sexta-feira, 30 de junho de 2017

DESFILE DE GRUPOS DE BUMBA-MEU-BOI DE TERESINA

     
           O desfile de grupos de Bumba-Meu-Boi de Teresina aconteceu no ano de 1987, promovido pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves, da Prefeitura Municipal de Teresina. Criada no ano anterior pelo então prefeito Wall Ferraz, a ordem era mobilizar a cultura teresinense em todos os seus seguimentos. E assim era feito.
            Para o evento, foi criada a Associação dos Brincantes de Bumba-Meu-Boi de Teresina,sendo  eleito para dirigi-la Antonio Gomes dos Santos, o mestre Maleiro, dirigente do Bumba-Meu-Riso da Mocidade, do bairro Poty Velho. A associação contabilizou como filiados, naquele ano, vinte e três grupos de bois na capital. A FCMC fez um trabalho de revitalização desses grupos doando equipamentos, vestuário e instrutor, pagando também cachês de apresentações para esses grupos.
             A Fundação Cultural era um orgão enxuto, em inicio de implantação, contando com uma equipe extraordinária de colaboradores em diversas áreas culturais. Lembro que a decisão primeira da equipe, liderada pelo professor Noé Mendes, foi em investir na cultura popular, tirá-la do limbo em que se encontrava. Então, era revitalizar reisado, bumba-meu-boi, tambor de crioula, forró pé de serra, chegando até ao carnaval. Claro, sem esquecer as outras áreas culturais, como o teatro, a dança, a música, artes plásticas, cinema e literatura. Esse resgate da cultura popular, em um primeiro momento, chegou a ensejar criticas do meio cultural. Mas essa é outra história.
            O desfile de grupos de bumba-meu-boi de Teresina foi marcado para julho de 1987, no bairro Parque Piauí. Os bois sairiam do final da avenida principal e desfilariam até a Praça da Integração, em frente ao Centro Social Urbano. Para tanto, foi montado palco, arquibancadas e um camarote para os convidados e autoridades.
              Tudo uma maravilha. Todos os grupos de bois presentes ao evento. O desfile começou na hora marcada, por que sabíamos da pontualidade do professor Wall. No entanto, quando os grupos tinham percorrido umas quatro quadras vários grupos entraram numa rua diferente do percurso, enquanto, outros continuaram pela avenida. Foi um deus nos acuda. Como a equipe coordenadora era pouca, não houve jeito de juntar os bois novamente. Então, o jeito foi traçar nova rota para os, digamos, bois perdidos. 
              Fiquei de avisar no palanque, onde estava o prefeito, da chegada dos bois e do pequeno acidente de percurso. Lá estavam todos os convidados. Esperei pelo momento certo de avisar. Os primeiros grupos de boi que vinham pela avenida começaram a entrar na Praça, com uma fusão de cores fenomenais. Quando todos entraram, e eu já ia contar que faltavam vários grupos, eis que entram todos eles pelo outro lado da Praça, arrancando aplausos dos presentes. Fiquei na minha. 
              Toda a equipe da Fundação recebeu parabéns pelo evento. E, separar os bois e fazê-los entrar por lado distintos, tinha sido uma grande sacada. 
            A Associação dos Brincantes de Bumba-meu-Boi de Tersina se acabou. Mestre Maleiro se mudou para Timon, com seu brilhante grupo Boi Riso da Mocidade, um dos melhores grupos do Estado do Maranhão. Fazer o que.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

