sábado, 8 de junho de 2013


                                                        DE  PARTIDA.


             Com os olhos pregados no ônibus José Lembrava o que corria de boca a boca lá pelo sertão:
           - No sul do país você ganha a vida.
             Cada dia o lugar ia ficando vazio de homens, os forrós e as moças. A propaganda do agente de viagem arrastava os pobres desempregados pela estiagem.
            No peito de José uma estranha sensação, o pensamento cheio de visões otimistas.
          - No sul do país tem de tudo! Era como se ouvisse todos dizerem.
            Tinha chegado a rodoviária da capital escuro ainda. Na hora certa o ônibus riscara. Ao seu redor maletas, sacos, rostos tensos, sorrisos amarelos nas faces de alguns que estavam solitários. Ele com seus pertences na mão. Ali não tinha mais agente de viagem alardeando bonança, só o motorista do ônibus  de cara fechada esperando todos saírem. Ninguém prestava atenção a ninguém.
           Antigamente precisaria ir à cidade comprar passagens, agora o agente estava lá, era só marcar o dia. Foi o que José fez.
           A decisão de ir embora fora uma noite inteira de intensa luta intima, vagando pelas veredas do Capuamo de litro na mão. As palavras na cabeça.
         - No sul do país você se emprega, ganha muito dinheiro, fica rico.
           O governo tinha mandado abrir frentes de trabalho: era construir açudes, barragens e estradas inúteis. O que José não aguentava mais.
          Agora, à porta do ônibus, só lembranças que iam aumentando ao aproximar-se a hora da partida, torturando seu coração.  Tinha agido certo, sim. Iria sair dos pés dos balcões daquela terra sem futuro em busca de um mundo cheio de oportunidades, que lhe daria nova vida. Depois todos estavam indo. Mas lá existiria outro Manoel? E Raimundinho da bodega, e Pedrinho da Garapa?Lá existiria outra Mariana?
         Mariana. Não tivera coragem de se despedir dela, tanto que a amava. Manoel na certa lhe diria, fora o amigo escolhido para andar com ele pelas veredas escuras na noite de despedida. Um dia viria buscar Mariana, era só ganhar as coisas, ficar rico. Mas se nada desse certo?
       Uma sensação estranha no peito aumentava ao pensar na separação total. Nunca mais vê Mariana, nem o amigo Manoel, nem ouvir mais terços na casa de dona Bentinha e arrematar bolo de goma no leilão. Ainda era hora de desistir. Não seria corpo mole não querer mais enfrentar a terra seca, as frentes de trabalho? Por que não tentar até o fim? A verdade nua a desfilar diante de seus olhos, quando ouvia o agente de viagem:
     - Aqui, nesta terra, você vai morrer. Está tudo acabado. O sertão é o sertão dos mortos. Miséria, fome, peste. No sul do país tem riqueza.
       Tinha que dominar a dor no peito, nas carnes, nos ossos. Fazer como todos que ali estavam na frente do ônibus: estancar os sentimentos, partir sorrindo. Um ideal na mente.
      O ônibus apitou pela última vez. José estava sentado na sua poltrona. Aí, abriu a janelinha e olhou para as coisas que iam ficar para trás, surgindo tudo em sua mente como num sonho.
      O que faria no sul no país?

                           (Publicado em 10 de maio de 1981-Jonal O Estado)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

                                               O DRAMA.


