terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A Charlatanice e o Preço do Obscurantismo.

No inicio do governo, em segundo mandato, os acontecimentos na área cultural transformaram-se em cenas do mais genuíno teatro do absurdo. E aqui não vai nenhuma depreciação contra o teatro. Nada melhor do que "Esperando Godot", a genial peça do dramaturgo Samuel Becket, para tentar explicar tanta indefinição e tanto marasmo. Na peça, personagens esperam por outro que nunca chega, na vida real de artistas e produtores culturais piauienses, espera-se por gestões culturais dignas da classe que nunca chegam. E o que dizer da incomunicabilidade do teatro de Eugene Ionesco? É assim, também, entre o governo e a classe artistica: o primeiro tentando desconhecer a existência da segunda, num total descompasso com a realidade. Mas o problema maior não está em conhecer ou desconhecer, existir ou não existir, o problema está em desvalorizar e espezinhar propositadamente.
De inicio, houve a mobilização da classe através do Forum de Música e do Conselho Estadual de Cultura por que se espalhou que a Fundação Cultural do Piauí ia deixar de existir ou se fundir com outro. Iss seria a contramão da história. Inclusive, o rcclame geral dos artistas era para que o governo criasse a Secretaria de Estad da Cultura. Impossivel querer acabar com o único orgão oficial de cultura na esfera estadual quando todos os esforços do goerno federal são exatamente ao contrário, estruturar o Sistema Nacional de Cultura, via União, Estados e Municipios. Tudo bem, a Fundação continua. A questão não está em acabar com um orgão por que seu gestor foi inepto e inoperante. A questão é mais profunda e podemos sentir isso pelo desprezo com que o Estado trata a cultura, esquecendo que esa área é uma das mai importantes geradora de emprego e renda de nosso pais e que a economia da cultura pontua em todos os debates. Esse posicionamento, uma herança maldita da velha elite que dominou o Estado, e que via a cultura como adorno e como enfeite, parece continuar até hoje nos bastidores do poder, posição que conseguiu se entranhar no pensamento comun do mais simples mortal piauiense, aquele a quem falta comida e água potavel. Se falta isso, para que cultura e arte.
A nossa percepção em determinado momento é relativa, assim como a realidade, quando se trata de questões èticas, estéticas, lembranças, imaginação, solidariedade, então, perdemos principalmente a capacidade de perceber a realidade e passamos a ser vitimas de nosso próprio destino. O problema, às vezs, é entender ou perceber verdadeiramente o que está por detrás de cada forma, de cada função, de cada medida. Porque tamanho descaso do Estado com a cultura piauiense? Onde está a razão de tudo isso? E aqui colocamos o Estado como um todo, o que engloba os municipios. É preciso perceber as artimanhas, a parte oculta do descaso, a charlatanice para poder entender por que uma área tão importante da sociedade é maltrtada como a área cultural, percebendo também, como colocamos acima, por que a nossa sociedade, um tanto fragilizada por falta de segurança,alimentação, educação e cidadania plena, faz coro numa imitação simplória do poder público na desvalorização de sua cultura e de seus criadores.
Até mesmo no seio da classe artistica, e talvez aí esteja o erro trágico maior, a nossa harmatia, perde-se a firmeza do conjunto e parte-se para a individualidade. Aí, o artista centra fogo em quem não é seu inimigo, e os companheiros, os amigos, os compadres, passam a ser só aqueles que concordam - por que esses tem sempre a capacidade de concordar com tudo - e os que discordam passam a ser inimiugos, jogados no limbo, numa guerra de confronto terrível e numa descontituição do antagonista que beira a sandice, o que só serve para dar continuidade ao total obscurantismo cultural em que o Piauí é jogado, sem contar que a transformação social é zero e os mortos e feridos são muitos para o deleite do poder. Podemos perceber o jogo do poder quando não transformamos nossos própios sentimentos? Ou não queremos perceber esse jogo de dominação a que somos submetidos? O que mais queremos em nosos meio artistico/cultural que não seja a transformação dos sentidos, dos sentimentos e da própria sociedade? Portanto, o confronto da classe contra ela mesma é ainda muito visivel em noso meio. E continua a fazer seus estragos. Veja a escolha da nova presidente da Fundac, onde muitos aplaudiram e tantos outros execraram.
