terça-feira, 6 de julho de 2010

ATRÁS DE PATROCÍNIO

A coisa mais dificil para um produtor cultural é a captação de recursos. Um Deus nos acuda.. Projetos debaixo do braço começa a via crucis. E passou o tempo em que se procurava os orgãos oficiais de cultura, hoje estão fálidos e só tratam de gerência de patrimônio e pessoal, o resto são as leis de incentivo, portanto, a possibilidade de um não é certeza.
A questão do patrocínio cultural no Estado do Piauí merece um debate de fundo e não simples interrogações e perplexidades. Isso pode gerar farpas entre quem produz e quem tem possibilidade de patrocinar. As perguntas são muitas: Quais as empresas que patrocinam cultura em nosso Estado? Quais os produtos ou marcas piauienses que podem ser associados à produção cultural? Existe markenting cultural nas empresas piauienses? São perguntas desafiadoras que podem esclarecer e, de certa forma, fundamentar uma ação em um sentido mais amplo do produtor cultural. É bom não confudir patrocínio, puro e simples, com marketing cultural, nem com o famoso "pai trocínio" de algumas empresas.
Dois aspectos chamam a atenção nesse desafio: primeiro, o parque industrial do Piauí ser muito incipiente e a matriz de grandes empresas instaladas aqui serem de fora do Estado: segundo, a publicidade das empresas locais serem ainda dirigidas para a venda de seus produtos, para a sobrevivencia do mercado, sem agregação do produto a uma visão de marca, ou seja, de marketing. No varejo, é bom aplicar dinheiro num show de grandes bandas de axé ou forró, de preferencia de outros estados, nada contra, do que aplicar num projeto de relevancia cultural.
Ao produtor cultural piauiense resta pensar que existem difiuldades em todos os estados, é fato sim, mas a diferença é gritante. Aqui o produtor tem que lutar contra vários fatores que fogem à lógica do patrocínio, e um desses fatores é que ninguém sabe quais os critérios que as empresas locais usam para distribuir seu dinheiro ou suas doações para a cultura. Não seria interessante estabelecer regras claras e objetivas? Mas, vamos com calma. Antes, se poderia até dizer por que é que se estar patrocinando, ou por que não pode patrocinar. Mas o que tem-se visto são castas de privilégios, patrocinios à cata de retornos fáceis, e um certo ranço com a maioria das manifestações culturais, ou mesmo, contra esse ou aquele produtor. Afinal de contas são tão poucos e o mercado ainda menor. Claro, a empresário tem livre arbitro para patrocinar aqui que gosta ou mesmo quem quizer, mas a sua empresa precisa de transparencia. Muitas vezes a falta de critérios é que gera embates de forma incompreensivel e, às vezes, intolerante tanto de um lado como do outro. O simples não de uma empresa se não bem fundamentado não convence, mas sim torna-se objeto de especulações.
Existem muitos projetos que mereciam ser patrocinados no Estado do Piauí. Obviamente, que existem fragilidades gritantes entre os produtores culturais, aliás, muitos até usam esse nome de forma equivocada. Produzir não é fazer arranjos, improvisar, nem mendingar, produção cultural é uma profissão na economia da cultura. Neste sentido, quem sabe a profissionalização de um bocado de gente que se diz produtor cultural não fosse importante para o próprio desenvolvimento dessa área? Melhoraria muito, principalmente, nos orgãos culturais, onde se confunde funcionário público com artista, produtor cultural com dirigente de orgão de cultura.
Patrocinado e patrocinador têm que ter uma relação de iguais, pois estão vendendo produtos, nas suas devidas dimensões. Ás empresas hoje não cabe apenas uma visão capitalista, ainda que vivamos nesse sistema. Mecanismos existem muitos para que as empresas apliquem na cultura. Isso não é filosofar ao vento, é uma questão de desenvolvimento, de responsabilidade,de grandiosidade, pois se embalar nas criações humanas faz bem e supera a pobreza de espirito.

terça-feira, 29 de junho de 2010

E Nós, o Que Faremos?

