domingo, 28 de fevereiro de 2016

SOBRE IDENTIDADE CULTURAL


           Nos anos noventa participei de um Seminário sobre Identidade Cultural na Universidade Federal do Piauí, promovido pelo Departamento de Comunicação e coordenado pelo ilustre jornalista e professor  Fenelon Rocha. Na mesa de debate me lembro da historiadora Claudete Dias.
           Comecei minha fala dizendo que Teresina não tinha uma identidade cultural por que foi uma cidade criada, planejada, e que seus moradores vieram para cá de outros lugares, portanto, trazendo de onde vieram suas tradições, seus hábitos, seus comportamentos e sua cultura. E, sendo assim, Teresina não tinha raízes culturais genuínas. No final do seminário houve um bom debate sobre identidade cultural.
           Mas uma vez colocamos esse tema aqui por que continua a me instigar profundamente o fato dessa história corriqueira entre a maioria da classe artístico -cultural de que não precisamos de identidade cultural, por que somos contemporâneo, uma capital nova, integrada, portanto, a todas as tendências. 
           Mas uma vez recorro a um fato, e este aconteceu em 1995, quando participamos no Rio de Janeiro de um evento no Rio Centro, onde o Piauí se fez presente com sua arte: literatura, artes plásticas, música, fotografia e artesanato. Eu coordenava a parte de literatura e artes plásticas. Lembro que houve um show do grande Edvaldo Nascimento e seu rock no mesmo instante em que um grupo de Recife estava fazendo uma apresentação musical de frevo e maracatu. Não é preciso dizer que o público do nosso autentico rock piauiense era exíguo, quase inexistente, enquanto o outro bombou. Não estou dizendo aqui absolutamente que nosso rock é ruim. Foi apenas uma comparação da diferença, do inusitado, do que faz as pessoas se admirarem, do que não é comum, daquilo que não encontramos em cada esquina do mundo global.  Identidade cultural talvez seja isso, o que faz a diferença.
          Cada vez mais estou convencido de que precisamos encontrar um rumo na nossa criação artística. Pode ser apenas uma opinião. Mas enquanto ficarmos apenas querendo imitar, e mal feito, o que faz a cabeça das pessoas por aí afora, continuaremos sem visibilidade alguma. Será que nosso teatro não tem nada para contar? E nossa música, nossa literatura, nossa poesia? Voltando lá para o inicio, sabe qual o produto  que mais fez sucesso no Rio Centro, o artesanato. As imagens do cabeça de cuia, dos santos esculpidos em madeira, feitos de forma autentica. Penso cada vez mais que nunca conseguimos penetrar no emaranhado mundo da arte por que nosso produto nunca teve a nossa verdade, a nossa história, os nossos hábitos, o nosso ambiente social, a nossa cultura. Até aqui temos sidos meros consumidores, admiradores e macacos de auditório do que vem de fora. Uma pena.