Esse teatro do absurdo em que assistimos a cultura do Estado ser tratada anos após anos dá bem a dimensão do descasoe do obscurantismo em que somos mergulhados. E aqui a relação teatro do absurdo com a nossa realidade cultural ultrapassa ao próprio absurdo da realidade, pois trata-se não criar uma realidade mas de vivenciá-la da forma mais mesquinha possível, onde artistas e produtores enfrentam diariamente um campo de batalha sinistro pela sobrevivencia, tomando calote do Estado, onde não se pagam cachês de apresentações artisticas, não se cumprem contratos e nem convênicos de leis de incentivo, e rir-se ainda da miséria sobrando mortos para todos os lados da cultura, onde gerações de talentos desaparecem antes de aparecer ou então viram zumbis renegados em seu próprio território. E assim sendo seremos e continuaremos a ser um Estado relegado a permanecer no escuro cultural.
É uma vergonha que a cultura e a arte valam cada vez menos em nosso Estado. Gerações de artistas sem ter condições de emergir, por maior esforço que faça, por que participantes, de forma indireta, de um rateio, uma partilha do Estado feita entre grupos de novos ricos, novos companheiros e familias tradicionais que continuam a se perpetuar no poder, fazendo o lado mais turvo da politica. Para que cultura em um Estado que debocha da criação, da inteligencia, do turismo, do lazer e do planejamento? Para que cultura em um Estado que condecora com medalhas de méritos e premia corruptos com cargo público? Claro que não é o Estado que produz cultura e arte, mas cabe ao Estado constitucionalmente propiciar condições e meios de difusão, divulgação e preservação de seus valores culturais.
É apenas um ponto de vista de quem percebe e escolheu o seu campo de atuação. E não se esconde das responsabilidades de uma sociedade carente culturalmente como a nossa. Portanto, na situação em que se encontra a área cultural - com o patrimonio arquitetonico indo ao chão. bibliootecas desatualizadas, casas de cultura pedindo socorro, arquivos púlicos aos pedaços, leis de incentivo que existem mais no papel e uma total falta de visão e de profissionalismo na gestão cultural, não é quem vai exercer o cargo de presidente de orgão oficial de cultura que importa, nem questionar a forma de escolha. Alias, soa estranho como um partido questionou uma escolha que é sua. Já que na partilha dos cargos a cultura foi lhe entregue, nada mais justo que esse partido escolha quem bem entender e arque com a responsabilidade de governar. Só não teráo direito de enlamear o governo que participa com uma má gestão. Repetimos, na atual conjuntura cultural do Piauí, o escolhido para gerir o orgão oficial de cultura bem que poderia ser um carneirinho, um burrinho, umavaquinha ou um macaquinho, com todo respeito aos animais e aos primatas, pouco iria adiantar. Pois não vimos e nem deslumbramos em nenhum momento na esfera do governo a importancia da cultura. Pelo contrario, até parece que ela foi rejeitada.
É só pensarmos na demora em que os gestores públicos de cultura foram alçados aos seus cargos, como se não existisse ninguém preparado para assumir tais funç~es. Onde fica a inteligencia do Estado, pessoa capacitadas e preparadas para exercer qualquer cargo no setor cultural? Com que interesses e objetivos se escolhem gestores de cultura no Piauí? Qual o maquiavelismo por trás disso?Custa acreditar que os objetivos sejam escusos, prefirimos apostar que é para não funcionar mesmo e que a cultura continue de pires na mão. Até compreendemos os éssimos saláris e a doação e a doação que precisa ter quem assume esses cargos, mas isso também foi criado pela própria desvalorização do setor.
Esse retrato cruel da cultura em nosso Estado, podemos exemplificar com o ato de uma promotora pública que acabou com o desfile das escolas de samba de Teresina, usando argumentos fajutos, apagando da memória mais de sessenta anos de tradição. Quem do lado do Estado se posicionou contra? Quem do lado do municipio se posicionou contra? Pelo contrário! Oba, até que enfim acabamos com o carnaval! Uma das mais genuínas tradições culturais, viva! Não parece orquestração? Realmente, vivemos tempos absurdos, e como diria o genial Shakespeare, existe algo de podre no reino da Dinamarca, e nós completariamos, e no reio do Piauí.
