domingo, 26 de agosto de 2012

                                                        TEMPO DE LEMBRAR.

                                                Os  Anos  Oitenta  e  o  Tempo da  Cultura  I.



             Em 1985 eu era presidente da Fetapi - Federação de Teatro Amador do Piauí, entidade que agregava mais de 40 grupos de teatro do Estado e que gozava de grande prestigio, sem dúvida alguma. Para quem sabia dimensionar sua força, o campo era aberto e vasto. Ao meu lado, na diretoria, estavam Pinho Gondinho, Lorena Campelo e Raimundo Dias.
             Naquele ano fizemos uma das maiores mostras de teatro do Estado. Lembro que o cartaz do evento, de cor rosea, criação do genial Paulo Moura, estampava um rosto caindo uma lágrima do olho.Eu e Pinho fomos pedir ao prefeito de Teresina, na época, Freitas Neto, que patrocinasse o cartaz e o folder do evento. Ele gentilmente nos indicou o assessor de comunicação para as providencas. O assessor queria mudar o desenho do cartaz por que era muito triste, na sua visão. Não aceitamos. O material foi impresso e a Mostra foi um sucesso.
           A Fetapi tinha sua sede na Fundação Cultural do Piauí, cedida pelo então secretario, Jesualdo Cavalcante. A entidade,  também,  recebia um salário minimo do orgão para sua manutenção. O país estava saindo da ditadura militar e nós tinhamos presa de fazer as coisas, e faziamos.
           1985 foi um ano de eleição para prefeito. Um dia fui convidado para comparecer ao auditório da Fundação Cultural onde haveria um encontro com o secretario. O encontro, na realidade, seria para comunicar que o secretario iria se candidatar a prefeito, pelo PFL. Por mais que o secretario fosse um homem competente, como foi realmente na pasta da cultura, não podiamos apoiá-lo. Era questão bem nitida entre direita e esquerda. Direita, então, jamais! No encontro eu disse aos amigos que não votaria no secretario, e sim no  professor Wall Ferraz, isso para deixar bem claro, de vez, minha posição. Não tardou para que a Fetapi passase a ser mal tratada dentro da Fundação e a perder as pequenas benesses.
           Em seguida, recebo um dia um convite do artista plástico Paolo de Lima, para comparecer a uma sala no Palácio do Comércio onde havia encontros de sedimentação de propostas para a campanha do professor Wall Ferraz. Fui lá e entreguei as propostas da Fetapi para a área da cultura. Entre nossas propostas estava a criação de uma fundação municipal de cultura para Teresina. Foi batata. Já existia uma intenção nesse sentido do professor e o responsavel em formatar o documento era o professor Manoel Domingues, do PC do B. Houve, então, várias reuniões com a classe artistica. O documento norteador da criação da Fundação Cultural Moonsenhor Chaves foi confeccionado, e temos ainda hoje uma cópia dele.
           O professor Wall Ferraz foi eleito e tomou posse em janeiro de 1986. Jamis pensei em trabalhar em um orgão de cultura, ainda mais ajudar a implantá-lo. Se bem que estava preparado para isso. Um dia recebo um recado do professor Noé Mendes para que eu o encontrasse na prefeitura. A reunião com ele foi na mesa grande de marmore onde o prefeito faz reunião com sua equipe. Noé Mendes era um grande amigo desde o meu tempo de estudante na UFPI, onde ele dirigia a Coordenação de Assuntos Culturais, Noé Mendes tinha sido nomeado Superientende da Fundação Monsenhor Chaves, que tinha como presidente dona Eugenia Ferraz, e naquele encontro ele me convidou para a coordenação de artes. Então, começamos ali mesmo a montar a equipe da Fundação e a visitar alguns locais em Teresina para alugar como sede do orgão.
          Fui imensamente feliz na indicação de alguns nomes da área cultural para a Fundação. O Noé aprovava com dona Eugenia. Pessoas de talento como Janete Dias, Heloisa Cristina, Valdery Duarte, Arimatan Martins, Raimundo Dias, Durvalino Couto, Edson Andrade Correia, Hélio Costaandrade, Fred Ramos iriam compor uma equipe inicial de implantação da Fundação. O local escolhido para o endereço foi na Rua Quintino Bocaiuva, perto da Escola Técnica Federal, hoje IFPI. Foi dali que se irradiou a partir do ano de 1986, uma maiores transformações da cultura na capital.
        A Fundação, inicialmente, impalntou 03 Centros Integrados de Arte. O Ciarte/Centro;  Ciarte/São João e Ciarte Matadouro, coma a criação do Teatro do Boi, inaugurado com um episodio fantastico, quando o professor Wall demitiu de cima do palco o músico Chagas Vale, instrutor de coral, por ter reclamado das condições exatamente do coral infantil que dirigia. Este fato deu manchetes e polemicas nos jornais,
        Nos centros de arte existiam bibliotecas, aulas de teatro, dança, capoeira, cultura popular e música. Também, foram criados 16 bandinhas de fanfarras; 08 corais infantis; O Festival de Bandas; O  Festival de Teatro de Bairros; Cinema nos bairros; O plano editorial do muicipio e a criação da revista Cadernos de Teresina. A Fundação, também, promovia shows com grandes nomes da música brasileira no Theatro 4 de Setembro, a exemplo de Nana Caymmi e Nara Leão. Tudo sob a batuta do setor de artes.
        Foi numa dessas grandes promoções que se desfez praticamente a equipe inicial da Fundação. Janete Dias idealizou o Fenemp-PI - Festival Nordestino de Música Popular do Piauí. Andou em vários estados brasileiros divulgando o evento e ganhou o patrocinio do Banco do Nordeste. Mas o evento foi impedido de ser realizado pela Fundação pelo prefeito Wall Ferraz, que alegou desvio de função do orgão. Discordamos dele. O professor Noé Mendes tentou várias vezes argumentar com o professor,mas ele não cedeu.
        Noé Mendes reuniu toda a equipe de artes e anunciou sua saida da Fundação. Eu,  Janete Dias, Edson Andrade, Hélio, deixamos a Fundação em solidariedade a Noé Mendes. O Fenemp-Pi foi levado para a Coordenação de Assuntos Culturais da UFPI e realizado por nós, que montamos toda a coordenação do evento lá dentro. O Fenemp´Pi foi realizado em maior de 1988 no Ginásio Verdão com imenso sucesso, tendo atração final do Quinteto Violado. Quem ganhou o Fenemp-Pi foi o Grupo Candeia.
A FCMC, apesar de ter saido no material publicitário, não participou da realização do Fenemp-Pi.
        Fora da Fundação Monsenhor Chaves retomei meus trabalhos na área de teatro, com mais afinco e paixão. E a história continua.       

