quinta-feira, 26 de março de 2020

27 DE MARÇO - DIA INTERNACIONAL DO TEATRO E DIA NACONAL DO CIRCO-PALCO VAZIO E SEM LUZ.


                                        Nestes tempos sombrios, de pandemia e restrições, vou me dirigir àqueles que, como eu, escolheram o palco ou o picadeiro como profissão, e conhecem profundamente o que é isso. Cada um comemora este dia como queira, se há alguma coisa para comemorar. Mas sempre há, nem que seja de forma virtual, com expectadores imaginários, ou comemorar a própria vida. Distanciados um dos outros pelas circunstâncias, coisa terrível para nós, por que gostamos de público,  de sorrisos e de abraços, ficamos a refletir.  
                                          Refletir sobre as dificuldades imensas de produzir espetáculos; Sobre Grupos, Coletivos e Companhias de teatro e de circo morrendo pelas tabelas; Trabalhadores de teatro e de circo, na sua maioria, sem perspectiva e sem horizontes de trabalho; A falta de formação superior da classe, onde não possuímos um curso superior na área; Sim, precisamos refletir. Sobre a inexistência de programas e projetos consistentes para o teatro e o circo no Estado e no Município; Sobre o isolamento cultural, onde os palcos ficam vazios e ás escuras, por falta de espetáculos de fora; Falamos de espetáculos de qualidade, não de enganação da cena.  Sobre a falta gritante de público, onde tudo tem de ser de graça. E assim produtores e artistas padecem no paraíso! E ainda vem uma pandemia e isola criadores e suas criaturas, trancados! Como sobreviver a isso tudo? Dirijo-me, principalmente, aos artistas e produtores, que como eu labutam a dezenas de anos nessa profissão. Mas também dirijo-me aos novos artistas de teatro e de circo que escolheram seguir essa trilha. E, para eles, um recado, aprendam, se fortaleçam e se alimentem da profissão. E sejam solidários aqueles que abriram caminho, e abram caminhos.      
                                        Dia de refletir? Sim! Um dia para refletir tudo o que se disse acima, e um dia para se perguntar por que acontece tudo isso. É bom pensar que não sentamos em mesas de grandes negócios e nem temos câmaras de arte e culturas em nossos parlamentos, de forma concreta. Bom pensar também que somos necessários a toda a humanidade, que sonha e se deleita com nossas criações. Mas somos a parte mais frágil da cadeia no sentido da sustentabilidade. A maioria absoluta dos grupos e coletivos de teatro padece de ações, e o circo está na lona, isto é, no chão literalmente. E os festivais de teatro, as mostras e as iniciativas do setor? Também, na lona a procura de saídas, ás vezes desesperadas.
                                        Refletir, sim, sobre a despolitização do movimento, o medo e o pavor de se expor, quando se trata de reivindicar politicas públicas de cultura seja do município ou do estado, e aprofundar debates local sobre o tema. Onde muitos preferem se isolar, e se enterram em egos, sem se permitir sequer serem questionados. Ou, então, fazem  trincheira em redes sociais ou batem panelas e soltam gritos, dividindo-se em esquerda e direita radicais, contra ou a favor. Denegrindo, muitas vezes, o amigo de classe, esquecendo-se que o inimigo não somos nós, e de que todos tem livre arbítrio, inclusive, os próprios.  No meio disso tudo uma multidão invisível, sem esperança, apenas assistindo o duelo e, talvez, se perguntando - onde vamos parar? E nós, do teatro e do circo, que precisamos sobreviver de nossa arte, a nos perguntar, onde vamos parar, em um estado de mais de três milhões de habitantes e numa cidade de mais de oitocentos mil, que não conseguem as condições mínimas de sobrevivência para  seus artistas. Isso é necessário reflexão.
                                          Resistir. É o que todos nós do teatro e do circo temos feito. Ainda mais em tempos negros e sombrios. Resistir é a palavra chave para este dia Internacional do Teatro e Dia Nacional do Circo. Resistir, em todos os seus aspectos. Lutar coletivamente, dar as mãos e ser solidário uns com os outros, mesmo confinados momentaneamente por uma pandemia. Ser pessoas, ser gente, ser  artistas. Resistir e continuar lutando com todas as nossas forças para sairmos dessa situação de palcos vazios e sem luz. A criação é a nossa prova dos nove, mas precisamos viver plenamente para transmitir alegria. Palavra de todos nós, resistência!

quinta-feira, 12 de março de 2020

JÔNATAS BATISTA - CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DO DRAMATURGO.