Está tudo bem com o povo da cultura? Todo mundo criando, produzindo, apresentando? Pois é, até parece que está tudo bem, mas tenho a impressão que são só aparências, ou melhor dizendo: tudo é silencio, e o manto do silencio faz as coisas parecerem normais.
Vou me deter mais especificamente ao teatro, minha praia. Mas isso, também, servirá para todas as áreas artisticas, afinal de contas estamos no mesmo barco, ou melhor dizendo, no mesmo Estado, mesmo lugar, mesmo chão. O que bem poderia ser no mesmo estado, de penúria. Será isso? Sei lá pode ser que tenha algum artista em extase de felicidade, e a gente não saiba. E aí esse artigo passará como puro ranço, pra ele, claro. Mas como nada é unanimidade, tanto faz. Depois como é bom ter um blog, escrevemos o que queremos e não corremos o risco de pegar um brogue.
Vamos começar pelas leis de incentivo. No Piauí, elas, pelo contrário, desestimulam. A Lei A. Tito Filho, do municipio de Teresina ainda não pagou os projetos do ano passado, e é por que todo mundo está correndo pra lá. Realmente, tinha aquirido uma certa credibilidade até chegar alguém como gestor e parar tudo. Porém, nada como um dia depois do outro. As leis ficam os gestores passam. O da Fundação Monsenhor Chaves já passou. O Sistema de Incentivo à Cultura, do Estado, se perdeu no tempo: durante oito anos do governo petista não saiu do papel. Só para se ter uma idéia ainda não pagou os projetos contemplados em 2008, haja paciência, e saco, hem! Mas também queríamos o que com tanta promessa de salvação da pátria? Não era o
PT que ia fazer a redenção cultural do Piauí? Fez? Não é por nada, não. No entanto, me pareceu uma das piores gestões neste setor. Afora os tambores, quilombolas e a negritude, que eu também adoro, a coisa desandou. Até pareceu um certo òdio, ou uma vingança maligna contra todos aqueles que há mais de vinte anos fazem cultura. Aliás, teve uma proposta terrível do inicio da gestão cultural do PT no estado que era: ninguém com mais de vinte anos de cultura terá vez. Quem sabia dessa? Será que botaram isso em prática gente?
Bem, mas nós da cultura temos culpa. Somos parados politicamente. Só enxergamos o próprio umbigo, e nem na hora do aperto nos juntamos. Sindicato pra que? Federação de Teatro pra que? Acabamos com tudo, não temos forum de nada. E o pau comendo nos couros, principalmente dos novos talentos, os descobertos pelos festivais, pelos concursos literários, pela vontade de fazer. Esses, coitados, não tem pra onde correr. Vamos para por aqui tá? Quem quizer fazer coro comigo, espernei, eu faço isso do meu modo. E só me expresso assim, mesmo nese tipo de veículo global quando a coisa está preta. Alguém da cultura acha o contrário?