                O drama era o de Zé Firmino tentando arranjar um emprego nas fileiras do Estado. Queria, pelo menos, ser vigia, o cidadão. Coisa simples, pensava: assim como ficar sentado em alguma repartição pública durante horas, aqui e acolá uma espiada, esperando a hora passar. Quem sabe tirar um cochilo e sonhar com mesa farta, uma camisa nova, um vestido pra Joana.
                Jamais sonhar com  a queda da inflação, da especulação imobiliária, do liberalismo massacrante ou da oligarquia repressora:
                - Não me meto em política, doutor. Só faço votar, que é o dever de toda gente.
                Mas, o homem queria ser empregado do Estado. Era quase uma coisa organica. A velhice não lhe tinha tirado o ânimo de viver nem a coragem a coragem de batalhar a existência. Depois, precisava compor a economia domésitica, já que a familia se mudara para a capital, corrida da seca, da fome que se alastrara pelo sertão, todos vivendo de biscate.
               Parecia tão fácil! Um simples viigia de uma dessas tantas repartições estaduais. Um salário minimo. Agora esse drama.
                   Enfrentava a primeira via crucis. E o doutor rabiscava em um papel e nem olhava para sua cara faz o cáculo para os seus olhos.
                 - Não posso seu Zé, não posso. Trabalho aqui mais não tenho poder nenhum.
                  Aceitou as desculpas de prontidão, pelo menos fora sincero, o doutor. Que lhe procurasse para outras coisas, não pra arranjar emprego. Melhor procurar um político, ele mesmo tinha sido posto ali por influências polticas. Zé Firmino partiu convito.
                  O deputado. O seu querido homem público, há vários mandatos toda a familia votava nele. Era uma voz amada por todo o sertão de dor e miséria.
                 - Com o deputado é certeza, Joana!
                 - Talvez ele seja diferente aqui na capital.
                 - Oh, gente, mas por que mulher?
                    Na sala de espera estava o homem e seu drama. O fantasma do desemprego concretizado no rosto de cada um. Caras sonolentas, olhos tristes e amarelados, frios percorrendo a espinha, vazio nos buchos. O deputado se lembrará de mim? Claro, quantas vezes apertou minha mão!
                   A moça, voz de aço, devidamente instruída:
                 - Ele mandou dizer que não pode despachar hoje.
                    Burburinhos, cochichos, decepções:
                 - Moça, por favor, ...
                 - O senhor não ouviu?
                 - Sou do interior...
                 - Do interior?
                   A moça fechou a porta, ajeitou algumas coisas sem pressa e sentou-se:
                 - Na verdade, moço ele não vem mais ao gabinete. Essa multidão atrás de emprego. Vou levar o senhor até o plenário.
                    No plenário o eminente homem público discursava aos berros, o rosto vermelho, veias alteradas. Defendia a participação das massas no processo social e politico. Zé Firmino sentou-se nas galerias. Um sentimento de temor vindo de dentro do peito. Terminada a sessão:
                 - Deputado
                 - Sim, fale - O deputado escutou atento.
                 - Seu Zé, o senhor sabe. Sou um homem de oposição. todos os empregos estão na mão do governo. Procure um deputado da situação...
                   O homem e seu drama vinha pela rua cabisbaixo. As últimas palavras do deputado zuando nos ouvidos. "Eles seguram os empregos como forma de perpetuar essa oligarrquia. Uma tremenda barganha política, é só o que eles fazem."
                  Zé Firmino só queria ser um simples vigia. O homem e o pensamento em seu titulo, silencioso, sofrido. O que fazer?
                                                (Publicado no Jornal O Estado, em dezembro de 1981)
                    

domingo, 5 de maio de 2013

                          JOÃO  COM RESSACA NO MEIO  DA SEMANA.
                                                    Ací  Campelo.

           Nos ouvidos o estalo do tapa na noite passada. Tudo passara despercebido, agora era o sol na cara de cachaça, cachaça tímida. No íntimo do João furacão furado com a revolta de volta voltada contra ele no meio da multidão. (Estava em frente à Lobrás)
       - Hum...hum...hum...     
        Os olhos embaçados lendo um cartaz apregado na frente e nas costas de um homem: "Surdo e mudo...por favor...ajude este hom..."     
        Para João era tudo sem nexo, sem razão de ser, também, para que? Devia ter ficado mesmo lá em baixo, no baixo meretricio, de trouxa retornara a esse mundo ardente dos infernais mundos conhecidos. Essa multidão ociosa no aspecto. Acabara o dinheiro, sem ele sem cachaça, sem amor, tentara uma solução levara um tapa no pé da orelha. Taí, João, tudo acabado! Silencio e remorso é só o que levara para casa. Vai, retorna, regressa...blefe...blefe...e a mulher, João? Vida fraca a tua, sem evidencia, sentes dor na, agora em tudo que há, não é assim João? A começar pelas pontas dos cabelos da perna e via além, além muitissimo!
     - Uma esmola aí, moço...    
      Os olhos quase não viam ardendo de dor, fechando e abrindo rapidamente, passando tudo em revista ao redor rodeado de gente ociosa sem aspecto. E a crepitante zuada de motores, batendo batidas creptar. Igualdade de ser dos povos sem serem a e b, tudo desigual. Velhas teclas batidas de um país batido, por ser lesado por velhos sistemas. E o homem andando com o cartaz na frente e nas costas:    
      - Hum...hum...hum...
     João com dor no coração de solidão deixada pela cachaça, segredo semeado em todos que olhavam seu rosto no meio da rua. A dor notada até nos cabelos das pestanas.Moral, João, moralidade, fim das economias nos fundos dos bolsos. O dia se indo no temporal da rua que abrigava todo mundo sob um sol de quarenta graus.
     - Uma esmola aí, moço...
     Desespero misturado com desgraça da palhaçada que fizera, quando é o sabado, João? Amanhã? Que dia é hoje João? Final da cachaça que não deu para satistazer a ânsia da loucura e da sede de ser, miserável do João agora na pura mão. E a mulher? De certo estaria a sua espera parecendo uma sapa devido ao claro da noite passada. No caminho de casa João se lavando com o suor do sol do meio dia. A ressaca apertando o espaço findando, restando vontade de se acabar.
     - Uma esmola aí, moço...
      As esquinas falando na vista embaçada de João que agora não via nada. Só a fraqueza de morte chegando no bucho.
                                      (Conto premiado em 1º lugar pela extinta Secretaria de Cultura do Piauí, em
                                        1976 e publicado no Jornal o Estado, no mesmo ano, sendo, também, o
                                        primeiro  conto de minha autoria) 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