                                                             (Publicado no Jornal da Manhã, 20.12.1985)


           Jônatas Batista, o homem de letras de espirito combativo e indomável, o poeta de versos revoltados contra o mundo e a solidão, o dramaturgo de veia satírica  e mordaz ao desnudar os costumes sociais da nossa provincia, completou no dia 18 de abril passado, o seu centenário de nascimento. Não é tarde lembrar. Grandes homenagens? Não. Pequenas homenagens? Também não. Afinal de contas trata-se apenas do primeiro dramaturgo piauiense, nascido ainda no século passado, um rapaz metido a ator, um molecote que representava e dirigia seus textos no Theatro 4 de Setembro. Portanto, parece ser essa a visão que os orgãos oficiais de cultura tem acerca do grande dramaturgo. Nada de estranho, pois assim também é a mesma visão que ainda hoje parecem terem sobre nossos artistas de teatro. Para nós, interessa muito saber da vida e da obra de Jônatas Batista como homem de teatro, pois era ai o seu campo de luta.
          Nascido no povoado Natal, hoje Monsenhor Gil, a 18 de abril de 1885, era filho do tenente coronel João José Batista e de dona Rosa Jericó Caldas Batista, e irmão do grande poeta Zito Batista, e um dos mais combativos homem de imprensa do Piauí.Casado com Ducila Cunha, exerceu a profissão de oficial do registro civil e, como poeta, foi um dos fundadores da Academia Piauiense de Letras, e um de seus membros. No entanto, se na poesia o homem manifestava suas imprecações contra o destino, suas angustias secretas de glorificação  á vida, foi no teatro que Jônatas Batista despejou através de seus dramas, operets e comédias, a mais crua e contundente critica á sociedade piauiense. Talvez venha daí a sua biografia quase nunca trazê-lo como dramaturgo, mas sim como poeta e, além do mais, academico. É melhor esconder o lado marginal do imortal da sociedade, e esquecer o dramaturgo que tanto expôs as figuras sociais da capital. Basta ler a revista  de costumes O Bicho, musicada pelo maestro Pedro Silva e que foi vista por quase toda Teresina, para se sentir o perspicaz e vivaz autor de teatro do inicio do século XX.
            Entra o Coro dos Banqueiros:
           "Depositários somos do dinheiro,
            Da maior parte do povo brasileiro,
            Do povo jogador.
            Por isso,é que vivemos fartamente.
            A vida desfrutando alegremente
            Em largo esplendor"
            Por ai se nota que er melhor mesmo conservar o outro lado do homem. Coisa de familia?Pela árvore genealógica é fácil imaginar.
           De uma vida acidentada e tormentosa, Jônatas Batista, aos 18 anos, com a morte do pai, interrompeu os estudos no Liceu Piauiense para viver com seus nove irmãos. Nesta época perseguiu de uma menira firme e obstinada, o oficio de homem de imprensa. Fundou os jornais A Patria,O Mensageiro, O Arrebol, O Operário e O Facho todos pasquins endiabrados, que saiam semanalmente ou mesmo quando se podia pagar a impressão. O certo é que eram todos escritos em ritmo de denuncias, de respostas e, acima de tudo, incentivador de debates e brigas literárias, principalmente contra os inimigos do progresso.Aliás, as richas literárias também não lhe rendiam bons frutos na cidade conservadora, na capital de de preconceitos arraigados.
            Como dramaturgo Jônatas Batista era sócio da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais-SBAT e o seu primeiro representante no Estado do Piauí. Dono de uma vasta obra teatral, contando inúmeras revistas, dramas históricos e operetas, podemos contar entre elas Mariquinha, Teresina de Improviso, Jovta, a Heroina de 1865, Astucia de Mulheres, Cidade Feliz, Frutos e Frutas, Alegria de Viver, Improvisações e Improvisadores, As Crianças, O Bicho, Treze de Maio e a Luta. Coisa de estranhar é o fim que tomaram essas peças de teatro, para encontramos uma foi muita luta e pesquisa. Coisa de estranhar também é que quando pesquisavamos percebemos um certo descaso pela vida artistica  de Jônatas, como se seu oficio de dramaturgo  estivesse sendo escondido debaixo de sete capas. Isso é fácil de compreender. Sua dramaturgia era de forte  conteudo de denuncias sociais, que punha a nu as falcatruas da cidade e a hipocrisia da sociedade teresinense. Sim, a sua veia sarcástica parece ter sido a maldição de ser considerado dramaturgo.
           Mais exemplos da revista O Bicho.
           Sobre a imprensa do Piauí.
          "A imprensa do Piauí
           Não tem ódio e nem capricho
           Eis-nos aqui, eis-nos aqui,
           Fiscalizando o bicho".
          Sobre a policia:
         " Se o dinheiro é curto
           Eu furtar, não furto
          Mas escurrupicho...
          Tiro uma quinzena
          Jogo na dezena
          Pra ganhar no bicho".
          O último exemplo é sobre os costumes da época:
          Não estou dizendo graça
          Nem também falando a toa
          Pelo bicho se desgraça
          Muita dona fina e boa".
          Jônatas Batista, o grande dramaturgo piauiense, morreu em São Paulo, no dia 15 de abril de 1936. Em tempo: houve uma homenagem na Secretaria de Cultura, Desportos e Turismo do Piauí no dia do seu centenário, o lançamento do concurso de Dramaturgia Jônatas Batista, versão 85. menos mal.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