sexta-feira, 29 de junho de 2012


                                 A DESLUMBRANTE CANTATA DE UM NORDESTE MUNDO.


              Muitas vezes é necessário deixar as lágrimas cairem para que nosso coração se abra de amor e esperança em tempos tão ásperos e dificeis. Sentir e deixar fluir em nosso corpo e mente a Cantata Gonzaguiana apresentada pela Orquestra Sinfonica do Piauí, sob a batuta do maestro Aurélio Melo com a participação do humorista João Cláudio Moreno, é um desses momentos raros de beleza e encantamento.
              Pode até parecer uma proposta arrogante misturar duas referências tão distintas, uma orquestra sinfonica, portanto, erudita, com a música gibão de couro genuinamente popular. No entanto, a mistura é absolutamente corajosa e a empreitada da diversidade ganha verdadeiro sentido de contemporaneidade, permitindo que explodam idéias novas e provocadoras.
              Chama a atenção a força que esse tipo de encontro entre duas formas que parecem desguais podem suscintar, gerando até a suspeita de que algo possa dar errado como, por exemplo, a qualidade técnica. São tantos instrumentos, músicos, uma parafernália na cena que ficamos apreensivos, mas no caso da Cantata Gonzaguiana tudo parece promover uma cumplicidade entre os criadores que fica visivel ao público, verdadeiro sentimento de prazer fazendo com que a música que chega a platéia fique na memória de todos muito depois do show terminado.
              Dois artistas, também diferentes Aurélio Melo, a simplicidade criadora e João Cláudio Moreno, a fúria do talento - e é bom que sejam diferentes - para que as escolhas se atraiam, as escolhas que podem ser estéticas, técnicas ou éticas, com as quais os dois artistas se comprometeram desde o instante em que decidiram traçar suas metas, seus caminhos para a sublime criação de um espetáculo tão grandioso. Como é bonito ver os rostos dos músicos na alegria contagiante e na generosidade de seus gestos, compartilhando plenamente do momento dos dois artistas.
              Segurar a emoção não é possivel e nem é bom mesmo, quando o som de violinos, sanfona, violoncelos e tantos outros instrumentos tomam conta do palco, construindo uma malha de pura sincronia que deslizam para o espaço, vibrando em cada corrente de ar levando em redemoinhos para as estrelas e as galaxias a música de um ser imortal, que tinha a voz forte e gutural, que parece estar ali à nossa frente, Luiz Gonzaga, o velho Lua, rei do baião, encarnado na pessoa de um homem, um ser pleno de luz, um artista genial, João Cláudio Moreno.
             Fechamos os olhos e a Cantata Gonzaguiana é o sertão de um nordeste mundo. Não vamos falar do repeertório escolhido, nem descer detalhes sobre o conjunto da obra, como arranjos, direção, outros signos do espetáculo.
            Vamos lembrar da força do artista piauiense na superação de tudo. Vamos lembrar de vaqueiros, caatingas, sabiás, anus, acauãs, asas brancas, exodo rural, seca. Vamos lembrar de terreiros, danças, oratórios, fé, forró, xotes, baião, rios e estradas de uma forma que nos toca profundamente, mostrados em um espetáculo para encantar a humanidade.

segunda-feira, 2 de abril de 2012



TEMPO DE LEMBRAR 3




Os Anos de Chumbo e a Verdade de Cada Um








O ano era 1976. Ainda não fazia teatro. Naquele ano eu comecei a escrever contos e a publicar em jornais de Teresina. Mesmo por que tinha ganho um concurso de contos promovido pela Fundação Cultural do Piauí, e publicado no Jornal O Dia, além de levar a bagatela de trezentos contos. Um espanto pra mim! Portanto, minha turma era o pessoal de literatura: contistas e poetas piauienses da geração mimiográfo. Foi naquele ano que minha cabeça começou a mudar em relação a ditadura que tomou conta de nosso país.




