amador, acontecido nos dias 17 a 20 de janeiro próximo passado.
          O Piauí teve participação efetiva neste encontro, assim como no III Seminário Nacional de Artes Cênicas, que teve lugar na Aldeia de Arcozelo, Rio de Janeiro, de 23 a 27de janeiro. A Secretaria de Cultura, Desportos e Turismo do Piauí, Prefeitura Municipal de Teresina,  Centrais Eletricas do Estado e a Comissão de Assistência Comunitária, com apoio  de dona Tania Napoleão, colaboraram para a ida da delegação piauiense. É dificil avaliar momentaneamente o que estes eventos significarão para o teatro brasileiro. Dificil também fazer um paraelo entre os dois momentos, já que um tratou especificamente dos problemas dos amadores de teatro e o outro traçou um panorama geral das artes cênicas brasileira, seja no âmbito amador ou profissional, assim como dança, opera, circo. No entanto, ficou uma questão entre os dois, o que é ser amador e o que é ser profissional no conturbado momento do teatro brasileiro, se todos estão procurando uma saída? Os problemas parecem os mesmos, e a crise atinge, indistintamente, todas as categorias cênicas. De um lado os não profissionais buscando afirmação, espaços e verbas, e do outro, os que vivem da profissão, tentando furar brechas para, pelo menos, se manterem nos palcos. A verdade é que está muito caro fazer arte no Brasil.
          O Congresso dos amadores serviu para se discutir a pseudo-abertura politica brasileira, tentando ampliar os espaços na sociedade e fazer com que a entidade nacional - Confenata, avance juntamente com a pratica dos amadores, juntando-se assim a vontade de mudanças de todo o povo brasileiro. Isso é dito claramente em outro paragrafo da carta de Vila Velha. "Reparar nosso discurso politico á nova realidade nacional, coerentemente a nossa prática de produção artistica, evitando discursos fosseis, anacronicos, distanciados da expectativa do povo brasileiro, ou seja, procurar associar o discurso á prática". Atenta, de ceerta forma, o amadurecimento da classe amadora nacional. Mais adiante diz-se que os amadores tem um papel importante na redemocratização do pais e devem usar de sua sensibilidade para ter clareza do momento politico, discutindo e elaborando contribuições efetivas do movimento de teatro amador que amparem o desenvolvimento da produção cultural do Brasil. O Congresso elegeu a nova diretoria da Confederação Nacional de Teatro Amador - Confenata, ficando a presidencia no Estado de Goiás, cabendo ao Piauí uma suplencia, na pessoa da atriz Lari Sales. O Piauí também propos sediar o Festival Brasileiro de Teatro Amador em Teresina.
           O Seminário Nacional de Artes Cênicas foi bem mais especifico, sem aquele ufanismo que tanto caracteriza o teatro amador. Em Arcozelo tratou-se de questões como a criação do Ministério da Cultura, a constituinte, nova presidência do Inacen, assim como mais verbas para o teatro.  Na questão do Ministério da Cultura houve uma posição contrária da maioria dos artistas presentes ao seminário, quase um repudio da maneira como o orgão estaria sendo criado, carecendo de uma discussão mais ampla e maior aprofundamento por parte dos setores culturais.Na questão da constituinte foi eleita uma comissão a nivel nacional, composta por Bete Mendes, Cesar Vieira e Zé Mayer. Essa comissão levaria subsidios de todos os setores envolvidos á Assembleia Nacional Constituinte. Quanto a substituição da presidencia do Instituto Nacional de Artes Cênicas, Orlando Miranda, houve um certo constrangimento na hora da discussão para que se tirasse uma lista triplice a ser apresentada ao conselho do orgão. É que a Associação Carioca dos Empresários Teatrais - ACET, se negou a participar daquele momento, alegando ser muito cedo para tratar do assunto. Então, achou-se por bem adiar a escolha da lista triplice, ainda que alguns candidatos ao cargo presentes no seminário continuassem a manter suas candidaturas. Foi um acontecimento importante, cheio de ideias e propostas para fortalecer o teatro brasileiro, e de confiança na mudança da politica cultural do país.
          Para o teatro amador do Piauí foi importante a participação nos dois acontecimentos, por que abriu-se leques de informações e, a partir dessa visão cultural do país, procuraremos traçar nossas atividades de forma a consolidar nosso teatro, que a cada dia tenta se manter mais fortalecido na cena piauiense.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