O descaso, o obscurantismo e o deboche em que se encontra a área cultural do Estado, deveria ser motivo de indignação. Afinal de contas somos parte de um universo maior. E o que pagamos por isso é imensuravel e irrecuperavel. Temo compromisso com o desenvolvimeno do Estado n concepção mais plena do termo. Então, que o povo da cultura descubra-se, valorize-se e assuma cada vez mais , com responsabilidade e dignidade, a sua verdadeira função no todo do qual é parte - um Estado culturalmente isolado e sumido em um mundo globalizado. Sei que os verdadeiros artistas e produtores culturais já fazem demais, mas que não se cansem e nem se entreguem numa arena de pão e circo, e que façam valer cada vez mais o seu brilhantismo, o seu talento e a sua voz para colocar este Estado onde ele merece, coisa que os politicos e as suas velhas e novas práticas nunca colocaram.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A Questão do Ator Piauiense

Há muito tempo vem me preocupando a inserção do ator piauiense no mercado de trabalho. Não só como gestor de uma Escola Técnica de Teatro, que trabalha a formação profissional do ator, mas como produtor e diretor teatral tenho levantado essa questão junto a vários artistas de teatro.
Existe ainda uma confusão, de certa forma normal, mas também duradoura em nosso meio, de que não existe mercado de trabalho para o ator piauiense. A pergunta, então, vem de cara? Pra que formar profissionais de teatro? Se esse dilema ainda é forte no meio teatral, imagine fora dele, onde as universidades particulares e as universidades públicas piauienses, sem contar outros seguimentos sociais, fazem questão de desconhecer o nosso teatro. Claro que o mercado de trabalho para o ator piauiense é incipiente, mas isso impede a formação e a capacitação de mão-de-obra? Se não preparamos a mão-de-obra, como enfrentar o mercado de trabalho, seja aqui ou lá fora? Feita essa observação, lá vem outra questão de fundo: a questão artistica não deve visar o mercado de trabalho. Arte é outra coisa, sim, concordo. Mas concordo, também, que o artista precisa viver de seu trabalho.
A colocação sobre o mercado de trabalho é que tem levado nosso artista de teatro ao impasse: ser o não ser ator? Assumo ou não assumo? A crueldade da dúvida é que tem levado verdadeiros talentos ao estaleiro, a desistência pura e simples. Aliás, os produtores teatrais do Piauí, sempre que descobrem um bom ator, se peguntam: quando é que ele vai trocar o palco por um salário minimo de balconista? Não que ser comerciário seja ruim, ou ganhar um salário também. Mas é que parece que o dinheiro que o ator piauiense ganha, ele não considera. E olhe que como produtor eu digo: o ator piauiense, formado e consciente, ganha dinheiro, e não lhe falta trabalho. Mas isso é preciso ser ator, investir-se do papel da representação, ser no sentido do devir e estar sempre antenado a procura de papel. O ator tem como função atuar, seja no palco, na tv, na publicidade ou no cinema, e, ainda, socialmente, isso significa investir-se da máscara de ator e não dizer simplesmente que é, e fugir na hora de atuar. Esconder no bairro onde mora, no trabalho que executa ou em cada esquina sua profissão. Ser ator, mesmo em Teresina, Piauí, Brasil, é uma profissão digna. Mas tem que encarar. Não é querer ser funcionáro público em primeiro lugar, ou vendedor de perfume, ou comerciário, é querer ser ator em primeiro lugar. Quantos médicos não são cantores, pianistas, atores? Eles se dizem artistas? Não, se dizem médicos. Agora nossos atores, e aqui não generalizo, nunca dizem que são atores, preferem dizer que são empregados na fundação tal, na secretaria tal, no supermercado tal, e tome irresponsabilizadade na hora do ensaio, por que não tem tempo. Por que aquele emprego lá é mais importante do que ser ator, do que seu sonho de vida. Triste realidade de nossos atores.
Bem, espero ter suscintado um debate que está me apaixanando muito. Mesmo por que nosso teatro, mesmo com todas as mazelas, continua em pleno desenvolvimento, e será seguramente a arte maior em pouco tempo.