Claro, que eu já tinha conhecimento dos desmandos e das atrocidades dos militares, mas é que as coisas chegavam tão lentas e atrasadas no Piauí, que poucos iluminados se davam ao luxo de estar em dias com os últimos acontecimentos. Ainda mais que eu convivia com o pessoal do Cepi-Centro de Estudos e Pesquisas Interdisciplinares, da Fundação Projeto Piauí, criada no governo Alberto Silva, que em plena ditadura investia uma grana preta em pesquisa educacional, música coral, artes plásticas, cultura popular e teatro, coisas que eu adorava. Portanto, era um período em que a cultura piauiense parecia viver num oásis em pleno país que a policia espancava atores, quebrava teatros, proibia músicas e prendia artistas. Por aqui quase não se tinha conhecimento que a ditadura tivesse feito seus estragos na própria classe artistica piauiense.




Minha mudança de rumo veio com os infindaveis papos nos botecos de Teresina, onde poetas, contistas, jornalistas, músicos e atores varavam noites em recitais, bebedeiras, namoros e, principalmente, resistência politica, tudo regado no mais sincero respeito um pelo outro. Onde o coletivismo substituia o individualismo e a luta era pelo bem comum. Criatividade à flor da pele. Longe dos botecos de hoje onde o ego e o individualismo de alguns assassinam e enterram ideias brilhantes de outros.




Veio 1977, e com ele minha entrada no mundo do teatro, quando fiz a estrea de minha primeira peça no Theatro 4 de Setembro, simbolo e orgulho de nossa cultura, que me deu o impulso de nunca mais parar. No ano seguinte, senti as garras da ditadura rondando ao meu lado. Minha segunda peça falava sobre um coronel latifundiário que era morto por um roceiro. Fui chamado na Policia Federal, onde o censor foi direto e grosso: "Pode mudar o final da peça. Um roceiro não pode matar um coronel, ainda mais por questão de terra". Caramba. Mas sem aquele final a peça não existiria. A sentença final do censor:"Então, não apresente a peça". Putz!




A peça era feito pelos atores Lili Martins, Afonso Miguel Aguiar, Lorena Campelo e Ribamar, não falei nada para eles. Na minha cabeça era uma estupidez aquela censura e cabia a mim resolver tudo. Negociei com o censor. No final da peça, faríamos apenas a menção que o coronel iria morrer e, antes que ele caisse, a luz se apagaria. Lindo, não! O censor enguliu, e mandou dois agentes assistir ao ensaio geral. Como o diretor era eu, ssim fizemos. Como raramente eles iam assistir ao espetáculo fizemos o texto do jeito que estava, e o coronel terminava estirado no palco,, morto pelo roceiro. Pura transgressão! Tempos depois essa peça seria assistida por Plinio Marcos, icone da dramaturgia brasileira, no Theatro 4 de Setembro, e quando eu fui apresentado ele me falou que seria melhor eu escrever um romance sobre aquele fato, pois assim eu contaria tudo que estava entrelinhas. Mass eu nunca escrevi romance algum.




Depois, já fregues do Departamento de Ordem da PF, pois fazia liberações de peças e eventos da Federação de Teatro Amador do Piauí, da qual era secretario, comecei a ter pavor e, ao mesmo tempo, ódio da ditadura. Duas ocasiões me marcaram muito naqueles anos. A primeira vez foi quando a Federação promovia o dia internacional do teatro. Distribuimos os convites do evento, feitos pelo querido amigo e ator Lili Martins, quando fui chamado à PF. No final do convite estava escrito uma frase: "Um beijo na bunda". Dessa vez foi de lascar. Um bafafá do caralho. O censor ficou irritado. Que era aquilo? Um beijo na bunda? Que mensagem era aquela? Vamos proibir esse evento, seu Campelo! Passei quase três horas conversando com o homem, e explicando que não tinha nada a ver, que era apenas uma saudação. Saudação com um beijo na bunda! Realmente era dificil de acreditar, mas foi tudo contornado. Mas aconteceu o pior, o Lili, irreverente que era, numa das cenas que fazia no evento em comemoração ao dia do teatro, sabendo que a PF não gostara do convite, arriou as calças e mostrou a bunda pra platéia. Risos gerais! Era o ano de 1980.




A outra vez, foi quando eu vinha do bar Sachas, templo dos artistas de teatro, que ficava ali na Avenida José dos Santos e Silva. Do Sachas só se saia ao amanhecer, Era uma eterna festa. Não sei por que eu cismei de ir embora ainda cedo. Andei pouco fui agarrado por um troglodita e jogado dentro de um fusca. Lá dentro estavam mais dois. Começamos a rodar em Teresina, e as perguntas eram repetitivas, e os tapas no peito eram horríveis, e o queimado no pulso com baganas de cigarros era uma coisa dolorida. Perdi a noção do tempo. Não sabia por onde andavamos nem tinha a minima noção do que queriam. Eu era apenas um rapaz querendo fazer teatro em Teresina. Ali estava a face mais escura dos anos de chumbo, vilipendiar e amedrontar. Me soltaram no centro da cidade quando o dia vinha amanhecendo. Corrir para casa. O pulso queimado e ardendo, chorando de uma raiva interna e de uma impotencia horrorosa. Contei pra minha familia. Muitos amigos do teatro e da literatura foram à minha casa conversar comigo. Ainda andamos por alguns lugares que passei, mas eu não me lembrava de nenhum rosto. A partir dali minha convicção ainda ficou maior de que deveria continuar no meu oficio de teatro.




E assim faço até hoje. Ano em que completarei, no mês de novembro, 35 anos de teatro. Vai ser uma festa!




quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Teresina, De carnaval, Ganhos e Cinzas.