CHICO PEREIRA OU O DESTINO DE DUAS RAIMUNDAS - FIM

   
       Em relação aos espetáculos e ao fazer teatral da Semana, foram altamente positivos. Realização dos cursos com os profissionais Carlos Murtinho e Isis Baião, ambos vindos do Rio de Janeiro, o que oportunizou a diretores, atores e técnicos locais, a discussão sobre o fazer teatral. Muito se discutiu a dramaturgia de Chico Pereira, ver Chapéu de Sebo; Reino do Mar Sem Fim, Raimunda Jovita Na Roleta da Vida e O Trágico Destino de Duas Raimundas e, apesar dos comentários, não é  uma coisa extraordinária e sem igual. Mas enfim Chico Pereira é nossa maior expressão do teatro nacional, coisa bem nossa, temas nossos enredos nossos. E seu valor está na transfiguração dramaturgica, no apuro da carpintaria teatral, no jogo sutil de palavras e no humor de entrelinhas quase perfeito. Resaltando-se ainda o cheiro de futuro que só os grandes autores conseguem. 
        É formidável tirar da história do Piauí como ele o fez, textos tão significativos, tão profundos. Só mesmo com sua prática constante de dramaturgia e o conhecimento da nossa história e da nossa sociologia. Nos dois espetáculos montados, o que ficou? Imagens pra prender os olhos e a atenção.; contundentes imagens, jogos de palavras que deleitam a todos. Mas tanto na Raimunda Jovita na Roleta da Vida como no O Trágico Destino de Duas Raimundas, as Raimundas que aparecem, Raimunda Jovita, Raimunda Borborema e Raimunda Joaninha,  são mulheres que apesar de toda garra e de ultrapassarem barreiras, são vencidas pelo machismo, e caem no mundo, não conseguem ultrapassar seus próprios limites. A gente fica até a desejar mais das Raimundas, mas tudo bem.
         Quanto a atores e diretores dos espetáculos, a direção de Raimunda Jovita na Roleta da Vida, de José da providencia, foi ótima. Evidenciou ao máximo a personagem central, que carrega o espetáculo de ponta a ponta. Agora houve atropelos. O espetáculo não tinha uma armação criativa, essa coisa de pegar o texto e direcionar, como fez Arimatan Martins em O Trágico Destino de Duas Raimundas, usando as mil e uma noites, aquela coisa de transcender o texto. O espetáculo Raimunda Jovita exagerou em cores, o providencia não atentou para a cor do espetáculo. Também existiu problemas de atores. Nossos melhores atores pecam pelos mesmos erros. Lary Sales não consegue sair de uma dramaticidade permanente, e torna-se muito rigida em cena. , tendo um grave erro também de tonalidade vocal. Escutamos o tempo todo o mesmo tom de voz. Fabio Costa ainda não aprendeu a dominar-se em cena, corre o palco sem necessidade e dai vem uma rapidez que voz que o expectador não acompanha. Depois a expressão facial não muda, não acompanha o sentimento do texto. : são sempre olhos dilatados, gestos contidos. No entanto, são coisas faceis de dar um jeito.
          Diferença grande de Leonora Paiva e Lorena Campelo, em O Trágico destino de Duas Raimundas. Leonora Paiva aliando dança e interpretação tem o dominio do palco. Consegue sair de uma cena dramática para uma cena de humor com a mesma carga de interpretação. Lorena Campelo, talvez uma das únicas atrizes piauiense que modula a voz conforme a cena exige, tem um dominio impressionante sobre a personagem. E aqui não vai a questão simples de mudar de voz, mas sim carrega-la de tonalidade e emoção dramática. Em O Trágico Destino de Duas Raimundas está o exemplo de duas atrizes em angulos opostos, uma que tem domino sobre o palco e a outra sobre seu personagem. As duas tem um potencial incrível a ser desenvolvido e, de longe, foram as melhores atrizes dos dois espetáculos apresentados.
         A Semana Chico Pereira deu oportunidade, também, para conhecermos novos valores do teatro local, como Pinho Goudinho, José Dantas, Edy Ary, Francisco Pellé, Wilson Costa, Augusto Neto, assim como o retorno de Airton Martins e a aparição da estrela de Arimatan Martins como diretor. Ele que soube dimensionar a ora de Chico Pereira, dando-lhe aquele toque futurista a que nós nos referimos.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