                                                      O Incrivel Amor Por Teresina.


           Adoro a palavra incrivel. Você pode ser incrivelmente inteligente ou incrivelmente burro; pode sentir um amor incrivel por uma pessoa ou um ódio incrivel por essa mesma pessoa. A palavra dá um toque de sutileza aos sentidos. Tenho, portanto, um incrivel amor por Teresina. O que parece não ser o caso de tanta gente que nela habita e que apregoa seu incrivel amor por ela.
          Muitas vezes não é preciso gritar, berrar ou esperniar para dizer que se ama, que protege e que se guarda, isso pode ser dito nos pequenos gestos. Teresina é uma cidade bela, iluminada e aconchegante. Aprendi a vê Teresina de baixo, caminhando nas suas ruas e vielas, até vê-la crescer com seus belos prédios de apartamentos, largas avenidas, suas pontes e viadutos. Tenho um imenso prazer andar por suas ruas.
            Pessoas que dizem amar Teresina, e fazem questão de alardear isso, por que muitas delas aqui ficaram ricas sugando tudo que ela tem, viajam a Paris, Londres, Itália, Portugal, Espanha e lá ficam embasbacadas com seus monumentos de mil anos, igrejinhas, museus e teatros que seus habitantes fazem questão de admirar e preservar. Como é lindo aquilo lá! De volta a Teresina essas pessoas são incapazes de livrar a cidade da sanha imobiliária que bota abaixo seu patrimonio histórico, são incapazes de gostar de sua cultura e até de seu dia-a-dia. Para elas e seu incrivel amor Teresina não merece ter memória. Ter isso para que, se por qualquer motivo elas se picam da cidade?
          Pontes estaiadas, mercados velhos, casario antigo, rios só merecem ser cultuados lá fora. os rios que cortam nossa cidade, e que até se encontram criando um belo cartão postal parecem de ficção, pior ainda, toda Teresina parece aos seus olhos uma ficção. Isso por que quando é final de ano, ou carnaval, ou semana santa, ou qualquer feriado, e se não tiver elas criam, se mandam de Teresina deixando a cidade vazia. O incrivel amor demonstrado por elas parece até sacrificio.
         E assim, os menos avisados de nossa cidade, vão cultuando outros lugares, outras histórias, outras lendas, outros frevos, outras músicas, outras culturas, e vamos sumindo, minguando, ficando vazios de quase tudo.
          Mas lá no fundo resta o incrivel talento da cidade em se reinventar e o incrivel amor que muitas pessoas sentem por ela, de verdade. Eu, por exemplo, declaro meu incondicional  amor por  Teresina. Incrivel!    

domingo, 23 de dezembro de 2012

        Festival de Música da Chapada do Corisco -CHAPADÃO. 