sábado, 20 de fevereiro de 2010

SOBRE AS LEIS DE INCENTIVO

Vez por outra vem à tona as discussões sobre as leis de incentivo cultural - Lei A. Tito Filho, da Prefeitura Municipal de Teresina e o Sistema de Incentivo Estadual à Cultura-SIEC, do Governo do Estado do Piauí. As discussões sempre foram pontuais, sem profundidade e, muito menos, esclarecedoras do real papel que essas leis têm para o nosso desenvolvimento cultural.
O Sistema de Incentivo Estadual à Cultura - SIEC, Lei Nº 4.997, de 30 de dezembro de 1997, reformulada e modificada pela Lei Nº 5.405, de 14 de julho de 2004, compreende os mecanismos de Mecenato e Fundo, e foi criada no Conselho Estadual de Cultura, por nossa iniciativa, quando èramos conselheiro. De tanto ser modificado o Projeto original, é uma lei quase morta, pois ficou inviabilizada sua efetivação pela baixa renuncia fiscal do governo, ficando em 70% do valor do projeto em se tratando de patrocinio e de 50% em se tratando de investimento. Qual o incentivador que se arrisca a aplicar na lei, tendo em vista ainda a grande burocracia, a devassa em sua empresa e a demora do governo em restituir seus créditos fiscal? Mas não tem só isso: O Conselho Deliberativo da Lei não é paritário e tem como presidente do Conselho a presidente da Fundação Cultural do Piauí, portanto, sem autonomia.
Um aspecto questinável do Siec são as regras de aprovação de projetos. Só para exemplificar, no edital 2008, publicado no Diário Oficial, foram distribuidos o minimo de projetos a serem aprovados e a quantia a ser recebido, em cada área: Artes Cênicas - 15 projetos de R$ 15.000,00 e 05 projetos de R$ 25.000,00 mil, na lista final de aprovados sairam mais de 20 projetos. Não signiicaria quebra de regra do edital? Ora, ou foram aprovados projetos fora dos valores estipulados ou foram diminuidos orçamentos dos projetos. Até se entende que algum produtor faça projeto de 8.000,00 concorrendo na faixa de 15.000,00 mas isso não seria falha na confecçao do projeto? Portanto, essas coisas confundem o produtor cultural. Não fica claro quais as regras, que deveriam também constar do edital. Além do que o SIEC precisa ser estruturado com sua comissão de funcionamento, que vá desde o acompanhamento do projeto à sua execução e prestação de contas. O mais fica-se boiando num emaranhado de respostas mal dadas.
Quanto a Lei A.Tito filho, Lei Nº 2.194, de 24 de março de 1993, alterada pela Lei º 2.548, de 10 de julho de 1997, que tive a honra de participar da elaboração do anti-projeto, lei que tem a gestão da Fundação cultural Monsenhor Chaves, gestora do Fundo Municipal de Cultura, os equivocos são muitos, a partir de sua gestão.
Em primeiro lugar, a Lei é um fundo, portanto, não deveria ter publicidade em seus produtos. Ora, quem aplica na Lei tem 100% de isenção fiscal, portanto, a marca é da prefeitura Municipal de Teresina. Alguém pode dizer que sem a publicidade das empresas a lei não funcionária, mas é bom lembrar que a empresa só estar adiantando seu dinheiro. Além do que a própria Prefeitura poderia acabar com essa coisa e ela mesmo colocar o dinheiro no Fundo Municipal de Cultura. Outra coisa é que a FCMc sugere aos incentivados que procurem as empresas para patrocinar seus projetos, ora, isso é Mecenato não é fundo.
Outro fato é que a Prefeitura Municipal de teresina não está destinando a dedução fiscal do IPTU para a lei A.tito Filho, só o ISS. Isto é fato. Ademais é vergonhoso um montante de apenas 500.000,00 mil reais para uma capital com mais de 800 mil habitantes. Vamos fazer um calculo simples com dados da Prefeitura do ano de 2007: entre as receitas tributárias, arrecadadas diretamente pela Prefeitura- ISS 54.009,760,62 e IPTU 14.304,012,51. Agora vamos deduzir os 3% de isenção para a Lei A.tito Filho, isso daria aproxidamente 2.270.000,00 dois milhões e duzentos e setenta mil reais. Para onde vai esse dinheiro?
A Prefeitura Municipal de Teresina diz que aplica 2% de seu orçamento em cultura, parabens à Prefeitura. No entanto, esse dinheiro é destinado para a manutenção da máquina burocrática, manutenção de equipamentos culturais e de eventos da FCMC, às vezes mla produzidos e sem retorno de público. O Investimento mesmo na àrea cultural é zero pelo fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves, que parece não passar de gestora de problemas estruturais.
Dito isto, se tiver uma coisa que defendemos são as leis de incentivo, por que nos parecem instrumentos democráticos de livre concorrencia, onde ganham aqueles projetos de excelencias artisticas, ou que assim deveriam ser. Mas como vimos as leis precisam de ajustes. Também, não é preciso que os orgãos oficiais de cultura joguem tudo para as leis de incentivo, esquecendo seus principios básicos de estimulo à arte e a cultura, de uma forma mais ampla.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Sobre Identidade, Carnaval, Perdas e Cinzas.