A CLASSE CULTURAL PEDE PASSAGEM -FINAL


         Lembramos que o Ministério da Cultura foi criado a partir de debates e que correspondeu, em tese, a consolidação de uma estrutura aberta e democrática, a partir dos orgãos existentes, em via de aperfeiçoamento. Agora vem a criação desses novos orgãos culturais que é uma incógnita quanto a suas competências e até mesmo composição.
         Este artigo vem no momento em que entidades artistico-culturais da sociedade civil piauiense promovem o I Encontro de que se tem noticia por aqui, entre artistas, intelectuais e o povo, com os candidatos a governo do Estado. E, para que possamos refletir, é bom lembrar que  o documento que vamos apresentar aos senhores candidatos procura colocar a cultura no mesmo nível de discussão em que é colocado a indústria dentro da sociedade, para que possa fazer parte dessa engrenagem e que, na mesa do planejador, não estejam apenas objetivos econômicos, mas também objetivos culturais, gerando para a sociedade não só valores materiais mas valores espirituais. 
            A produção cultural deve ser fomentada com mecanismos realistas que assegurem sua continuidade e que não fiquem a mercê de interesses ou influências de momentos de qualquer espécie. Ao Estado não cabe se ausentar de seus deveres constitucionais para com a cultura, mas sim exercer papel fomentador do processo cultural, em seus aspectos amplos, corrigindo distorções onde as houver e ajudando áreas culturais mais vulneráveis. Nestes sentido, o documento também procurar evitar distorções, uma vez que incentiva a participação da sociedade civil nas demais obrigações com a cultura, deixando  a participação do ente público mais livre no incentivo direto a cultura fomentando a recuperação ou mesmo criação de espaços culturais, e criando infra -estrutura para a produção cultural.
             O Estado não tem o poder mágico de solucionar problemas tão complexos como os da cultura, ou mesmo de qualquer outra área, no entanto, sem dúvida, é preciso definir metas, caminhos, que até hoje não foram traçados com o devido respeito, gerando resultados insatisfatório. O documento Plano Para Uma Politica Cultural do Estado trás em seu conteúdo uma redefinição e aponta para novos caminhos na área cultural. A classe cultural piauiense, no surgimento de um novo período para o Estado, saberá agir com maturidade aproveitando, também  esse novo ciclo que irá se apresentar.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

A CLASSE CULTURAL PEDE PASSAGEM - I

                                                       Publicado no Jornal da Manhã em 04.09.1990


               Recentemente estive em Belo Horizonte participando, como convidado, do VI Congresso Mineiro de  Artes Cênicas. O que nos ouvimos por lá nos animou a arregaçar as mangas e a continuar a luta de Golias em prol da cultura brasileira e piauiense. A cultura essa que alimenta o espirito, o prazer carnal e fisico, as inebriantes ressacas de Baco e as orgias de seus cultos a correrem atrás de ninfas, para lhes comerem tudo. Queremos dizer que não é de hoje que a cultura brasileira vem sofrendo assim como a saúde, a educação, a questão agrária, o meio ambiente e a habitação, o total descaso do estado.
              Esse golpe que o presidente Collor deu implodindo orgãos culturais como a Fudancen, a Funarte, o Spham, o Pró-Memória, com a sua proposta de reforma administrativa, não passou de uma vingança mesquinha contra a cultura e a inteligência nacional. Simples vingança e desespero de quem viu perto, apoiado por uma burguesia entreguista, um  projeto de esquerda tomando conta do Brasil e arregimentando descamisados e desdentados rumo a sua liberdade. E os artistas e intelectuais, corresponsáveis por esse levante, tiveram seu troco com o Plano Brasil Novo na área da cultura, que jogou ás traças um projeto de superação do analfabetismo, da fome e da mortalidade infantil, pois tudo passa pela questão da cultura.
            O senhor Ipojuca Pontes, o "Pedro Mico", não confundir com mico preto, que carrega a bandeira do desfacelamento dos orgãos culturais do  país, vem a público dizer que "o intelectual pensa que tem o direito  divino de ser sustentado pelo governo porque só ele é capaz de resolver os problemas do país". Quando, senhor Ipojuca, algum cristão  neste país, com o minimo de inteligência,  pensou que o estado possa ser eternamente pai?A não ser os fisiologistas criados na esteira da ditadura e da corrupção politica. Dizer que o intelectual tem medo da concorrência e horror ao mercado aberto é desconheceer um país ou qualquer estado do nordeste onde nem mercado e nem concorrência existem na área cultural, porque o país é simplesmente usurpado em oitenta por cento por cadeias de televisões, grandes editoras, grandes gravadoras e jornais com o olho e o pé fincados na cultura externa. Depois em qualquer país civilizado do mundo, os intelectuais, artistas, pesquisadores e cientistas são a reserva da nação, sustentáculo do avanço e do progresso.
            É certo que alguns auxilios para a área cultural geraram distorções, mas exterminar a todos os orgãos de apoio com a intenção simples de criar outros no lugar, como Ibac e Ibpc, é querer levar novamente, acreditamos, a área cultural a censura, aos bloqueios de apoio e as interferências do centro de poder.