       Em 1995, eu Aurélio Melo e Henrique Costandrade tomavamos umas cervejas em um bar restaurante localizado perto da Praça do Liceu, se não me engano Bar e Restaurante Cearense. Naquele ano existia um Centro Integrado de Arte-Ciarte/Centro, Da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, coordenado pelo ator Fábio Costa e o humorista Dirceu Andrade, este sim, em frente a Praça do Liceu. Era um Centro vivo com atividades de literatura, música, dança, teatro, artes plásticas e cinema.
       Eu era diretor do Departamento de Arte da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, Aurélio era o coordenador de música e Henrique o coordenador do Caminhão da Cultural, um dos mais arrojados programas da Fundação, que era presidida por Dona Eugenia Ferraz. O Caminhão era equipado com som, luz, palco e uma equipe de seis pessoas, servindo a inúmeras associações de moradores, grupos culturais e artisticos, e às atividades da própria instituição, levando música, dança, teatro e cultura popular a diversos bairros de Teresina.
       Estavamos exatamente vindo de uma atividade do Caminhão e paramos naquele bar para uma refrescada. Cerveja vai, cerveja vem surgiu a idéia de de realização de um festival de música permanente para Teresina, no entanto, um festival que fosse diferente de tantos outros festivais já realizados na capital. A discussão roulou acalourada, e a cerveja, também, mas gelada.
      Como diretor da Fundação comprei a idéia na hora. O festival seria realizado com uma nova dinamica: seriam quatro eliminatórias realizadas nos bairros de Teresina, com a final no centro da cidade; O jurado seria o mesmo para as quatro eliminatórias, e o festival seria realizado com o apoio da associações de moradores e artistas dos bairros visitados. A categorias concorrentes seriam amador e profissonal, com premiações distintas. Tudo acertado, precisavamos de um nome, algo impactante que aliasse identidade cultural e que fosse bom de markentig. Veio o veredicto final - Festival de Música da Chapada do Corisco e, como já estavamos chapados de cerveja, veio o subtitulo, chapadão. Assim nasceu o Festival de Música da Chapada do Corisco-Chapadão.
        Para viabilização economica do projeto contavamos com o bom transito de Henrique junto ao entao secretario de finanças da Prefeitura de Teresina, Dr. Firmino Filho, por sinal, hoje prefeito da capital. Foi batata. Lançado o edital do festival a áea musical de Teresina abraçou a idéia de uma forma surpreendente. Grandes músicos e compositores, cantoras e cantores piauienses participaram do Chapadão, que teve sua primeira edição em maio/junho de 1995.
        Bairros como Mocambinho, Dirceu Arcoverde, Parque Piauí, Bela Vista, Piçarreira, Ininga e tantos outros receberam  o evento com festa em praça pública ou nos ginasios poliesportivos. Lembro de nomes consagrados de nossa música que participaram ou foram descobertos pelo Chapadão, como Rubinho Figueredo, Marlon Rodnei, Ostiga Junior, Paulo Utti, André de Sousa, Frank Farias; com shwos nos intervalos de Gabi, Terra Francisco, Ensaio Vocal, Miriam Eduardo e tantos outros.
        Passados mais de dezoito anos o Chapadão mudou de formato, foi muito modificado, mas ainda continua um grande festival e bastante significativo para a descoberta de talentos na área musical. Neste ano de 2012, eu, Aurélio e Henrique recebemos, no final de sua 18º Edição, realizada no Teatro de Arena de Teresina, uma placa comemorativa pela criação do evento, entregue pelo Presidente da Fundação, o músico e advogado Marcelo leonardo e pala coordenadora de música, a cantora Luciana. Temos orgulho de algumas coisas na vida. Ter participado da criação do  Chapadão é uma delas.

domingo, 26 de agosto de 2012

                                                        TEMPO DE LEMBRAR.

                                                Os  Anos  Oitenta  e  o  Tempo da  Cultura  I.