Agora que já foi decretado o fim dos desfiles das Escolas de Samba de Teresina - e que meus ouvidos cansaram de perguntas se sou a favor ou contra - posso escrever e recordar algumas lembranças e lançar algumas questões.
Sou um apaixonado pelo carnaval, combina com meu jeito timido e extrovertido, afinal de contas é no carnaval que podemos fazer tudo aquilo que queremos, pois é naquele espaço de dias da embriaguês, da música e da alegria que todos somos iguais, ou quase. Há mais de 40 anos moro no bairro mafuá, pertinho da Vila Operária um dos berços do samba piauiense. Convivi desde os anos 70 com escolas e blocos carnavalescos, pó de maizena e lança-perfume. Teresina era uma festa no carnaval: River Atletico Clube, Cabos e Soldados, Jockey Clube, União Artistica Piauiense, Clube Pirantinga, Classes Produtoras, Flamengo, Marques, Baixa da ègua, Palmeirinha, Frei Serafim e os desfiles das Escolas de Samba, imperdivel, meu velho! Triste foi quando parou tudo nos anos 80. Teresina parecia ter escurecido sem as festas de momo, uma escuridão que desnorteou os tamburins e calou as cuicas; um amargor na goela dos puxadores de samba-enredo e uma tristeza sem fim nos corações dos compositores e dos foliões.
Veio os anos 90. As fantasias guardadas e o peito dos apaixonados pelo carnaval batendo cada vez mais forte, desistir nunca! Esperança e ritmo na cadência do samba. As forças se aglutinaram e, em 1993, aconteceu um evento denominado Reviver Carnaval, um Seminário realizado pela Fundação Cultura Mons. Chaves e a Secretaria de Esportes e Lazer- Semel, na Casa da Cultura de Teresina, tudo acompanhado por uma exposição de fotos, fantasias carnavalescas. Foi a partir dali os tamborins começaram a esquentar. Participei de uma mesa onde estava Marcos Peixoto, o super-produtor cultural que fazia a Micarina com grandes trios baianos, nada que impedisse nosso carnaval de existir. O seminário foi todo documentado, e ali estavam todos os presidentes de escolas de samba e pessoas apaixonadas pelo carnaval deixando suas idéias e opiniões. O carnaval tinha voltado para a alegria de todos, principalmente minha. Tenho o documento, quem quiser ler me peça uma cópia.
1994, todas as Escolas de Samba na Avenida Frei Serafim. Mauro Monteiro, um gigante, dando tudo de si como organizador. O povo de Teresina invadiu a Frei Serafim, que ficou pequena, veio Marechal Castelo Branco, brilhante idéia, mais espaço e conforto. Em 1997, um ingrediente a mais: o corso carnavalesco e o caminhão das raparigas-atrizes piauienses representando, criação da FCMC, sob a responsabilidade de Cecilia Mendes, Afonso Lima, Laria Sales, Ací Campelo, Daniel, Wellington, uma festa! No começo, dois caminhões apenas, dez anos depois o corso tomaria conta da cidade. Mas, e agora? Como ser feliz no carnaval se não vai mais existir desfiles? Como ficará o corso? Aliás, corso pra que?
O mais terrível de tudo é negar a tradição. Escolas de Samba sempre existiram em Teresina, há mais 50 anos, não é, então, uma tradição?Não é uma história?Por isso é que às vezes penso que nós somos culpados pela nossa incrivel capacidade de negar a nós mesmo. Estamos sempre acabando com aquilo que construímos, que aquilo que pode sugerir nossa identidade cultural, nossas raízes, nossas heranças, então, ficamos navegando e boiando sem paradeiro, na busca de qualquer tábua de salvação, num desreito total à construção de nossa cidadania. No Piauí, o gosto pessoal de alguns quando se apoderam do poder paira sobre o gosto dos outros. Não gosto, não quero, não tem pra ninguém. Mesquinhez pura.
Fico comigo a lembrar do bloco do Pererê, alô Ral! Do bloco da Tijubina do Mafuá, criado por Ubirani Rocha, do qual banquei o letrista dos sambas e, por ùltimo, do Baião de Boi, do Severinos Santos, onde desfilei nos ùltimos três anos. e o Bosco com sua Escola de Samba da qual me homenageou, me colocando no Samba Enredo? E o principe do carnaval, senhor da glória Manuel Messias. onde vamos dançar agora? E pra quem? Não irei aos bairros vê escolas de samba desgarradas fazendo coro para trios elétricos, nada contra, absolutamente. Acho que até os próprios bairros irão estranhar, afinal de contas muitos deles se dirigiam a avenida para vê as escolas, não é verdade?
Mas, vamos com calma. A identidade de um povo é construída pedra sobre pedra e, às vezes, ficam só as pedras, para renascer das cinzas matando a tirania. Que viva o carnaval!