2012 vai ser o ano marco do carnaval de Teresina, afinal de contas o nosso corso carnavalesco é o maior do mundo, segundo o Guiness Book, o livro dos recordes, mesmo que esse recorde pertença a nós próprios, por que o nosso corso da forma que é realizado é o ùnico no mundo. Enfim, temos alguma coisa só nossa, e no ano que vem vamos quebrar nosso próprio recorde! Mas vamos falar dos rumos que o carnaval de Teresina tomou e que vamos ter de conviver daqui pra frente.

Lembro que em 1997, foi realizado pela Fundação Mons. Chaves o Seminário: Reviver Carnaval-Rumos e Identidade do Carnaval de Teresina, com a participação de Cecilia Mendes, Paulo Vasconcelos. Bernardo Sá, Galba Coelho, Marcos Peixoto, Manoel Messias, Osvaldo Almeida, Daniel Aracacy, Jamil Said, Bosco e nossa participação, com uma platéia excelente. Estavamos em busca de retomar o carnaval de Teresina, e ali foi feito um dos melhores diagnóstico sobre nossa festa momesca. Depoimentos sinceros e apaixonados. Como surgiu nosso carnaval, qual sua contribuição e de como ele poderia ser. O Seminário serviu para traçar extratégias.

O carnaval de Teresina nunca teve uma identidade. Nossas escolas de samba foram criadas no rastro das escolas de samba do Rio de Janeiro, inclusive, importando luxuosas fantasias daquele estado para os desfiles daqui. Até mesmo o caminhão das raparigas, criado pelas mãos das prostitutas da antiga Paisandú, era mais um protesto, um grito de revolta por não poderem participar de bailes chiques da cidade. Transformado em corso, saiam pelas ruas de Teresina, depois foi substituido pelos blocos e pelas escolas de samba, também uma invenção do Rio de Janeiro, ainda nos anos de 1930. Lembramos que o corso, também, é uma festa excludente por que só participa diretamente quem tem carro ou quem pode alugar um caminhão.

Sem nunca ter encontrado sua identidade ou vocação, o carnaval de Teresina vive de momentos, nascendo e morrendo. Nem mesmo os sambas enredos das escolas conseguiram contar nossa história. Mas elas tinham uma tradição, afinal de contas desde a Escravos do Samba, nossa primeira escola, criada em 1952, já se vão mais de 60 anos. E acabar com o desfile das escolas usando argumento de que o povo não gosta é uma tremenda bobagem. Nem se discute, é estatisco, a maioria gosta. O que deveria ser discutido era o compromisso do Municipio e do Estado com o carnaval de sua capital, seu rumo, apoio e ganhos. Até que o municipio tem tentado, agora o Estado sempre foi omisso, como se a capital não existisse. Mas isso é o reflexo da maioria de nossa elite que vê a cidade de cima, por que elas não gostam da cidade, nem da cultura da cidade e nem do carnaval da cidade. Então, que se lixe. Mas tem, também o outro lado. E se as escolas de samba foram pras cucuias cabe responsabilidades de seus dirigentes que sempre agiram com amadorismo, com grandes egos e com brigas internas por migalhas de poder. Junte-se a isso, parte da imprensa, via colunas de jornais e midias eletronicas , que fazem tudo para denegrir a imagem do carnaval da cidade. As escolas de samba não desapareceram apenas por falta de apoio financeiro, mesmo por que é vergonhoso sair por outros estados dizendo que a prefeitura de Teresina se nega a destinar miseros 50 mil para cada escola, enquanto por lá briga-se por milhões. Pobreza nossa, não, é falta de grandeza mesmo, como se dinheiro destinado as escolas fosse salvar nossas mazelas e pobrezas seculares. Aliás, esse espirito parti das elites no poder que não amam sua cidade.

Daquele Seminário de 1997, foi recriado o corso carnavalesco em 1998, com o caminhão das raparigas representado por atrizes piauienses e um caminhão de apoio com convidados especiais. O corso cresceu e se transformou no que conhecemos hoje e as escolas de samba passaram a ter apoio oficial naquele ano, saindo do desfile realizado na Av. Frei Serafim para a Avenidade Marechal Castelo Branco.

O municipio de Teresina, via Fundação Monsenhor Chaves e Semel, por mais esforço que faça não tem conseguido se sobrepor aos atropelos e desencontros. Continua sempre com o mesmo nhem,nhem,nhem, cuidando apenas de reis e rainhas do carnaval, sem dimensionar o poder do povo da cidade, sua criatividade e seu entusiasmo. O corso foi um exemplo, quando o poder público perdeu as estribeiras e deixou a coisa rolar solta: foram dezenas de caminhões perdidos pela cidade, carteiradas de espertalhões em cima de guardinhas de transito e o povo olhando o nada, como se nada tivesse controle, ainda bem que o povo convocado e comparecido ao local suportaram cordeiramente aquilo tudo. Foi tudo lindo para lentes e cameras!