             Em 1985 eu era presidente da Fetapi - Federação de Teatro Amador do Piauí, entidade que agregava mais de 40 grupos de teatro do Estado e que gozava de grande prestigio, sem dúvida alguma. Para quem sabia dimensionar sua força, o campo era aberto e vasto. Ao meu lado, na diretoria, estavam Pinho Gondinho, Lorena Campelo e Raimundo Dias.
             Naquele ano fizemos uma das maiores mostras de teatro do Estado. Lembro que o cartaz do evento, de cor rosea, criação do genial Paulo Moura, estampava um rosto caindo uma lágrima do olho.Eu e Pinho fomos pedir ao prefeito de Teresina, na época, Freitas Neto, que patrocinasse o cartaz e o folder do evento. Ele gentilmente nos indicou o assessor de comunicação para as providencas. O assessor queria mudar o desenho do cartaz por que era muito triste, na sua visão. Não aceitamos. O material foi impresso e a Mostra foi um sucesso.
           A Fetapi tinha sua sede na Fundação Cultural do Piauí, cedida pelo então secretario, Jesualdo Cavalcante. A entidade,  também,  recebia um salário minimo do orgão para sua manutenção. O país estava saindo da ditadura militar e nós tinhamos presa de fazer as coisas, e faziamos.
           1985 foi um ano de eleição para prefeito. Um dia fui convidado para comparecer ao auditório da Fundação Cultural onde haveria um encontro com o secretario. O encontro, na realidade, seria para comunicar que o secretario iria se candidatar a prefeito, pelo PFL. Por mais que o secretario fosse um homem competente, como foi realmente na pasta da cultura, não podiamos apoiá-lo. Era questão bem nitida entre direita e esquerda. Direita, então, jamais! No encontro eu disse aos amigos que não votaria no secretario, e sim no  professor Wall Ferraz, isso para deixar bem claro, de vez, minha posição. Não tardou para que a Fetapi passase a ser mal tratada dentro da Fundação e a perder as pequenas benesses.
           Em seguida, recebo um dia um convite do artista plástico Paolo de Lima, para comparecer a uma sala no Palácio do Comércio onde havia encontros de sedimentação de propostas para a campanha do professor Wall Ferraz. Fui lá e entreguei as propostas da Fetapi para a área da cultura. Entre nossas propostas estava a criação de uma fundação municipal de cultura para Teresina. Foi batata. Já existia uma intenção nesse sentido do professor e o responsavel em formatar o documento era o professor Manoel Domingues, do PC do B. Houve, então, várias reuniões com a classe artistica. O documento norteador da criação da Fundação Cultural Moonsenhor Chaves foi confeccionado, e temos ainda hoje uma cópia dele.
           O professor Wall Ferraz foi eleito e tomou posse em janeiro de 1986. Jamis pensei em trabalhar em um orgão de cultura, ainda mais ajudar a implantá-lo. Se bem que estava preparado para isso. Um dia recebo um recado do professor Noé Mendes para que eu o encontrasse na prefeitura. A reunião com ele foi na mesa grande de marmore onde o prefeito faz reunião com sua equipe. Noé Mendes era um grande amigo desde o meu tempo de estudante na UFPI, onde ele dirigia a Coordenação de Assuntos Culturais, Noé Mendes tinha sido nomeado Superientende da Fundação Monsenhor Chaves, que tinha como presidente dona Eugenia Ferraz, e naquele encontro ele me convidou para a coordenação de artes. Então, começamos ali mesmo a montar a equipe da Fundação e a visitar alguns locais em Teresina para alugar como sede do orgão.
          Fui imensamente feliz na indicação de alguns nomes da área cultural para a Fundação. O Noé aprovava com dona Eugenia. Pessoas de talento como Janete Dias, Heloisa Cristina, Valdery Duarte, Arimatan Martins, Raimundo Dias, Durvalino Couto, Edson Andrade Correia, Hélio Costaandrade, Fred Ramos iriam compor uma equipe inicial de implantação da Fundação. O local escolhido para o endereço foi na Rua Quintino Bocaiuva, perto da Escola Técnica Federal, hoje IFPI. Foi dali que se irradiou a partir do ano de 1986, uma maiores transformações da cultura na capital.
        A Fundação, inicialmente, impalntou 03 Centros Integrados de Arte. O Ciarte/Centro;  Ciarte/São João e Ciarte Matadouro, coma a criação do Teatro do Boi, inaugurado com um episodio fantastico, quando o professor Wall demitiu de cima do palco o músico Chagas Vale, instrutor de coral, por ter reclamado das condições exatamente do coral infantil que dirigia. Este fato deu manchetes e polemicas nos jornais,
        Nos centros de arte existiam bibliotecas, aulas de teatro, dança, capoeira, cultura popular e música. Também, foram criados 16 bandinhas de fanfarras; 08 corais infantis; O Festival de Bandas; O  Festival de Teatro de Bairros; Cinema nos bairros; O plano editorial do muicipio e a criação da revista Cadernos de Teresina. A Fundação, também, promovia shows com grandes nomes da música brasileira no Theatro 4 de Setembro, a exemplo de Nana Caymmi e Nara Leão. Tudo sob a batuta do setor de artes.
        Foi numa dessas grandes promoções que se desfez praticamente a equipe inicial da Fundação. Janete Dias idealizou o Fenemp-PI - Festival Nordestino de Música Popular do Piauí. Andou em vários estados brasileiros divulgando o evento e ganhou o patrocinio do Banco do Nordeste. Mas o evento foi impedido de ser realizado pela Fundação pelo prefeito Wall Ferraz, que alegou desvio de função do orgão. Discordamos dele. O professor Noé Mendes tentou várias vezes argumentar com o professor,mas ele não cedeu.
        Noé Mendes reuniu toda a equipe de artes e anunciou sua saida da Fundação. Eu,  Janete Dias, Edson Andrade, Hélio, deixamos a Fundação em solidariedade a Noé Mendes. O Fenemp-Pi foi levado para a Coordenação de Assuntos Culturais da UFPI e realizado por nós, que montamos toda a coordenação do evento lá dentro. O Fenemp´Pi foi realizado em maior de 1988 no Ginásio Verdão com imenso sucesso, tendo atração final do Quinteto Violado. Quem ganhou o Fenemp-Pi foi o Grupo Candeia.
A FCMC, apesar de ter saido no material publicitário, não participou da realização do Fenemp-Pi.
        Fora da Fundação Monsenhor Chaves retomei meus trabalhos na área de teatro, com mais afinco e paixão. E a história continua.       