terça-feira, 6 de julho de 2010

ATRÁS DE PATROCÍNIO

A coisa mais dificil para um produtor cultural é a captação de recursos. Um Deus nos acuda.. Projetos debaixo do braço começa a via crucis. E passou o tempo em que se procurava os orgãos oficiais de cultura, hoje estão fálidos e só tratam de gerência de patrimônio e pessoal, o resto são as leis de incentivo, portanto, a possibilidade de um não é certeza.
A questão do patrocínio cultural no Estado do Piauí merece um debate de fundo e não simples interrogações e perplexidades. Isso pode gerar farpas entre quem produz e quem tem possibilidade de patrocinar. As perguntas são muitas: Quais as empresas que patrocinam cultura em nosso Estado? Quais os produtos ou marcas piauienses que podem ser associados à produção cultural? Existe markenting cultural nas empresas piauienses? São perguntas desafiadoras que podem esclarecer e, de certa forma, fundamentar uma ação em um sentido mais amplo do produtor cultural. É bom não confudir patrocínio, puro e simples, com marketing cultural, nem com o famoso "pai trocínio" de algumas empresas.
Dois aspectos chamam a atenção nesse desafio: primeiro, o parque industrial do Piauí ser muito incipiente e a matriz de grandes empresas instaladas aqui serem de fora do Estado: segundo, a publicidade das empresas locais serem ainda dirigidas para a venda de seus produtos, para a sobrevivencia do mercado, sem agregação do produto a uma visão de marca, ou seja, de marketing. No varejo, é bom aplicar dinheiro num show de grandes bandas de axé ou forró, de preferencia de outros estados, nada contra, do que aplicar num projeto de relevancia cultural.
Ao produtor cultural piauiense resta pensar que existem difiuldades em todos os estados, é fato sim, mas a diferença é gritante. Aqui o produtor tem que lutar contra vários fatores que fogem à lógica do patrocínio, e um desses fatores é que ninguém sabe quais os critérios que as empresas locais usam para distribuir seu dinheiro ou suas doações para a cultura. Não seria interessante estabelecer regras claras e objetivas? Mas, vamos com calma. Antes, se poderia até dizer por que é que se estar patrocinando, ou por que não pode patrocinar. Mas o que tem-se visto são castas de privilégios, patrocinios à cata de retornos fáceis, e um certo ranço com a maioria das manifestações culturais, ou mesmo, contra esse ou aquele produtor. Afinal de contas são tão poucos e o mercado ainda menor. Claro, a empresário tem livre arbitro para patrocinar aqui que gosta ou mesmo quem quizer, mas a sua empresa precisa de transparencia. Muitas vezes a falta de critérios é que gera embates de forma incompreensivel e, às vezes, intolerante tanto de um lado como do outro. O simples não de uma empresa se não bem fundamentado não convence, mas sim torna-se objeto de especulações.
Existem muitos projetos que mereciam ser patrocinados no Estado do Piauí. Obviamente, que existem fragilidades gritantes entre os produtores culturais, aliás, muitos até usam esse nome de forma equivocada. Produzir não é fazer arranjos, improvisar, nem mendingar, produção cultural é uma profissão na economia da cultura. Neste sentido, quem sabe a profissionalização de um bocado de gente que se diz produtor cultural não fosse importante para o próprio desenvolvimento dessa área? Melhoraria muito, principalmente, nos orgãos culturais, onde se confunde funcionário público com artista, produtor cultural com dirigente de orgão de cultura.
Patrocinado e patrocinador têm que ter uma relação de iguais, pois estão vendendo produtos, nas suas devidas dimensões. Ás empresas hoje não cabe apenas uma visão capitalista, ainda que vivamos nesse sistema. Mecanismos existem muitos para que as empresas apliquem na cultura. Isso não é filosofar ao vento, é uma questão de desenvolvimento, de responsabilidade,de grandiosidade, pois se embalar nas criações humanas faz bem e supera a pobreza de espirito.

terça-feira, 29 de junho de 2010

E Nós, o Que Faremos?

Está tudo bem com o povo da cultura? Todo mundo criando, produzindo, apresentando? Pois é, até parece que está tudo bem, mas tenho a impressão que são só aparências, ou melhor dizendo: tudo é silencio, e o manto do silencio faz as coisas parecerem normais.