CHICO PEREIRA OU O DESTINO DE DUAS RAIMUNDAS - I

                                                    (Publicado no Jornal da Manhã, de 19.12.1985)

              Chegou ao final a Semana Chico Pereira, ocorrida de 09 a 15  próximo passado.Com ela a certeza de que um dos mais importantes eventos foi cumprido na historiografia do teatro piauiense. Nosso teatro que, sem dúvida alguma, foi a arte que desabrochou, afirmou-se e brilhou soberana no decorrer deste ano. Com o término da Semana Chico Pereira fechou-se um ciclo brilhantemente,  dando-nos a certeza da maturidade em que nosso teatro se encontra, ao mesmo tempo em que abre um leque incrivel de considerações, debates e analises desse árduo caminho percorrido pelo nosso teatro.E é sobre este prisma que vamos abordar a Semana Chico Pereira enfocando, de um lado, a própria Semana e, do outro, seus dois textos encenados, ou sejam: Raimunda Jovita na Roleta da Vida e O Trágico Destino de Duas Raimundas.
                 Sobre a Semana Chico Pereira muito se tem a dizer. Deixando de lado os lances sem muito relevo, vamos abordá-la de três ângulos que achamos da maior importância para uma futura promoção deste porte. Mas antes vamos dar vivas e palmas para Tarciso Prado, o idealizador e realizador da Semana que, com garra, sangue e pique total sacudiu mais uma vez o pó de velhas estruturas e desnudou outra vez a burrice e a ignorância de nossa tecnoburocracia cultural. E bota burrice nisso. Os três enfoques que gostariamos de abordar  sobre a Semana são bem simples: Primeiro uma certa falta de planejamento. Em teatro, e Tarciso sabe disso, a equipe é imprescindivel. Para nós faltou um trabalho em conjunto na Semana Chico Pereira. Claro que tem os percalços, inerente a todo grande evento. É tanto que a Semana esteve ameaçada de não acontecer, mas aconteceu, felizmente. Faltou mais entrosamento, para evitar os furos, como por exemplos, o espaço livre que não funcionou e iria ajudar muito na manifestação de outras áreas culturais, como da própria manifestação da Semana.; O lançamento do livro de Francisco Pereira da Silva e a não presença do diretor teatral Aderbal Junior, foram outros furos da programação. 
              Apesar da ajuda de muitas pessoas, Tarciso prado terminou realizando a Semana quase sozinho, muitas ajudas foram isoladas e as pessoas envolvidas diretamente no evento só deram conta das montagens que seriam levadas durante o evento. Talvez tenha faltado um trabalho maior junto a classe teatral, com exposição de propostas, e temos certeza, que todo o movimento teatral teria se engajado. Nesse sentido, também verificamos uma falha incrivel na divulgação. Outro ponto que nos chamou atenção foi a importancia que se deu a presença de autoridades na programação. Era o Secretario de Cultura, o Prefeito, não sei lá mais quem, atrasando tudo, e terminando nem comparecendo. Ora, é preciso acabar com essa coisa de fazer arte para autoridades se deleitarem. Para isso eles promovem seus próprios eventos. Arte é para o povo, pode ser que a partir daí, quando o povo tomar de conta de suas manifestações, as autoridades possam enxergar e dar valor, por que mesmo elas precisam do povo para se manter nos seus postos. Esperar por comparecimeno de autoridades para assistirem aos nossos espetáculos, é perda de tempo. Eles não estão interessados em nossa arte, o que é uma pena porque estão perdendo belissimos espetáculos e o que é pior, uma boa oportunidade de crescerem culturalmente. Esse negócio também de mandarem seus representantes já está enchendo o saco. Por último vamos falar do aspecto economico da Semana Chico Pereira. Sabemos do gasto com a produção, sabemos do pagamento de atores, diretores, técnicos, do sacrificio que foi feito para isso. Não entramos na questão do dinheiro, mas em outro aspecto. Por que tudo de graça? Houve patrocinio da prefeitura? De outros orgãos? Por se ter ganho a publicidade? Se foi para o povo vir ao teatro, a intenção foi ótima. Agora nossa colocação acima, por ter sido de graça, é que nesse momento, em que o teatro piauiense busca se afirmar, é tremendamente prejudicial ao movimento de teatro amador, que luta no escuro para produzir teatro e que não tem oporunidade de patrocinio. Depois foram ótimos espetáculos e que mereciam plateias pagantes. Até que a estreia poderia ser de graça, por ser festa, mas certamente teatro de graça não é a melhor forma de manter público para o teatro. Isso não cria hábitos, pode criar vicio. E como manter produções dessa forma? Se os atores foram pagos porque a Semana foi patrocinada, até quando vai ser assim?Só se forem patrocinados nossos atores vão ganhar dinheiro?                .