UM CASO INTERESSANTE


           Corria o ano de 1983. Teresina era a cidade, dentre outras coisas, dos cabarés. Era cabaré para tudo quanto é canto. No Promorar, Piçarra, Parque Piaui, Poty Velho, Morro da Esperança, Dirceu Arcoverde, chovia de cabarés, uns que não passavam de espeluncas fedorentas, outros mais sofríveis. A verdade era que tinha para todos os gostos.
           Eu tinha um amigo boêmio, vivedor, gastador de dinheiro,  um bon vivant. E que gostava de me convidar para noitadas. Nos cabarés, obviamente. As vezes passávamos uma noite e um dia enfurnado nessas casas de reputações, digamos, não ilibadas. A gente ficava bebendo, jogando sinuca - alguns tinham mesas de sinucas - e ouvindo músicas. E certamente aqui e acolá ficando com alguma mulher.
           Lembro de alguns desses lugares que faziam a festa da rapaziada. A Loura, Ana Paula, Raimundinha, Cabaré da Romana, Margarete, Verdurinha, Raimundo da Lancheira, e por aí vai. A Paisandú, o cabaré mais afamado na cidade, na realidade quase um bairro de casas noturnas, para nós dois, era o ultimo recurso.
           Meu amigo chamava-se José da Providencia, já falecido. Era cenógrafo, figurinista, fotografo e um excelente diretor de teatro. Muito querido por toda a classe teatral. Foi diretor do Theatro 4 de Setembro e técnico do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Piauí. 
           No ano de 1981, tínhamos ido ao II Congresso Brasileiro de Teatro Amador, em São Paulo, promovido pela Confederação Brasileira de Teatro Amador - a Confenata, já extinta. Do Piauí, foram ao Congresso sete delegados, representando o movimento de teatro local. Isso tem muito a ver com o caso que aconteceu, ainda que não tenha nada a ver uma coisa com a outra.
          Bem, numa dessas noitadas, eu e Providência estávamos no cabaré da Ana Paulo, muito frequentado por jogadores de futebol, e um pessoal, mas selecionado. Altas horas da noite baixou uma ronda policial no local. Estavam atrás de um meliante perigoso. Foram logo mandando todo mundo ficar de mãos para o alto, e alguns encostados na parede da sala. O Providência, para quem o conheceu sabe, só andava de branco. Ele não levantou da mesa, e nem eu. O sargento se aproximou e foi dando ordens para que mostrássemos os documentos. Providência puxou a identidade e outros documentos do bolso da camisa. Eu fui tirar minha identidade da bolsa, mas não precisou. O sargento simplesmente se desculpou -Desculpe, doutor, passar bem. Tinha dito com o Providência, e saído. Sem antes entregar a carteirinha da Confederação Brasileira de Teatro Amador.
         Ficamos parados, eu e Providência. Na carteirinha estava escrito em letras grandes: José da Providência, delegado, Piauí. Em letras pequenas - Confenata.
            Achamos graça, e continuamos a nos divertir.
        

quinta-feira, 27 de abril de 2017

A LÁGRIMA


              Coisa sagrada, a mulher. Não para profanar, pecar ao tocá-la. Mas para cuidar, acariciar, proteger, amar. Nada mais lindo para ele do que o seio. Parte mais bonito do corpo da mulher. Era ali, onde estava a essência da beleza, e a diferença do ser feminino. Tocar aquela parte feminina era experimentar a sensível pulsação da vida.
               Portanto, idealizava a mulher. Um ser puro, até prova ao contrário. E o contrário para ele era sempre doloroso, pois o que contava era a imagem mental, fosse qual fosse a imagem física. Assim amava todas elas, com suas diferenças, suas carências, seus problemas. Não era uma questão de fragilidade. A mulher não pode ser frágil se tem a fortaleza de gerar seres, e de possuir importância fundamental para a perpetuação da raça humana.
               Muitas vezes se via na mais cruel das indecisões. Escolher entre dois amores. O ideal do amor não é a exclusividade, é a própria abundância do amor. Não era escolher a quem amar, e deixar   quem o ama. Não era um pensamento machista, era a idealização do amor. Os pais podem escolher um filho, o filho pode escolher o pai ou a mãe, o amigo pode escolher o melhor entre os amigos, mas o amor é de todos. Bem, era assim que pensava. E era assim que sofria em ter de escolher. 
             Mas se o seio era a parte  mais bonita que achava em uma mulher, a lágrima era como a extensão de sua alma. Desmoronava simplesmente diante de uma lágrima de mulher. Nem se perguntava qual o motivo, a causa, a razão. Uma lágrima de mulher lhe deixava possesso, furioso, mais homem, querendo se vingar do mundo. E aqui estamos falando da lágrima sentida, chorada, vinda do fundo da alma. Para ele todo homem deveria ter o mesmo sentimento que ele tinha diante de uma lágrima de mulher. Assim talvez fosse mais homem, capaz de amar mais. E proteger.
             Dessa forma, era que amava as mulheres. E amava mais. E, como homem, fazia sua parte. Mas ele era apenas um homem. O que pensando bem, não é pouco.