Vou me deter mais especificamente ao teatro, minha praia. Mas isso, também, servirá para todas as áreas artisticas, afinal de contas estamos no mesmo barco, ou melhor dizendo, no mesmo Estado, mesmo lugar, mesmo chão. O que bem poderia ser no mesmo estado, de penúria. Será isso? Sei lá pode ser que tenha algum artista em extase de felicidade, e a gente não saiba. E aí esse artigo passará como puro ranço, pra ele, claro. Mas como nada é unanimidade, tanto faz. Depois como é bom ter um blog, escrevemos o que queremos e não corremos o risco de pegar um brogue.
Vamos começar pelas leis de incentivo. No Piauí, elas, pelo contrário, desestimulam. A Lei A. Tito Filho, do municipio de Teresina ainda não pagou os projetos do ano passado, e é por que todo mundo está correndo pra lá. Realmente, tinha aquirido uma certa credibilidade até chegar alguém como gestor e parar tudo. Porém, nada como um dia depois do outro. As leis ficam os gestores passam. O da Fundação Monsenhor Chaves já passou. O Sistema de Incentivo à Cultura, do Estado, se perdeu no tempo: durante oito anos do governo petista não saiu do papel. Só para se ter uma idéia ainda não pagou os projetos contemplados em 2008, haja paciência, e saco, hem! Mas também queríamos o que com tanta promessa de salvação da pátria? Não era o
PT que ia fazer a redenção cultural do Piauí? Fez? Não é por nada, não. No entanto, me pareceu uma das piores gestões neste setor. Afora os tambores, quilombolas e a negritude, que eu também adoro, a coisa desandou. Até pareceu um certo òdio, ou uma vingança maligna contra todos aqueles que há mais de vinte anos fazem cultura. Aliás, teve uma proposta terrível do inicio da gestão cultural do PT no estado que era: ninguém com mais de vinte anos de cultura terá vez. Quem sabia dessa? Será que botaram isso em prática gente?
Bem, mas nós da cultura temos culpa. Somos parados politicamente. Só enxergamos o próprio umbigo, e nem na hora do aperto nos juntamos. Sindicato pra que? Federação de Teatro pra que? Acabamos com tudo, não temos forum de nada. E o pau comendo nos couros, principalmente dos novos talentos, os descobertos pelos festivais, pelos concursos literários, pela vontade de fazer. Esses, coitados, não tem pra onde correr. Vamos para por aqui tá? Quem quizer fazer coro comigo, espernei, eu faço isso do meu modo. E só me expresso assim, mesmo nese tipo de veículo global quando a coisa está preta. Alguém da cultura acha o contrário?

sábado, 20 de fevereiro de 2010

SOBRE AS LEIS DE INCENTIVO

Vez por outra vem à tona as discussões sobre as leis de incentivo cultural - Lei A. Tito Filho, da Prefeitura Municipal de Teresina e o Sistema de Incentivo Estadual à Cultura-SIEC, do Governo do Estado do Piauí. As discussões sempre foram pontuais, sem profundidade e, muito menos, esclarecedoras do real papel que essas leis têm para o nosso desenvolvimento cultural.
O Sistema de Incentivo Estadual à Cultura - SIEC, Lei Nº 4.997, de 30 de dezembro de 1997, reformulada e modificada pela Lei Nº 5.405, de 14 de julho de 2004, compreende os mecanismos de Mecenato e Fundo, e foi criada no Conselho Estadual de Cultura, por nossa iniciativa, quando èramos conselheiro. De tanto ser modificado o Projeto original, é uma lei quase morta, pois ficou inviabilizada sua efetivação pela baixa renuncia fiscal do governo, ficando em 70% do valor do projeto em se tratando de patrocinio e de 50% em se tratando de investimento. Qual o incentivador que se arrisca a aplicar na lei, tendo em vista ainda a grande burocracia, a devassa em sua empresa e a demora do governo em restituir seus créditos fiscal? Mas não tem só isso: O Conselho Deliberativo da Lei não é paritário e tem como presidente do Conselho a presidente da Fundação Cultural do Piauí, portanto, sem autonomia.