Ganhos para a realização do concurso de marchinhas de carnaval; para as previas de blocos, para a festa dos artistas, galo da madrugada, sanatório geral e para a promoção do carnaval por alguns bares de Teresina com artistas locais. Quanto aos desfiles dos blocos de sujos, a mesma desorganização no local, quando os que estavam ali invadiam a passarela e se misturavam aos participantes dos blocos e, pasmem, nem a banda de axé que tocava parava para se escutar os enredos dos blocos. Aliás, vamos encerrar com as tais Bandas. Muitos dirão é aquilo ali, pronto. Que maravilha, encontramos a identidade de nosso carnaval! Mas eu direi, pronto acabamos com o que restava de nossa esperança em encontrar algum resquicio de nosso poder de transformação pela nossa cultura. Pois a juventude bela e linda que dançava na Marechal Castelo Branco, com certeza, vai dizer que carnaval é aquilo ali. Afinal de contas, é um retrato de quem não conhece suas caracteristicas e sua vocação. No ritmo Bahiano chegamos lá. Axé, minha gente!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

TEMPO DE LEBRAR
2
Anos 70, A Turma e os Apelidos.




Nos anos de 1970 quase todos os amigos tinham apelidos, ou codinomes, o meu era BD, e só os mais intimos sabiam o que siginificava. Tinha o Fuinha, o Sargento, o Til, o Lento, o Billy, o Maca e o Jota, este era o meu melhor amigo. Alguns apelidos eram inventados por mim e o Jota e os apelidados nem precisavam saber por que ficava entre nós mesmos. Nós curtiamos pra carabam inventar os codinomes. Foi com o Jota que vivi bons anos da minha juventude, onde tudo era descoberto de forma fantástica e compartilhado nos minimos detalhes. Aquilo que não sabiamos iamos atrás com uma curiosidade infernal. Algumas vezes nos davamos mal, mas nunca nos arrependiamos do que tinhamos feito. Apenas partiamos para outra.

No ano de 1973 eu estudava no Colégio Helvidio Nunes, onde a farda chamava atenção pelas cores fortes, a calça caqui e a camisa de um amarelo intenso que, também, ganhou o apelido de picolé de abóbora. Eu ia sempre impecavel para o colégio, desde o kichutte limpinho até a camisa super gomada. E me comportava como um verdadeiro estudante, e era mesmo, apesar dos amigos não acreditarem. Isso por que nos finais de semana meu comportamento era totalmente diferente, bebia toneladas de uisque Royal label, que era nossa cachaça e varava as noites atrás de festinhas e de cabarés. Jota se deliciava com aquilo. Olhando para a minha cara ninguém era capaz de acreditar no que eu seria capaz de fazer. Minha reputação no Colégio era muito grande, comportamento exemplar. Coisa de ser escolhido para pelotão da parada de sete de setembro. Uma parada dura. Sete de setembro naqueles tempos não era brincadeira, era coisa de patriotismo verde amarelo ditatorial. Faltar aquilo significava castigo certo. Se bem que o castigo era ensaiar a marcha dias e dias, e ainda por cima não poder beber vespera de feriado. Mas tinha muito estudante que adorava e sentia orgulho em ser pelotão. Jota não aguentava me ver marchando. Minha reputação como estudante ginasial foi além, pois fui convidado para ser vice-presidente do grêmio escolar. Eu mesmo não entendi porque. Quem me convidou para aquilo foi um dos meus melhores amigos, esse sim, popularissimo no Colégio, o Raimundinho Santana, para nós o Til, um cara fantástico acima do bem e do mal. Lembro de ter sido chamado na ddiretoria pelo professor Agnaldo Camilo que conversou comigo e confirmou minha participação na chapa do grêmio. Afinal de contas nada podia fugir ao controle da direção. Passei a ser importante. Foi muito interessante aquela experiência, que contarei mais adiante.

Jota era uma figuração, um cara muito loouco, como de resto eram todos os jovens interessantes daqueles anos. Não estava nem aí para estrutura nenhuma, mas era um verdadeiro amigo, divertido e sincero. Além de beber muito, o que não era novidade, tomava anfetaminas aos quilos. Como ele era gerente de fármacia ficava fácil. -"Olha, aí BD, uns optalidons." Eu recusava, por que detestava comprimidos desde pequeno quando mamãe me enchia deles para me curar de asma. Mas eu garantia suas loucuras no Colégio quando ele ia dopado por que tomava seis comprimidos de um tapa só. Ele adorava revistas em quadrinhos e disco de rock. Na sala de aula ficava viajando nos quadrinhos e, vez em quando, soltava uma gargalhada que ninguém entendia nada, só eu. Jota era galante e paquerador, e vivia me botando pra cima das meninas. E fazia isso, mesmo sabendo que eu era namorado da irmã dele. Dizia que as meninas gostavam de mim, e que ele arranjava namoradas por que era meu amigo. Mas eu não estava muito aí para as meninas,não. Achava muita dificuldade namorar, para mim era um saco aguentar um namoro. Mas a turma aproveitava, namorava pra caralho. Um dia apareceu a Aninha, transferida do turno da manhã. Aninha era bonita, sorridente e despachada. A turma se deu bem com ela. Me apaixonei por Aninha. E Jota lascou: - "Pô, BD, todo mundo já passou a mão na Aninha, cara!". E os outros quando me viram de mãos dadas com Aninha não acreditaram. Caramba, esse cara é abestado. Pois é, eu quero é ela mesmo Jota, e pronto. Achava Aninha linda, de pele cheirosa. Foi ela quem me ensinou a beijar de lingua. Mas era só eu virar as costas que Aninha se agarrava em outro. Um dia à noite, quando o Colégio realizava um festival de quadrilhas Jota me pegou com Aninha, não sei por que eu já estava com a saia dela na mão. Quando sair de onde estava Jota partiu pra mim; -"Pô, BD, mas tu não faz assim com minha irmã não, faz?" Não, faço não. E não fazia mesmo. Namorei Aninha muito tempo até perdê-la de vista.