sábado, 11 de abril de 2020

O PRINCÊS DO PIAUÍ

                                                   Publicado no Jornal da Manhã, 28.06.1980


              Estreou no dia 12 último a peça O Princês do Piauí, do Parnaibano Benjamin Santos, no Theatro 4 de Setembro. Pela primeira vez ela sobe ao palco no Brasil, numa produção maravilhosa de Tarciso Prado, com uma montagem explêndida do Grupo Teste de Espetáculos, trazendo ao conhecimento dos piauienses a obra de um autor da terra consagrado nacionalmente, com três prêmios do Serviço Nacional de Teatro. Vamos aferir em O Princês do Piauí três itens essências para a compreensão da peça: Dramaturgia, temática e montagem.
            O próprio autor frisou numa palestra que fez ao pessoa de teatro, no auditório Herbert Parentes Fortes, que o Princês era uma reviravolta em tudo que ele escrevera para criança até ali.Não temos conhecimento aprofundado de suas montagens anteriores, mas podemos supor que a reviravolta tenha sido no sentido de catarse, de técnica. A depuração da escrita cênica e a linguagem poética encontrada  no texto deixa a criança de frente a uma dramaturgia sem ilusionismos bobos que a leve ao devaneio, tudo é procura constante, é indagação: "Quer que eu conte, quer....A história da casinha de bambuê coberta de bambuá."Benjamim na sua dramaturgia infantil faz um jogo de palavras de impactos, com comparações. Ele se preocupa com o todo, o conjunto da obra teatral, deixando á criança o prazer de captar as imagens que as palavras invocam no seu pensamento infantil. Aliás, o autor, parece bastante despreocupado com a participação ativa da criança no contexto da peça, tocando a sua beleza interior, e dando critérios para sua participação de onde ela está. É certo que a estreia foi vista por adultos, restando esperar por um público infantil, no entanto, a pureza, a inocência e a ternura, ora de uma maneira trágica ( A morte da Cabra Montês), ora de uma maneira poética ( a descoberta do amor pelo Princês) campeiam soltas no texto.
           Benjamin surpreendeu a todos na sua palestra, declarando: "Vocês dão de a zero em mim, não sei do folclore piauiense." Surpresa por que em O Princês todo um mundo de lendas e fatos, que bem poderiam ser a nossa Burrinha, Num-Se-Pode, O Cabeça de Cuia, povoam a ação dramática da peça. Assim temos O Morto-Carregando-O Vivo, A Mutuca e os bonecos. São coisas da infância do autor, retiradas do fundo da memória, estando aí talvez a força telúrica e o lirismo que emana de O Princês. A temática é iminentemente nordestina , com pinceladas de universalidade.
           O Princês sai a procura de si, o homem a procura de seu destino; o nordestino fugindo da seca, da fome, mosrada na peça para a criança de uma forma não trágica, onde os elementos caracteristicos da região vão se encontrando em cada cena, compondo assim todo um quadro alegórico. Benjamin joga com a sensibilidade da criança no seu sentido de libertação do medo, a dependência, indo ao encontro do seu eu propriamente dito, com imagens e palavra do seu mundo. É preciso que exista o conhecimento da dor, da beleza e do amor, segundo o autor, para que a criança se situe no seu mundo, enxergue a sua volta. Benjamin na sua tematca é revolucionário, não no sentido panfletário, contra ou a favor. O autor indaga, investiga, , busca, estabelecendo um equilibrio próprio, segundo seus critérios de criação.O que vale é sua mensagem que no Princês bem podemos sentir de cara, basta olhar, sentir, tocar, o que e muito da criança vivendo no seu mundo de descobertas.
          Dificil seria prever uma montagem da peça pelo autor, acostumado que é a jogar com todos os elementos criativos que o teatro possa dar. No entanto, o Grupo Teste de espetáculos, sob a direção de Tarciso Prado, revigora-se depois de um silencio e dr um banho de ousadia com a montagem de O Princ~es do Piauí. É impagavel a entrada em cena de O Morto-Carregando- o Vivo e da Mutuca, o que vem a atestar a afinação entre o diretor e o autor. Obvio que não se pode fazer uma analise de como as crianças vão receber o espetáculo, como irão reagir, pois como falamos, a maioria das pessoas presentes ao teatro eram adultas. Porém, acreditamos numa boa receptividade, tudo faz crer. Uma cenografia acima dos recursos do teatro piauiense, que revelou talentos excepcionais neste campo, como Williamas Martins e Afonso Miguel, que fizeram um trabalho artesanal fora do comum. Valeu apena por proporcionar aparições no palco belissimas como a de Arimatan Martins, o Princês; Lurdinha Lima, a Torquata ou Mãe Catinha e Maria Dias, a Neusa.