Um aspecto questinável do Siec são as regras de aprovação de projetos. Só para exemplificar, no edital 2008, publicado no Diário Oficial, foram distribuidos o minimo de projetos a serem aprovados e a quantia a ser recebido, em cada área: Artes Cênicas - 15 projetos de R$ 15.000,00 e 05 projetos de R$ 25.000,00 mil, na lista final de aprovados sairam mais de 20 projetos. Não signiicaria quebra de regra do edital? Ora, ou foram aprovados projetos fora dos valores estipulados ou foram diminuidos orçamentos dos projetos. Até se entende que algum produtor faça projeto de 8.000,00 concorrendo na faixa de 15.000,00 mas isso não seria falha na confecçao do projeto? Portanto, essas coisas confundem o produtor cultural. Não fica claro quais as regras, que deveriam também constar do edital. Além do que o SIEC precisa ser estruturado com sua comissão de funcionamento, que vá desde o acompanhamento do projeto à sua execução e prestação de contas. O mais fica-se boiando num emaranhado de respostas mal dadas.
Quanto a Lei A.Tito filho, Lei Nº 2.194, de 24 de março de 1993, alterada pela Lei º 2.548, de 10 de julho de 1997, que tive a honra de participar da elaboração do anti-projeto, lei que tem a gestão da Fundação cultural Monsenhor Chaves, gestora do Fundo Municipal de Cultura, os equivocos são muitos, a partir de sua gestão.
Em primeiro lugar, a Lei é um fundo, portanto, não deveria ter publicidade em seus produtos. Ora, quem aplica na Lei tem 100% de isenção fiscal, portanto, a marca é da prefeitura Municipal de Teresina. Alguém pode dizer que sem a publicidade das empresas a lei não funcionária, mas é bom lembrar que a empresa só estar adiantando seu dinheiro. Além do que a própria Prefeitura poderia acabar com essa coisa e ela mesmo colocar o dinheiro no Fundo Municipal de Cultura. Outra coisa é que a FCMc sugere aos incentivados que procurem as empresas para patrocinar seus projetos, ora, isso é Mecenato não é fundo.
Outro fato é que a Prefeitura Municipal de teresina não está destinando a dedução fiscal do IPTU para a lei A.tito Filho, só o ISS. Isto é fato. Ademais é vergonhoso um montante de apenas 500.000,00 mil reais para uma capital com mais de 800 mil habitantes. Vamos fazer um calculo simples com dados da Prefeitura do ano de 2007: entre as receitas tributárias, arrecadadas diretamente pela Prefeitura- ISS 54.009,760,62 e IPTU 14.304,012,51. Agora vamos deduzir os 3% de isenção para a Lei A.tito Filho, isso daria aproxidamente 2.270.000,00 dois milhões e duzentos e setenta mil reais. Para onde vai esse dinheiro?
A Prefeitura Municipal de Teresina diz que aplica 2% de seu orçamento em cultura, parabens à Prefeitura. No entanto, esse dinheiro é destinado para a manutenção da máquina burocrática, manutenção de equipamentos culturais e de eventos da FCMC, às vezes mla produzidos e sem retorno de público. O Investimento mesmo na àrea cultural é zero pelo fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves, que parece não passar de gestora de problemas estruturais.
Dito isto, se tiver uma coisa que defendemos são as leis de incentivo, por que nos parecem instrumentos democráticos de livre concorrencia, onde ganham aqueles projetos de excelencias artisticas, ou que assim deveriam ser. Mas como vimos as leis precisam de ajustes. Também, não é preciso que os orgãos oficiais de cultura joguem tudo para as leis de incentivo, esquecendo seus principios básicos de estimulo à arte e a cultura, de uma forma mais ampla.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Sobre Identidade, Carnaval, Perdas e Cinzas.

Agora que já foi decretado o fim dos desfiles das Escolas de Samba de Teresina - e que meus ouvidos cansaram de perguntas se sou a favor ou contra - posso escrever e recordar algumas lembranças e lançar algumas questões.