O Royal Label que bebiamos já não era o suficiente. Jota estava cada vez mais louco com suas anfetaminas. Ficavamos horas e horas ouvindo rock em sua casa: Rolling Stone, The Who, Santana, Alice Cooper e os cantores country americanos, como Willie Nelson, Jonh Cash, Cat Stevens e Bob Dylan, claro. E tome uisque e pilulas. Willie Nelson era um cantor machonheiro, segundo sua biografia, que faziamos questão de ler, não só a dele mas de todos os outros cantores e conjuntos que nos curtiamos. Então, um dia Jota cismou em fumar maconha. "Topa, BD, fumar maconha?". Topo.

Não foi dificil encontrar a erva que naquele período tinha o apelido de baseado. No fundo já sabiamos a quem procurar, o dificil era pedir. No entanto, nem foi dificil assim. Quem nós deu o primeiro baseado foi um amigo do peito, que vivia enfurnado em seu quarto com seu violão, arrodeado de discos. Nem é preciso dizer que tinha sido ele o responsável pelo nosso gosto musical. Vivia curtindo, além daqueles conjuntos e cantores acima, The Doors, Pink Floid, Emerson, Lake e Palmer, Jimmy Hendrix, The Beatles e a voz gutural de Janis Joplin. No quanto dele tinha um retrato de Jim Morrison, o lider pirado do The Doors, que tinha morrido de overdose. Esse nosso amigo era o Maca. "Pois é, BD, é tu quem vai pedir maconha ao Maca, sacou? Tu tem mais moral". Tenho, caramba! E assim eu fui. Ganhamos dois baseados. O Maca era um pouco mais velho que nós e morava no bairro Marques, na Vila dos Militares. Ele barbariza nas barbas do exército. Tudo normal, irmão, dizia ele. Lembro que era um dia de sabado, e depois de ouvirmos uma sessão de rock na casa do Maca fomos para a casa do Jota. Estavamos ansiosos, afinal de contas era a primeira vez que iriamos fumar maconha. Foi uma curtição ao som de Bob Dylan "Blow in the Wind", e dos Rolling Stones "Angie", sem falar dos Jackson Five, antes de Michael Jackson virar pop star. Depois fomos jogar futebol nas quadras do 25 BC. Sempre faziamos isso. Naquele dia nada nos metia medo, e Jota bolava de rir na quadra mesmo quando levava uma bicuda no meio da canela, deixando os caras sem entender nada.

No ano de 1976, Jota se mudou com toda sua familia para São Paulo. Perdi um grande amigo, mas já sabia me virar sozinho.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

TEMPO DE LEMBRAR.

I

NO SOPRAR DO VENTO.



A primeira vez que ouvir a canção "Blow in The Wind", de Bob Dylan, foi em um posto de gasolina no interior do Estado do Maranhão. O ano era 1965 e o tempo era de um inverno de matar sapo em lagoa. Eu, minha mãe e minha irmã menor, fazíamos a viagem de volta para o estado do Piauí, fugindo da revolução de 1964, que caçou, por corrupção o mandato de meu, que era vereador da cidade de Altamira daquele estado. O posto de gasolina ficava à beira de uma estrada carroçal que há muito tinha se transformado numa buraqueira de barro e lama vermelha. De limpo por ali só a bomba da Texaco, coberta por um teto de zinco que brilhava ao sol desafiando os olhos das pessoas. Aquela bomba, deixava restos de gasolina e oleo diesel encharcando o chão, de onde exalava um cheiro forte que se misturava ao fedor do próprio local.

Tinhamos chegado na carroceria de um caminhão entupido até as nuvens com sacos de algodão. Além dos sacos de algodão, vinham uns engradados cheios de galinhas e patos, que cacarejavam o tempo todo,como prenuncio de desgraças, toda vez que o caminhão dava solavancos. Como aqueles engradados, para não cairmos da carroceria, minha mãe tinha amarrado uma corda em torno de mim e de minha irmã. E, assim, pudemos fazer aquela travessia de três dias de viagem até chegar naquele lugar, uma especie de entrocamento, por onde passavam muitos carros. Era ali que ìamos pegar um deles para vir para Teresina. Na viagem até ali, além de enfrentar o inverno com ventos e chuvas tempestuosas batendo no rosto de cada um de nós e encharcando nossas roupas, o fantasma da fome deixava eu e minha irmã menor paralisados.

Olhar para aquelas galinhas de cristas caídas e olhos assustados era o ùnico passatempo que me fazia esquecer do perigo da viagem. Aqueles animais enjaulados e inofensivos eram como nós, sem saber qual o destino que nos podia reservar. Pela minha imaginação passava, como um filme em preto e branco, a reconstituição dos nossos últimos momentos na cidade de Altamira. A saída da casa de onde moravamos, onde passei os melhores anos de minha infancia, num tropa de seis burros e o povo curioso, à porta de nossa casa, vendo a partida da familia, sem entender o por que de tudo aquilo; A ausência de meu pai, que tinha fugido para não ser preso pelo exercito, e o tropeiro que ele contratara para nos levar até o embarque na caminhão que nos levaria para aquele entrocamento; Os olhares de todas aquelas pessoas e o silencio de cada um que só era quebrado pelo soluço de minha mãe que teimava em não se esconder; Aquele tropeiro, que era mudo como seus próprios burros, mas que eu nunca esqueceria sua energia e a sua firmeza na condução da tropa. Lembro de não ter escutado a voz daquele homem uma ùnica vez, mas não deixara de sentir total segurança na viagem em cima daqueles burros. Aquele silencio era muito diferente do silencio do motorista do caminhão, um tipo frágil e esquisito, que parecia estar atrás de ajuda.