domingo, 26 de março de 2017

AOS CRIADORES, NO SEU DIA


                 Quero falar para todos aqueles que amam o teatro, especialmente para a minha classe. Amanhã, dia 27 de março, é o dia mundial do teatro. O teatro foi a profissão que escolhi para viver, desde o dia em que me dei conta de que era isso que eu queria fazer. Sem fazer teatro, o meu tempo não teria vida.
                 Homens e mulheres do nosso tempo. Criadores do amanhã e do prazer de sonhar, que usam a inteligência para o bem da vida, denunciam a arrogância e o mal, lutam pela paz e o direito de todos; Denunciam a intolerância e tentam esbarrar a violência. Vamos dar as mãos, os homens gritam por socorro e a natureza clama em desespero. Lembrem-se depois dela não há nada. Por isso o momento exige mais do que palavras. A vida precisa urgentemente viver!
             Nós, pessoas de teatro, resistimos a todas as investidas do tempo, maldades e diabruras, perseguições e invisibilidade. No entanto, atravessamos tudo, e resistimos no nosso ofício de representar, de escrever, dirigir, iluminar, vestir, criar lugares e produzir, sempre transbordando energia de viver. 
                 As personagens nos acompanham, santas ou bruxas, deuses ou demônios, presas a seus costumes, dogmas ou ideologias, ou livres de qualquer forma de opressão. Cobram, sugam, exploram-nos, deixam-nos vazios quando se vão. Mas um vazio supremo de ter convivido, gestado e colocado no mundo, para o prazer de tantos e o ódio de outros tantos, criaturas que só nós, na condição de criadores, temos o livre arbitro sobre elas. Por isso fazem de nós, muitas vezes, um outro, ás vezes mansos, ás vezes loucos, diante de tanta barbárie! 
                    Assim no nosso oficio, apesar de tudo,  amamos, compreendemos, e somos generosos, pois temos compromissos com a humanidade. E se sorrimos do mundo, e de nós mesmos, é por que somos criadores e, como o criador supremo, estamos aqui para amar a todos. Viva o nosso dia! 
 

quarta-feira, 1 de março de 2017

A TRAGÉDIA DO GÓLGOTA

   

                  A Tragédia do Gólgota foi o primeiro grande espetáculo sobre a paixão de Cristo apresentado em Teresina. Era dirigido por Santana e Silva, na sua primeira versão, depois por Ary Sherlock e Santana e Silva, na sua segunda versão, no inicio dos anos 1970, com grande elenco de atores piauienses. Foi também o primeiro espetáculo de teatro que assisti, e fiquei encantado.
                  No ano de 1969, fazia o  curso ginasial no Colégio Helvidío Nunes, e meu passatempo era ler e colecionar revistas de Tarzan e ler um gibi chamado K.O.  Durban, sobre um agente secreto que tinha sete mulheres, uma para cada dia da semana. Achava aquilo perfeito. Costumava ir ao Cine-Rex e Cine-Theatro 4 de Setembro, tanto para assistir filmes como para vender e trocar revistas do Tarzan e do Zorro, principalmente. Era como uma religião. Eu adorava filmes, e roubar cartazes de filmes. Tinha vários, surrupiados em plena noite, num rasgo de adrenalina. Claro, para tanto eu contava com um amigo de adolescência inseparável, o João Leandro. Figura carismática, brincalhão, meio louco, e que me ensinou a tomar optalidon, mandrix, anfetaminas que deixavam a gente mais forte que cimento.
                  Assisti A Tragédia do Gólgota no Cine-Theatro 4 de Setembro, enfrentando uma imensa fila de pessoas para a segunda sessão da noite. Não estava muito eufórico por que era teatro, uma coisa que eu nunca tinha visto, mas enfim, os amigos iam assistir e a cidade comentava o espetáculo. No elenco tinha Tarciso Prado, Ana Maria Rego, Ary Sherlock, José da Providência e, também, meu irmão Assaí Campelo. As pessoas que citei aqui todas, naquela época, faziam parte do teatro amador do Piauí, e iriam futuramente fazer parte da própria  história do teatro piauiense. Todas também se tornariam meus grandes amigos.
                  Ao assistir aquele espetáculo me encantei com uma cena linda, era o sermão da montanha, representada por Ary Sherlock, que interpretava Jesus Cristo, um monstro sagrado do teatro cearense que veio morar uns tempos no Piauí, e aqui continuou sua tragetoria de sucesso no teatro. O Ano era 1971, e foi o último ano da Tragédia do Gólgota no velho Cine-Theatro 4 de Setembro, pois logo depois ele entraria em decadência total e seria fechado pelo governo do Estado, para reforma. A Tragédia do Gólgota ficou marcada na minha memória. Talvez ali tivessem,mesmo sem saber, sido conquistado pelo teatro.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