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

VOU COMER A CANTORA - FIM


           Saiu do salão e foi direto para uma banca pegar uma caipirinha, e tome caipirinha. Quando voltou para o salão parece que pisava em nuvens, mas a cantara não estava cantando. Passeou os olhos pelo ambiente a viu com um grupo de moças. Entre as moças estava Selminha. Foi mão na roda. Chegando no grupo Selminha quase se joga em cima dele.
         - Dorinha esse é meu primo! Disse a moça segurando sua mão - Ele mora na capital.
           Quando Dorinha, a cantora, olhou para ele aqueles olhos pareciam duas lagoas azuis, cheias de desejos incontidos. Ela estirou a mão para ele e ele a segurou por instantes.
         - Ah, muito prazer, Angelo... Você canta muito bem... Disse quase sem folego.
         - Brigado, brigado mesmo...
           A moça não falou mais nada, por que seus olhos e seu corpo já falavam por ela. Foram apenas alguns segundos.
        - Ah, vou ter que cantar, chegou minha vez - Disse ela - Depois eu volto pra conversar mais...Angelo...
          Ele ficou tão ansioso que para sair daquela angustia dançou com Selminha. Depois levou a prima até a uma barraca de café e bolo de goma. Ela ficou exultante de alegria. Mas seu pensamento era na cantora Dorinha, uma pensamento intensivo, tempestivo, quase cruel. Como aquela cantora seria sua?
          Quando voltou para o salão com Selminha a cantora já se encontrava no mesmo lugar de antes. Ficaram todos  conversando. A seresta corria solta. Cardosinho e seu teclado era um sucesso. Quando menos ele esperava o Zaca tirou Selminha para dançar. Foi um alivio.
           Dorinha, disse na lata.
         - Queria ir pra capital, é meu sonho!...
         - Pois vamos- Emendou ele.
         - Namoro com o guitarrista...
           Meu deus! Pensou ele. Com aquela marmota? Todavia, menos mal pois ele pensava que a cantora fosse mulher de Cardosinho.
         - Mas ele sabe de meu desejo, num vou morrer aqui nessas brenhas.
         - Você tem toda razão...
            Os dois caminharam até a penumbra da noite, os corpos ávidos. As mãos, as bocas, as pernas eram puro desejo. Não foram mais do que dez minutos, mas o tempo se eternizou. Estava na hora dela cantar.
          O cheiro de Dorinha não saiu mais de suas narinas . Aquela moça iria sim para a capital e, com seu talento, ganharia o mundo. Quanto a ele estava satisfeito e agradecia a todos os deuses do universo. Jamais esqueceria daquela cantora, e faria tudo para ajudá-la.
            A seresta de Cardosinho com seu teclado, a guitarra do marmota e a voz de Dorinha, suavam em seus ouvidos como a melhor coisa do mundo! Ainda mais com os olhos e o sorriso de Dorinha fixos nele..