segunda-feira, 27 de julho de 2009

ADEUS, MINHA BELA TERESINA

Estou sendo saudosista com este artigo, com absoluta certeza e, também, com absoluto prazer. O centro de Teresina, minha bela e querida cidade, está ficando desfigurado, feio, cheio de vazios que a fazem sem vida. Semana a semana uma casa de sentido histórico vai ao chão, sem pena e sem dor. E nós ficamos mais pobres de identidade, de sentidos, procurando no pensamento ao menos uma resposta para tanta insanidade. Claro que existem milhares de respostas, mas nós não queremos escutar as respostas que inventam. A nós, amantes dessa cidade e de sua história, gostaríamos mesmo era que ela continuasse com seus casarões particulares, de onde ela começou e de onde gerou sua gente, suas histórias e nossa herança cultural.
Quando eu fui diretor de arte da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, da Prefeitura de Teresina nos anos 90, precisamente de 1993 a 2000, foi feito um levantamento completo de todas as casas, monumentos e prédios históricos da cidade. Um trabalho primoroso feito com todo rigor e dentro dos parâmetros de arquitetura e urbanismo. Lembro que o profissional contratado para o trabalho o fez, muitas vezes, durante a noite para não vazar exatamente o seu trabalho, pois serviria para catalogação e preservação histórica. Milhares de fotos foram batidas das casas, prédios e monumentos da cidade, o que gerou uma documentação guardada pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves a sete segredos. Coitados de nós. Quando a documentação foi para a Prefeitura de Teresina as casas começaram a cair de uma por uma. Longe de mim qualquer ligação, mas a coincidência foi incrível. Lembram? O centro de Teresina começou a despencar de uns dez anos para cá.
O que nos deixa tristes e impotentes diante de tanta barbárie pela ganância especulativa, é a indiferença de muitos. A gente escuta de pessoas formadoras de opinião de que Teresina é novinha em folha, portanto, não tem ainda memória histórica. Para que conservar casas velhas, prédios velhos caindo aos pedaços apenas de 150 anos? Vai ter memória histórica quando, então? Dessa forma, infelizmente, nunca. Outros, usando de uma bobice sem tamanho a taxam de cosmopolita. Cidade de passagem, onde o novo mais novo do mundo globalizado está aqui no outro dia. Somos antenados mais do que os outros. É tanto que não damos valor ao que é nosso: ao nosso cantor e compositor, ao nosso bailarino, ao nosso artista plástico, ao nosso teatro, aos nossos literatos, ao nosso futebol, ao nosso bumba-meu-boi, ao nosso folclore. Claro, estamos derrubando tudo. Queremos tudo no chão e que nada se levante, só assim podemos louvar e amar ainda mais o que é do outro. Falta a muitos a percepção de que o outro guardou, e vende caro a nós mesmo aquilo que é deles e que eles louvam e amam.
O exemplo que nos deixa de cabeça baixa está em nossa própria região.Vamos aos estados do Maranhão, onde o centro histórico está totalmente preservado e faz um bem danado você andar à noite e ver dezenas de barzinhos abertos em frente a belos prédios e casarões, onde artistas encantam e cantam seus ritmos e folguedos: O Estado de Pernambuco, com seu Recife velho fazendo um contraponto com o Recife novo: A Bahia, onde o pelourinho destila história e cultura por seus corredores pintados de cores fortes e iluminados, e o Ceará, bem aí, onde o Complexo do Dragão do Mar faz convergir em um mesmo espaço a diversidade cultural em todos os sentidos. Nós, aqui não. Somos os tais, os maiores do mundo, não precisamos de história, muito pior de identidade cultural, ainda mais de simples casarões e prédios velhos a atrapalhar o progresso! Progresso que vem em quatro rodas - e tome carros em lugar de gente. Daqui a pouco Teresina será um grande estacionamento. E nós, que gostamos tanto dessa cidade, estaremos enjaulados e condenados a viver de lembranças. Lembranças? Não, para ser melhor, de banzo. Nunca mais veremos Teresina nenhuma.