PRAÇA PEDRO II,O CORAÇÃO DE TODOS NÓS


               Orgulho do povo de Teresina, a Praça Pedro II, antiga Praça Aquidabã, é um belo cartão postal de arquitetura e urbanismo. Todos abraçam a Praça Pedro II de coração aberto, e para os mais idosos, lembranças dos bons tempos das matinês no velho Cine-Theatro 4 de Setembro, que para nossa alegria é um dos teatros mais bonitos do país.
                O conjunto Club dos Diários, Theatro 4 de Setembro, Cine Rex e Praça Pedro II sempre foi um orgulho da sociedade piauiense, claro, com cada macaco no seu galho, no bom e justo sentido. Sendo assim, nada mais justo que o povo, para quem as praças e os bens públicos são feitos,imbuídos do espírito de cidadania, passe a cuidar desse patrimônio paisagístico e cultural de nossa terra. Nada mais justo, portanto. É bom lembrar que isso até tem acontecido, não em escala maior,como é esperado, mas todos estão atentos  quando são chamados, veja o episódio da reabertura da rua em frente ao Theatro 4 de Setembro, imediatamente rechaçada.
               Mas isso é pouco, pois a Praça Pedro II merece muito mais carinho e atenção. Muitas sugestões são feitas, seja por populares, seja em seminários, encontros ou debates sobre o resgate do centro histórico de Teresina. Afinal de contas, toda cidade que se preserva tem seu centro histórico preservado. Não vou nem dar exemplos, mas citamos aqui pertinho, São Luís, Recife, Salvador. Como seria bom ter não só a frente do Theatro sem transito mais todo o perímetro que vai do Theatro ao Centro de Artesanato, com investimento em bares, lanchonetes e atrações culturais. Com isso, sem dúvida alguma, o público retomaria o caminho da Praça, e o pulmão de Teresina passaria a respirar mais humanidade.
             Para nossa capital, uma cidade prestadora de serviços, revitalizar ambientes de convívio social é quase imposição. Aquele corredor cultural, com vida noturno  e ativa certamente atrairia visitantes outros, e ainda levariam consigo belas lembranças do calor humano que o Teresinense tem, e do imenso talento cultural que pulsa em nossa arte.
              A Praça Pedro II é de todos nós, só precisa de proteção, cuidados e muito carinho.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O PRIMEIRO ROMANCE



         Corria o ano de 1965. Minha família tinha chegado do Maranhão,de retorno para o Piauí, no ano anterior. Morávamos no bairro Piçarra, a menos de um quarteirão da Avenida Miguel Rosa, de onde avistávamos o Cine São Raimundo, chamado de Baganinha. Foi nesse cinema que assisti muitas vezes o humorista Zé Trindade, um dos maiores do Brasil.
          Eu e minha irmã estudávamos no Colégio Miguel Borges, no bairro do Barrocão. Lembro que, quando chovia, aquele bairro realmente se transformava num imenso córrego de águas barrentas e caudalosas de meter medo a qualquer um. A água era tanta, que muitas vezes,os alunos do colégio não podiam sair e ficávamos ilhados dentro da escola, até a correnteza passar.
          Eu era uma criança frágil, um menino magricela, que sofria de asma e muito suscetível a outras doenças. Por isso, sempre tive um comportamento mais contemplativo, meio solitário, no entanto, jamais de solidão, isso por que eu tinha uma imensa capacidade de sonhar. Vivia sonhando com tudo que era bom, e isso me dava uma imensa vontade de viver.
         Naqueles anos,o governo americano, através de um programa de cooperação com o governo brasileiro, mandava merenda para as escolas públicas do país. Os alunos faziam festa. Era leite em pó feito com uma mistura de néscau que era apelidado de pau de índio. Esse leite, a merenda escolar mais comum,  era acompanhado de um pãozinho pequeno, que quando estava duro, os alunos faziam a guerra dos pães dentro das salas.Um deus nos acuda. E eu só olhava, quieto, na minha.
            Foi numa manhã, não me lembro de que dia, que dei com o livro lá em casa. Era o romance Crime e Castigo, um calhamaço de mais de seiscentas páginas, de um escrito russo chamado Fiodor Dostóievsk. Comecei a ler o livro imediatamente, e aquele enredo me cativou tanto que eu não esquecia um só minuto do livro, e quando estava em casa, e meu irmão não estava lendo, por que o livro tinha sido trazido  por ele, ficava ali impaciente aguardando minha vez.
          Na escola, durante a leitura daquele romance, eu ficava pensando na história e qual seria o destino daquele personagem insólito, e minha quietude ainda era maior o que fazia com que minha professora, dona Jacira, várias vezes colocasse sua mãe em minha testa perguntando se eu estava doente. Realmente, durante a leitura do livro eu sentia o corpo quente, febril.
           Ao terminar aquele romance Crime e Castigo eu não tinha dúvida, seria um escritor de romances. Melhor ainda, eu gostaria de me parecer com aquele escritor, que na contra capa daquele livro estava de barbas longas,umas enormes olheiras e um bigode bem tratado. Não me lembro se era uma foto ou uma pintura, só sei que queria ser ele e escrever um romance. Coisa que depois de quase cinquenta anos ainda não conseguir escrever, um romance. Mas continuo tentando.