Sou um apaixonado pelo carnaval, combina com meu jeito timido e extrovertido, afinal de contas é no carnaval que podemos fazer tudo aquilo que queremos, pois é naquele espaço de dias da embriaguês, da música e da alegria que todos somos iguais, ou quase. Há mais de 40 anos moro no bairro mafuá, pertinho da Vila Operária um dos berços do samba piauiense. Convivi desde os anos 70 com escolas e blocos carnavalescos, pó de maizena e lança-perfume. Teresina era uma festa no carnaval: River Atletico Clube, Cabos e Soldados, Jockey Clube, União Artistica Piauiense, Clube Pirantinga, Classes Produtoras, Flamengo, Marques, Baixa da ègua, Palmeirinha, Frei Serafim e os desfiles das Escolas de Samba, imperdivel, meu velho! Triste foi quando parou tudo nos anos 80. Teresina parecia ter escurecido sem as festas de momo, uma escuridão que desnorteou os tamburins e calou as cuicas; um amargor na goela dos puxadores de samba-enredo e uma tristeza sem fim nos corações dos compositores e dos foliões.
Veio os anos 90. As fantasias guardadas e o peito dos apaixonados pelo carnaval batendo cada vez mais forte, desistir nunca! Esperança e ritmo na cadência do samba. As forças se aglutinaram e, em 1993, aconteceu um evento denominado Reviver Carnaval, um Seminário realizado pela Fundação Cultura Mons. Chaves e a Secretaria de Esportes e Lazer- Semel, na Casa da Cultura de Teresina, tudo acompanhado por uma exposição de fotos, fantasias carnavalescas. Foi a partir dali os tamborins começaram a esquentar. Participei de uma mesa onde estava Marcos Peixoto, o super-produtor cultural que fazia a Micarina com grandes trios baianos, nada que impedisse nosso carnaval de existir. O seminário foi todo documentado, e ali estavam todos os presidentes de escolas de samba e pessoas apaixonadas pelo carnaval deixando suas idéias e opiniões. O carnaval tinha voltado para a alegria de todos, principalmente minha. Tenho o documento, quem quiser ler me peça uma cópia.
1994, todas as Escolas de Samba na Avenida Frei Serafim. Mauro Monteiro, um gigante, dando tudo de si como organizador. O povo de Teresina invadiu a Frei Serafim, que ficou pequena, veio Marechal Castelo Branco, brilhante idéia, mais espaço e conforto. Em 1997, um ingrediente a mais: o corso carnavalesco e o caminhão das raparigas-atrizes piauienses representando, criação da FCMC, sob a responsabilidade de Cecilia Mendes, Afonso Lima, Laria Sales, Ací Campelo, Daniel, Wellington, uma festa! No começo, dois caminhões apenas, dez anos depois o corso tomaria conta da cidade. Mas, e agora? Como ser feliz no carnaval se não vai mais existir desfiles? Como ficará o corso? Aliás, corso pra que?
O mais terrível de tudo é negar a tradição. Escolas de Samba sempre existiram em Teresina, há mais 50 anos, não é, então, uma tradição?Não é uma história?Por isso é que às vezes penso que nós somos culpados pela nossa incrivel capacidade de negar a nós mesmo. Estamos sempre acabando com aquilo que construímos, que aquilo que pode sugerir nossa identidade cultural, nossas raízes, nossas heranças, então, ficamos navegando e boiando sem paradeiro, na busca de qualquer tábua de salvação, num desreito total à construção de nossa cidadania. No Piauí, o gosto pessoal de alguns quando se apoderam do poder paira sobre o gosto dos outros. Não gosto, não quero, não tem pra ninguém. Mesquinhez pura.
Fico comigo a lembrar do bloco do Pererê, alô Ral! Do bloco da Tijubina do Mafuá, criado por Ubirani Rocha, do qual banquei o letrista dos sambas e, por ùltimo, do Baião de Boi, do Severinos Santos, onde desfilei nos ùltimos três anos. e o Bosco com sua Escola de Samba da qual me homenageou, me colocando no Samba Enredo? E o principe do carnaval, senhor da glória Manuel Messias. onde vamos dançar agora? E pra quem? Não irei aos bairros vê escolas de samba desgarradas fazendo coro para trios elétricos, nada contra, absolutamente. Acho que até os próprios bairros irão estranhar, afinal de contas muitos deles se dirigiam a avenida para vê as escolas, não é verdade?
Mas, vamos com calma. A identidade de um povo é construída pedra sobre pedra e, às vezes, ficam só as pedras, para renascer das cinzas matando a tirania. Que viva o carnaval!