O INCRÍVEL MANTO DO SILÊNCIO

O incrível do titulo foi escrito por que eu gosto da palavra incrível. Ela dar um charme todo especial. O leitor interpreta da forma que melhor entender. Para mim o fato foi incrível, de todos os ângulos. E eu tinha que escrever sobre isso. Vamos a ele.
O 26º Salão Internacional de Humor do Piauí aconteceu de 01 a 07 de julho passado, apesar de uma grande torcida contra. Torcida esta que está sempre aposta quando se trata de elevar a nossa auto-estima, quase sempre formada por uma pseudo-burguesia ou por um bando de pessoas que bocejam ao menor sinal de vida inteligente. O Salão é realizado pela Fundação Nacional do Humor, dirigida pelo Albert Piauí que, diga-se de passagem, luta desesperadamente contra todos os tipos de obstáculos. O Salão, já na sua maioridade, até parece um eterno recomeço na sua realização. Falta de profissionalismo? Falta de planejamento? Falta de parcerias? Falta de direcionamento? São várias as perguntas, mas não é sobre isso que queremos falar. Ainda que a torcida contra faça questão de dizer que é falta de tudo isso, e muito mais.
Gostaríamos de colocar que o Salão Internacional de Humor do Piauí é um dos únicos eventos culturais do Estado a nível nacional. Acho que só existe com tamanha envergadura ele e o Encontro Nacional de Folguedos, este promovido pelo governo do Estado. Isto posto, dar margem para o que vamos dizer em seguida. O Salão Internacional de Humor do Piauí é imprescindível para que a cultura piauiense permaneça no calendário cultural do Estado. Portanto, lutar pela sua permaneça se faz mais do que necessário, é quase uma imposição. Qual o povo que não gosta de ser visto, apreciado e elogiado pelos outros povos?
Há vinte e seis anos acompanho o Salão internacional de Humor do Piauí, inclusive, já dirigi, no Theatro 4 de Setembro, um de seus espetáculos de abertura numa de suas edições. Portanto, já vi de tudo acontecer em torno dele, à frente, atrás e dos lados. Posso dizer espantado que o episódio acontecido nesta sua 26ª edição vai para a galeria dos acontecimentos sombrios: as obras de alguns dos maiores artistas plásticos piauienses foram retiradas na calada da noite do passeio da avenida Frei Serafim, coração de nossa bela cidade. Qual o motivo? Segundo nota da Prefeitura de Teresina, estavam em desacordo com as normas técnicas do passeio público. Normas técnicas no passeio público para exposições de obras de arte já soa estranho, mas até aí tudo bem. Quixotesco mesmo, grotesco, ridículo, bizarro e horroroso foi a forma de retirar as obras.
A Prefeitura de Teresina, conduzida tão bem há quase vinte anos pelo mesmo partido, parece decidir tudo sozinha em nome de todos. Diga-se decidir tudo em nome de todos, o senhor prefeito municipal. O prefeito manda, os subordinados fecham os olhos e obedecem. Nada mais correto do ponto de vista político, mas talvez politicamente incorreto do ponto de visto ético. Aqui não é obedecer cegamente, é obedecer burramente. E, convenhamos, nem tudo se obedece burramente. Ora, a Prefeitura tem seus secretários, seus superintendentes, seus diretores e assessores especiais, e, neste caso, tem uma fundação de cultura municipal - A Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Portanto, um elo de ligação entre aqueles que produzem arte e o poder público. Pelo menos era para ser assim. Até que perdoamos um superintendente de desenvolvimento urbano da cidade que manda jogar obras de arte em cima de um caminhão em plena madrugada. Não era para perdoar, mas o fazemos em nome do bom senso: eles são incapazes de diferenciar arte de lixo. Agora fica difícil acreditar na falta de dialogo entre o presidente de uma fundação cultural da cidade e um produtor de cultura, ainda mais quando esse produtor cultural é o presidente de outra fundação - A Fundação Nacional de Humor e, ainda mais além, quando a Fundação Monsenhor Chaves é dirigida por um dos mais digno e ilustre homem de cultura do nosso Estado, o Professor Cinéas Santos. Dessa forma, a falta de diálogo que marcou o episodio foi de um mau humor sem fim. Em pleno Salão de Humor.
Mesmo que o prefeito tenha proibido terminantemente a exposição e determinado ao tal superintendente retirar as obras de arte da Avenida Frei Serafim, não custava nada o presidente da fundação cultural do município ter entrado em contato com a direção do evento e combinado a retirada das obras. Mas não, as coisas não aconteceram dessa forma. Se o prefeito quis, se vire com ele. Não temos nada com isso. Não temos? E a criação artística, a expressão livre da palavra, do pensamento e das obras de arte não são princípios a serem defendidos por uma fundação cultural?
O fato foi de uma barbeiragem impressionante. Foi incrível! O prefeito teria que ter tido um interlocutor, não é para isso que existem os cargos de confiança na prefeitura? Quer dizer que sua excelência trata tudo pessoalmente? Custa crer, mesmo por que nem tempo ele teria. Portanto, o que custaria um telefonema, um aviso, um encontro em nome do prefeito para acertar e deixar tudo bonitinho? E por que retirar as obras na calada da noite? Foi especial por que se tratava de um evento cultural a nível nacional? Ou seriam velhas rixas com o parceiro presidente da Fundação Nacional de Humor? Novamente custa crer. Sua excelência não seria capaz de tanto por tão pouco. Vamos acreditar que foi mesmo em nome de normas técnicas ou que não houve tempo para o dialogo ou mesmo que não se discutiu o bom senso por falta de bom senso, e as obras deixaram de ser vista pelo público lá onde elas ficariam mais interessantes de serem vistas. Tudo aquilo ficou difícil de digerir, principalmente em se tratando de cultura, que não é privilegio de ninguém, no entanto, é uma área tão necessária para a cidade quanto gente em primeiro lugar.
O mais grave para mim, por tão grave que tenha sido a retirada das obras daquela forma, foi a falta de ligação entre o senhor prefeito e o artista Albert Piauí, e essa ligação teria que ter sido feito via Fundação Cultural monsenhor Chaves. Pois do jeito que a coisa foi feita parece teimosia de iluminados e só quem saiu perdendo foi a cultura. Com todo respeito que tenho ao ilustre professor Cinéas Santos, mas de outra vez abra o dialogo com o prefeito e, então, os velhos amigos não passarão a ser inimigos, e a arte e a cultura não passarão a fazer mal à cidade, e o silencio jamais prevalecerá em nome de uma nesga de poder. Me perdoem meus queridos amigos que exercem o mando nos órgãos oficiais de cultura, o mínimo que se exigiria em momentos como aquele seria uma palavrinha na defesa, senão dos artistas, mas de suas obras.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Teatro Piauiense - A Curva Dramática