sexta-feira, 29 de junho de 2012


                                 A DESLUMBRANTE CANTATA DE UM NORDESTE MUNDO.


              Muitas vezes é necessário deixar as lágrimas cairem para que nosso coração se abra de amor e esperança em tempos tão ásperos e dificeis. Sentir e deixar fluir em nosso corpo e mente a Cantata Gonzaguiana apresentada pela Orquestra Sinfonica do Piauí, sob a batuta do maestro Aurélio Melo com a participação do humorista João Cláudio Moreno, é um desses momentos raros de beleza e encantamento.
              Pode até parecer uma proposta arrogante misturar duas referências tão distintas, uma orquestra sinfonica, portanto, erudita, com a música gibão de couro genuinamente popular. No entanto, a mistura é absolutamente corajosa e a empreitada da diversidade ganha verdadeiro sentido de contemporaneidade, permitindo que explodam idéias novas e provocadoras.
              Chama a atenção a força que esse tipo de encontro entre duas formas que parecem desguais podem suscintar, gerando até a suspeita de que algo possa dar errado como, por exemplo, a qualidade técnica. São tantos instrumentos, músicos, uma parafernália na cena que ficamos apreensivos, mas no caso da Cantata Gonzaguiana tudo parece promover uma cumplicidade entre os criadores que fica visivel ao público, verdadeiro sentimento de prazer fazendo com que a música que chega a platéia fique na memória de todos muito depois do show terminado.
              Dois artistas, também diferentes Aurélio Melo, a simplicidade criadora e João Cláudio Moreno, a fúria do talento - e é bom que sejam diferentes - para que as escolhas se atraiam, as escolhas que podem ser estéticas, técnicas ou éticas, com as quais os dois artistas se comprometeram desde o instante em que decidiram traçar suas metas, seus caminhos para a sublime criação de um espetáculo tão grandioso. Como é bonito ver os rostos dos músicos na alegria contagiante e na generosidade de seus gestos, compartilhando plenamente do momento dos dois artistas.
              Segurar a emoção não é possivel e nem é bom mesmo, quando o som de violinos, sanfona, violoncelos e tantos outros instrumentos tomam conta do palco, construindo uma malha de pura sincronia que deslizam para o espaço, vibrando em cada corrente de ar levando em redemoinhos para as estrelas e as galaxias a música de um ser imortal, que tinha a voz forte e gutural, que parece estar ali à nossa frente, Luiz Gonzaga, o velho Lua, rei do baião, encarnado na pessoa de um homem, um ser pleno de luz, um artista genial, João Cláudio Moreno.
             Fechamos os olhos e a Cantata Gonzaguiana é o sertão de um nordeste mundo. Não vamos falar do repeertório escolhido, nem descer detalhes sobre o conjunto da obra, como arranjos, direção, outros signos do espetáculo.
            Vamos lembrar da força do artista piauiense na superação de tudo. Vamos lembrar de vaqueiros, caatingas, sabiás, anus, acauãs, asas brancas, exodo rural, seca. Vamos lembrar de terreiros, danças, oratórios, fé, forró, xotes, baião, rios e estradas de uma forma que nos toca profundamente, mostrados em um espetáculo para encantar a humanidade.