Quando o caminhão parou naquele posto, minha mãe desceu da boléia e fez o motorista subir até o alto da carrada de algodão para descer eu e minha irmã. Em terra firme, o homem despejou nossos pertences composto de um monte de malas, sacos e trouxas. Ao lado daquele monte de coisas, na beira daquela estrada e perto do posto de gasolina, ficamos à espera de outra condução que pudesse nos tirar dali.

O caminhão e seu motorista taciturno seguirm viagem, e minha mãe tratou de arranjar alguma coisa para comermos. Foi naquele espaço de tempo, enquanto esperva por comida e tomava de conta das coisas e de minha irmã, vendo aquele movimento de pneus, apitos e um bando de gente estranha, que aquela música invadiu meus ouvidos e contagiou minha mente. Mesmo com o fim daquela música ela parecia se repetir infinitamente dentro de meus ouvidos, e eu só fui despertado quando minha mãe chegou e nos levou para um quiosque perto dali.

Nunca mais me sairia da lembrança aquela viagem e aquele silencio de morte em cima da carroceria daquele caminhão, eu com olhos pregados na estrada que se perdia no horizonte,como uma linha sinuosa que parecia não ter fim. Como aquela estrada, a voz daquele cantor que chegou aos meus ouvidos naquele posto de gasolina, vinda de não me lembro de onde, nunca mais sairia da minha cabeça. Uma voz estranha, que parecia arranhar a garganta de quem cantava, e que penetrou meu corpo frágil, e que parecia me fazer flutuar e entender tudo o que ele dizia, e me fazer alegre por dentro e esquecer das coisas ruins daquele momento.

Doze anos depois daquela viagem eu sabia tudo, ou procurava saber de quase tudo sobre Bob Dylan, sua vida e sua obra e, principalmente, sobre "Blow In The Wind", que se tornaria um hino de uma geração de pessoas no mundo inteiro. Para mim tudo o que ele fazia era o máximo, e eu não cansava de demonstrar isso para os amigos, é tanto que meu apelido, entre os mais intimos era B.D.

sábado, 21 de maio de 2011

AQUI É O FIM O MUNDO OU LÁ





Quem somos? De onde viemos? Qual o nosso destino? Agora sempre que cutucados na sua auto-estima o piauiense abre uma guerra contra o inimigo. Aprendeu a não suportar mais o deboche, as piadas de mau gosto, a não existência do Estado no mapa do país. Encara-se de frente quem tiver o topete de falar mal ou opinar sobre a condição do Estado. E tome cacete, não venha não que o Piauí é grande, é o maior, é o tal, bom em tudo! Teresina, a capital, é cosmopolita, globalizada, não está nem aí para a tradição. E tome o patrimônio cultural no chão. Para que identidade? Somos cidadãos do mundo! E se não temos sotaque não precisamos de raízes.


É em nossa história que vamos buscar entender tamanha mania de perseguição que nos aflige atualmente. Não digerimos, ainda, quem somos, portanto, menos ainda de onde viemos, também, não é para menos: simplesmente não nos conhecemos. Patinamos entre o desconhecido e o faz de conta de nossa história, que precisaria ser totalmente revisada. Mas quem teria coragem de fazer? Talvez seja melhor viver na mentira, e revidar tudo que venha contra o que pensamos ser. Em primeiro lugar, não temos uma data de Independência política, temos três: 24 de janeiro, em Oeiras; 19 de outubro em Parnaíba e, agora, 13 de março, em Campo Maior. Tudo escrito lá, na bandeira e no escudo do Piauí. Aliás, no escudo está 24 de janeiro, como data máxima da Independência do Estado, mas o dia do Piauí é comemorado em 19 de outubro. Como é que fica a educação das nossas crianças? Se ainda hoje se discute qual a data da independência do Estado, como podemos saber quem somos? Interessa buscar uma identidade piauiense?


Teresina, por exemplo, é uma jangada de pedra vagando entre dois rios em busca de um porto seguro. Foi uma cidade projetada para ser a capital do Estado, e de onde ela veio, a antiga capital Oeiras, veio o poder político e a burocracia. Depois, de outros municípios, a principio, vieram tudo: Dramas de Quintais; Brincadeiras do Boi Bumbá; Casimiro Coco; Pastorinhas; Tambor de Crioula; Terreiros de Macumba; Corso carnavalesco, futebol e carnaval. Temos a impressão que o desamor que a maioria dos teresinenses tem pela sua cultura, é por que nada parece ter nascido em Teresina. Então, amamos tudo o que vem de fora.. Mas esse desamor por nossas raízes e esse desinteresse em discutir quem somos e de onde viemos e, principalmente, onde queremos chegar , talvez, seja o motivo dessa revolta quando somos atacados por algum desbocado ou algum desavisado que não quer reconhecer nossa imensa grandeza. Mas se essa grandeza está sendo feita até aqui de pura fantasia ou mascarada, será que não se quer enxergar que precisa-se sair da letargia em que o Estado se encontra? Ou simplesmente refutar qualquer ameaça de denegrir a imagem do Estado não será uma forma encontrada para continuar na fantasia? Simplesmente rechaçamos o que não queremos ouvir ou ver. Será?