Quem entende de dramaturgia sabe o que significa curva dramática. Vamos roubar ou pedir licença para colocar esse titulo em nossa reflexão sobre o momento que atravessa o teatro piauiense.
Atordoados entre o semi-profissionalismo e o profissionalismo, tendo em vista que o teatro amador do Piauí morreu, dramaturgos, artistas, técnicos e produtores de teatro de nossa terra vivem mil dilemas vendo a cada momento essa área perder espaço para outros seguimentos culturais. Os orgãos públicos em suas políticas de ação cultural, pois nenhuma Fundação Cultural , nem do municipio nem do Estado, tem políticas públicas de teatro, tratam essa área cultural da forma mais mesquinha e atrasada possível. Só para dar um exemplo, o teatro é visto pelo gestores culturais como um seguimento artistico que dar trabalho trabalhar com ele: os artistas de teatro são exigentes, contestadores, insatisfeitos e só trabalham por dinheiro. Visão equivocada de quem tem por dever o apoio a diversidade cultural. E mesmo que os artistas de teatro fossem tudo que falam, essa arte ainda é a vanguarda em termos de criatividade e de transformação social. Aliás não aceitar o que querem fazer do teatro no Piauí já é uma forma de inconformismo e de não aceitação desse nenhem,nenhem, em que se transoformou a cultura oficial do Estado. É também uma forma de esconder a incompetencia e de só aceitar o conformismo de muitos artistas que se submetem a qualquer coisa por quase nada.
A curva dramática do teatro piauiense está exatamente nesse momento de decisão de que todos nós, diretores de teatro, artistas e produtores e dramaturgos, devemos tomar para superar esse momento em que o teatro piauiense perde espaço diante dos inúmeros obstáculos que lhe são impostos, seja dos orgão culturais ou mesmo da falta de representação de classe. É preciso que haja um esforço enorme da parte do povo teatral para consigamos superar esse momento em que os orgãos oficiais de cultura, de forma deliberada, parecem esquecer do teatro como forma de expressão e de fazer artistico.
Temos como saida mostrar, como sempre foi mostrada pelos artistas, alternativas viaveis em que o teatro piauiense sempre trilhou seu caminho. E esse caminho tem que ser trilhado pelo lado da seriedade, do estudo e do compromisso com nós mesmo enquanto produtores de cultura. O engajamento politico tem que ser retomado,não no sentido de politica partidária isso é com os politicos de carreira, nossa politica tem que ser a politica de reivindicação de espaço. de politicas públicas de cultura para o teatro, e de lascar o pau na hipocrisia, na mesmice em que se transformou a cultura feita pelos orgãos públicos do Estado.
Vamos fazer da nossa curva dramática o momento de transformação, pois asseguramos que está em tempo de rever conceitos, participar, dar alternativas e quebrar velhas estruturas que só o teatro,superador de tragédias e coisas trágicas é capaz de fazer. A transformação tem que ser agora. A curva deve mostrar um novo horizonte, é bem ali. Bastar dobrar.