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

VOU COMER A CANTORA - II


          Tomaram não só um mas vários tragos de Velho Barreiro, um aguardente muito na moda por aquelas bandas. Foi quando ele notou que estava vendo as coisas meio enviesadas.
       - Tu  já viu a cantora? Perguntou o Zaca.
       - A cantora!...
       - Da seresta... Oh, bicha arretada primo!...
         Ainda não tinha  visto o próprio grupo da seresta. Entrou na casa e foi comprovar a assombração do primo. Quando chegou no local onde o grupo estava tocando a imagem do que pensara foi pior. O homem do teclado, o afamado Cardozinho, tinha o cabelo black power, uma mistura de James Brower com porco espinho, e vestia uma camisa colorida espalhafatosa. Sem contar que o equipamento era mais fuleira do que imaginara. A seu lado, um tocador de guitarra, uma guitarra mais antiga que ronca. Tudo nele chamava atenção, e ele parecia fazer questão disso.A cara do sujeito era uma mistura de macaco prego com guachinim. E o kichute que ele calçava era daqueles feito com pneu de carro, maior do que seus pés..O guitarrista era uma marmota em pessoa.
          Não distinguiu bem quem o Cardozinho tentava imitar na voz, mas logo veio a lembrança, Amado Batista, um cantor brega ovacionado por toda a região da Roça dos Pereira. Não era bem uma imitação, era uma tentativa. E péssima.
        - Fii d'uma égua pra cantar, meu primo! Zaca quase estoura o ouvido dele.
          Quando já estava desistindo de ouvir aquela voz fanhosa, foi surpreendido com a aparição de uma moça com um microfone na mão. Era a cantora. Quando ela começou a cantar vários casais tomaram conta do recinto. Era uma voz suave, penetrante, cristalina. Se a luz daquele ambiente era fraca a luz que vinha daquela criatura iluminava tudo. O vestido era simples, discreto, apenas de uma cor, deixando seu belo corpo  a vontade.O rosto era perfeito, emoldurado por dois olhos de prazer ao cantar,. Nada daquilo era resultado de sua bebedeira.Ela existia.
       - Viu, primo? Oh, diaba linda! - Era o Zaca de queixo caido - Ela é lá do sossego...
          Só podia ser mesmo, pensou ele. As moças do Sossego não negavam beleza. Aquela criatura era realmente bela. Não estava mais se incomodando com a feiura de Cardozinho nem de seu guitarrista, e muito menos com a desgraceira que era seus equipamentos musicais. Com aquela voz em seu ouvido e aquela estampa a sua frente, a seresta estava se transformando na coisa melhor do mundo. Ficou como que paralisado na frente do grupo musical. Seu pensamento era um só, ia comer aquela cantora. Só ainda não sabia como.  .


segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

VOU COMER A CANTORA - 1


        Quando ele chegou na Roça dos Pereira para mais umas férias, era só no que falavam, a seresta na casa de seu Francelino Alves, o seu Lino. Mas a coisa ia além, até no Pajeú, sem falar nos Lajedos e na Lagoa de São Francisco, se ouviam os comentários. Pajeú ficava depois da Roça de Baixo. Pois é, a Roça dos Pereira era dividida em Roça de Baixo e Roça de Cima, sem ninguém saber o porque da divisão, já que as duas não tinham diferença nenhuma. A não ser que na Roça de Baixo ficavam os garimpos de opala, uma pedra preciosa que mudava de cor, e por quem os homens se matavam. Mas a Roça de Baixo já existia muito antes desses garimpos.
         A verdade é que todos os moradores da Roça dos Pereira pareciam super ansiosos pelo dia da seresta. Vai se ver era porque os dias naquela terra pareciam não ter fim. Agora ele não via a menor graça naquilo tudo, afinal de contas estava apenas passando férias. Mas pensava na chatice que seria. Um sujeito berrando no teclado, que devia ser um aparelho ultrapassado e, no máximo, um arranhador de guitarra a seu lado e uma mocinha querendo imitar alguma cantora de banda de forró dessas que infestam o país. Realmente devia ser um porre.
          Foi o primo Aliomar, chamado por todos de Zaca, que ele não sabia por que, que o alertou:
        - A seresta vai ser com o grupo do Cardosinho, primo. Lá do Sossego, o caba é bom!
        - É bom, é? Interrogou ele com désdem.
          Mas a palavra Sossego o fez pensar. Era no Sossego que tinham  as moças mais bonitas de toda a redondeza da Roça dos Pereira. Eram faladas não só pela sua beleza, mas também por um problema genetico, pois quase todas nasciam surdas. Então, como não ouviam apenas sorriam o tempo todo, mostrando toda sua candura. Uma beleza! Para namorar, então! Podia ser que com o Cardosinho viessem muitas moças do Sossego.
          E foi pelas moças do Sossego que ele resolveu ir a tal de seresta. Quem fico alegre por demais foi a Selminha, filha de dona Vicentinha. Mas essa não cotava por que ele estava acostumado a lamber seus peitos, meter o dedo em sua xereca e gozar por trás, para não ter problema de pegar barriga. Sim, ele iria para a seresta na casa de seu Lino, o velho Lino da Roça dos Pereira.
          A casa de seu Lino ficava na Roça de Cima, uma das casas grandes do lugar com energia eletrica. O terreiro era grande que proporcionava os rapazes jogar bola nas tardes de domingo. A seresta era para comemorar o final das farinhadas daquele ano, que tinha sido realizada por quase um mês. Uma fartura imensa!
          Quando chegou lá sentiu um clima de baixo astral. Nem as barraquinhas de vendas que se espalhavam pela frente da casa, onde se podia beber pingados e tomar café com bolo de goma, o animaram. Ele e Zaca se juntaram a outros rapazes, primos e amigos. Entrou no salão de dança mas não teve coragem de ir até o grupo que tocava, pois sentiu exatamente o que tinha pensado. A música parecia vir de debaixo da terra, com um som abafado e incompreensivo. Saiu rápido para o terreiro, respirar ar puro e tirar o cheiro de patchulli das narinas. Selminha imediatamente o agarrou pelo braço e segurou sua mão. Cadê as moças do Sossegou, pensou. O jeito foi ficar com a prima, matando o tempo.
         - Vamos dançar, vamos primo! Falava Selminha toda assanhada.
         - Calma, Selminha!...
           A moça só o largou quando viu sua total falta de entusiasmo para dançar. Então, ele saiu pelo ambiente curiando. Continuava a não ver nada que o animasse. O baixo astral da chegada continuava invadindo sua cabeça. Devia ter ficado em casa deitado na rede do alpendre contando estrelas.
         - Primo, vamos tomar um trago! Era o Zaca.
         - É, vamos - Disse laconicamente.