Se olharmos mais um pouco para trás, antes da fundação de Teresina, lá nos tempos do Piauí Colônia, teremos um retrato não tão fiel de nossa formação social, isso por que nossos historiadores se contradizem. Naquele inicio do século XVIII o Estado era como que um país novo, sem definição territorial e administrativa, onde existiam índios pelas matas e nas beiras dos rios que fervilhava. Chegou a pertencer jurisdicionalmente a Pernambuco, Bahia e Maranhão Então, vieram os desbravadores capitaneados principalmente por Domingos Afonso Mafrense e Domingos Jorge Velho, sem muita diferença entre os dois, sendo o primeiro um potentado dono de imensas terras e o outro um matador de índios e, pasmemos, por isso mesmo o Capitão-Mor-de Conquista do Piauí. Temos aí, então, o embrião de nossa formação. Uma sociedade estruturada sem poder fiscalizador e disciplinador do reino, isso por que as forças políticas mandavam em tudo e não obedeciam ordens de ninguém e , também, por que o reino parecia não estar nem aí para o Piauí. Que a elite militar e política resolvessem eles mesmo seus abacaxis. Existe alguma semelhança com os dias atuais, onde a politicalha local continua a barrar qualquer laço de união em prol do Estado?


A briga pelo poder local era tão grande entre os senhores de terras e de escravos que não obedeciam nem aos governadores nomeados pelo reino, assim foi com João Pereira Caldas, primeiro Governador da Capitania do Piauí que apesar de lutar pela melhoria do Estado, criando órgãos públicos e outras benfeitorias, não gozava de nenhum prestigio das famílias abastardas do Estado. Aliás, esse governador foi quem deu o toque final da expulsam dos Jesuítas das terras do Piauí. A Companhia de Jesus que tinha o prestigio e o poder dado pelo Rei para explorar o Piauí e que, inclusive, não pagavam impostos. As terras do Estado eram só para os do Estado e pronto. Foi ele, também, quem denominou o Piauí de Capitania de São José do Piauí, em homenagem a Dom José I. Mas nem isso o salvou da guilhotina solicitada pelos ricos latifundiários locais.


Famílias como a Castelo Branco e Coelho Rodrigues se entrelaçaram e foram as formadoras dos principais troncos famílias piauienses, como Freitas, Almendra, Gayoso, Rego, e tantas outras. Nem vamos falar no tronco gerado por Manoel de Sousa Martins, o Visconde da Parnaíba, que passou mais de vinte anos mandando e desmandando. Essas famílias se perpetuaram no Estado através de duas vertentes valiosas, poder político e o mando da terra. Como senhores absolutos, quase todos deixaram de herança para seus filhos, netos e bisnetos não só suas riquezas mas, também, o direito de si perpetuar como membros do Estado, fosse na burocracia ou gozando de mandatos eletivos. Foi assim durante décadas e assim permaneceu.


O que nos vemos hoje na política piauiense, responsável por quase tudo que não acontece nesse Estado, é apenas uma repetição triste de um passado não tão distante de nossa formação social e política. Onde a terceira ou quarta geração de políticos herdou um mandato eletivo, seja do pai ou do avô numa verdadeira oligarquia familiar. Essa prática oligárquica tão nefasta e combatida por tantos na política piauiense, foi se refazendo em sucessivas perdas, não pelo esgotamento de seus pares, mas pelos acordos de bastidores e pelos apoios para não perder o poder.


Dessa forma, aqueles grupos nascidos na peleja e no combate político, não foram capazes de ultrapassar as velhas práticas atrasadas, preferindo se aliar ao que existia de mais ultrapassado na política piauiense. E os intelectuais e pensadores piauiense, atrelados quase sempre a uma corrente política ou outra, não foram capazes também de jogar luz sobre o futuro do Estado. E assim, como se não bastasse a existência desses velhos políticos de carreira e seus herdeiros, os novos políticos resolveram eleger suas esposas para mandatos eletivos, criando uma nova casta ou nova forma de manter a hegemonia familiar e, dessa vez, absoluta: agora com mães, filhos e maridos no poder. Como existiam poucos grupos ou quadros de resistência política e estes já chegaram ao poder sem quase ou nenhuma mudança estrutural, o Piauí deslumbra um destino negro em sua existência política e administrativa. Onde parece não vislumbrar-se mais nenhuma esperança de mudança nesse panorama por que todos os cartuchos parecem terem sido gastos, e a perspectiva é a volta de velhas castas ao poder.


Como não sabemos de onde viemos e, muito menos, quem somos fica difícil saber qual o futuro que queremos. O que restam são interrogações e perguntas, que muitas vezes, ficamos com raiva de quem faz por que não temos coragem de fazer e, muito menos, de responder. Então, tome índices alarmantes, como menor renda per capta; maior índice de analfabetos; maior taxa de mortalidade infantil; maior taxa de filhos sem pai, e por aí vai.


Torquato Neto, o nosso genial poeta e compositor , é o autor do titulo desse artigo, quando ele falou em Marginalia II: Aqui é o fim do mundo ou lá. Como ele poderia ter dito: Aqui é o purgatório ou lá. Aqui é o inferno ou lá. Aqui é o cú do mundo ou lá. Não sei responder, alguém saberia?