quinta-feira, 26 de março de 2020

27 DE MARÇO - DIA INTERNACIONAL DO TEATRO E DIA NACONAL DO CIRCO-PALCO VAZIO E SEM LUZ.


                                        Nestes tempos sombrios, de pandemia e restrições, vou me dirigir àqueles que, como eu, escolheram o palco ou o picadeiro como profissão, e conhecem profundamente o que é isso. Cada um comemora este dia como queira, se há alguma coisa para comemorar. Mas sempre há, nem que seja de forma virtual, com expectadores imaginários, ou comemorar a própria vida. Distanciados um dos outros pelas circunstâncias, coisa terrível para nós, por que gostamos de público,  de sorrisos e de abraços, ficamos a refletir.  
                                          Refletir sobre as dificuldades imensas de produzir espetáculos; Sobre Grupos, Coletivos e Companhias de teatro e de circo morrendo pelas tabelas; Trabalhadores de teatro e de circo, na sua maioria, sem perspectiva e sem horizontes de trabalho; A falta de formação superior da classe, onde não possuímos um curso superior na área; Sim, precisamos refletir. Sobre a inexistência de programas e projetos consistentes para o teatro e o circo no Estado e no Município; Sobre o isolamento cultural, onde os palcos ficam vazios e ás escuras, por falta de espetáculos de fora; Falamos de espetáculos de qualidade, não de enganação da cena.  Sobre a falta gritante de público, onde tudo tem de ser de graça. E assim produtores e artistas padecem no paraíso! E ainda vem uma pandemia e isola criadores e suas criaturas, trancados! Como sobreviver a isso tudo? Dirijo-me, principalmente, aos artistas e produtores, que como eu labutam a dezenas de anos nessa profissão. Mas também dirijo-me aos novos artistas de teatro e de circo que escolheram seguir essa trilha. E, para eles, um recado, aprendam, se fortaleçam e se alimentem da profissão. E sejam solidários aqueles que abriram caminho, e abram caminhos.      
                                        Dia de refletir? Sim! Um dia para refletir tudo o que se disse acima, e um dia para se perguntar por que acontece tudo isso. É bom pensar que não sentamos em mesas de grandes negócios e nem temos câmaras de arte e culturas em nossos parlamentos, de forma concreta. Bom pensar também que somos necessários a toda a humanidade, que sonha e se deleita com nossas criações. Mas somos a parte mais frágil da cadeia no sentido da sustentabilidade. A maioria absoluta dos grupos e coletivos de teatro padece de ações, e o circo está na lona, isto é, no chão literalmente. E os festivais de teatro, as mostras e as iniciativas do setor? Também, na lona a procura de saídas, ás vezes desesperadas.
                                        Refletir, sim, sobre a despolitização do movimento, o medo e o pavor de se expor, quando se trata de reivindicar politicas públicas de cultura seja do município ou do estado, e aprofundar debates local sobre o tema. Onde muitos preferem se isolar, e se enterram em egos, sem se permitir sequer serem questionados. Ou, então, fazem  trincheira em redes sociais ou batem panelas e soltam gritos, dividindo-se em esquerda e direita radicais, contra ou a favor. Denegrindo, muitas vezes, o amigo de classe, esquecendo-se que o inimigo não somos nós, e de que todos tem livre arbítrio, inclusive, os próprios.  No meio disso tudo uma multidão invisível, sem esperança, apenas assistindo o duelo e, talvez, se perguntando - onde vamos parar? E nós, do teatro e do circo, que precisamos sobreviver de nossa arte, a nos perguntar, onde vamos parar, em um estado de mais de três milhões de habitantes e numa cidade de mais de oitocentos mil, que não conseguem as condições mínimas de sobrevivência para  seus artistas. Isso é necessário reflexão.
                                          Resistir. É o que todos nós do teatro e do circo temos feito. Ainda mais em tempos negros e sombrios. Resistir é a palavra chave para este dia Internacional do Teatro e Dia Nacional do Circo. Resistir, em todos os seus aspectos. Lutar coletivamente, dar as mãos e ser solidário uns com os outros, mesmo confinados momentaneamente por uma pandemia. Ser pessoas, ser gente, ser  artistas. Resistir e continuar lutando com todas as nossas forças para sairmos dessa situação de palcos vazios e sem luz. A criação é a nossa prova dos nove, mas precisamos viver plenamente para transmitir alegria. Palavra de todos nós, resistência!