domingo, 31 de janeiro de 2016

SOBRE A LEI A. TITO FILHO, NOVAMENTE



            Não custa lembrar para os que conhecem e, em especial, para quem não conhece que a Lei que criou o Projeto Cultural A. Tito Filho - Lei A. Tito Filho - foi criada em março de 1993, pelo então prefeito Municipal de Teresina,  professor Wall Ferraz. Essa Lei foi baseada na Lei Rubem Braga, de Curitiba, Paraná, quando foi apresentada por nós quando éramos diretor da Fundação Cultural Monsenhor Chaves.
            A Lei A. Tito Filho, na sua primeira versão era no Sistema de Mecenato, ou seja, o produtor cultural de posse de Incentivos Fiscais do município ia atrás do patrocinador, simples assim. Nesse sistema ela durou de 1993 a 1997, e muitos projetos foram incentivados. A critica mais ferrenha do meio cultural era a  falta de conhecimento da Lei pelos empresários assim como o desconhecimento, também, dos empresários de quem produzia cultura em Teresina, terminando por beneficiar apenas aqueles artistas e produtores que tinham visibilidade na cidade. 
          Na campanha de Firmino Filho para a Prefeitura de Teresina, em 1996, houve um encontro entre o candidato, artistas e produtores culturais que reivindicaram a criação do Fundo Municipal de Cultura, o que democratizaria o acesso a Lei A. Tito Filho. O doutor Firmino Filho foi eleito e imediatamente nomeou uma comissão formada por três membros para rever a Lei e criar o Fundo Municipal de Cultura. Essa Comissão formada por mim, Afonso Lima e o advogado Jean Paulo apresentou ao Prefeito o texto da Lei, nos dois formatos - Mecenato e Fundo, no entanto, o prefeito optou apenas pela criação do Fundo. Dessa forma, a partir da Lei 2.548, de 10 de julho de 1997, Decreto 3.915, de 1998, foi criado o Fundo Municipal de Cultura, dando a gestão do Fundo á Fundação Cultural Monsenhor Chaves.
           Agora estamos sabendo que a Fundação Monsenhor Chaves nomeou comissão para rever novamente a Lei A. Tito. O que podemos dizer é que da forma que a Lei se encontra não funciona. Primeiro, por falta de gestão e segundo, por que o próprio Fundo Municipal de Cultura não tem como se manter seja por pura falta de interesse da Prefeitura ou pelo próprio sistema de Fundo, onde quem faz a captação do dinheiro é a Fundação Monsenhor Chaves junto as empresas. Ora, a FCMC até o momento mostrou pouco interesse nesse sentido, emperrando a Lei.  Na nossa opinião, caberia os dois sistemas de incentivo - Mecenato e Fundo -, pois Teresina cresceu, os empresários tem maior consciência empreendera e os artistas e produtores estão mais conscientes do seu papel e já aparecem visivelmente como classe profissional. O Fundo ficaria para entidades sem fins lucrativos, e para incentivar a cultura identidade de um povo, de uma cidade.
           Portanto, que essa comissão trabalhe e mostre ao prefeito a necessidade de reformular a Lei mas, principalmente, de cumprir a Lei, por que senão de nada vai adiantar.
             Depois voltaremos ao assunto. É muito importante.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

PAU A PAU



                  Foi no ano de 1978 que fiz a estreia de meu segundo espetáculo como autor e diretor, a peça Pau a Pau, com interpretação de Lorena Campelo, Lili Martins, Afonso Miguel Aguiar e Ribamar Rocha, a apresentação  foi no Theatro 4 de Setembro.
                  O texto falava sobre o latifúndio, problemas de terras do nordeste brasileiro, de uma forma meio rançosa. O plot era mais ou menos o seguinte: Um roceiro desafia o coronel da cidade em corridas de cavalos, coisa que nunca tinha acontecido no lugar. Mas a corrida de cavalo era apenas o pano de fundo para a discussão das terras que o Coronel tinha em seu poder, terras tomadas o troco de bananas de várias familias. A disputa da corrida de cavalos levou o povo do lugar a tomar partido, uns do lado do Coronel e outros do lado do roceiro. O embate final dava-se numa quitanda, onde o coronel e o roceiro bebiam pinga antes da corrida. Lá para as tantas, o coronel descobre  que o roceiro botou chifre nele com sua jovem mulher, o homem parte para o roceiro e é morto por ele.
                  Naquele ano a  censura ainda era braba em nosso país, e todos os nossos trabalhos de teatro tinham que passar pela censura prévia da Policia Federal. Lembro que fui liberar o texto e o censor foi taxativo - a peça não podia se apresentar com o final escrito. Era tirar, reescrever ou suspender a estreia. Para mim foi um deus nos acuda.
                    Lembro que discuti  o problema com Lili Martins, ator e cenógrafo da peça, e para o ensaio geral, com a presença do sensor o tempo todo com o texto na mão, fazendo questão de minha presença a seu  lado, ensaiamos apagando a luz antes que o coronel caísse morto em cena. Foi a solução que encontramos para driblar a censura. Só que na apresentação para valer ninguém obedeceu isso, por que sabíamos que raramente algum sensor assistia aos espetáculos
                     Mas o interessante mesmo foi a polêmica. Quando contei a censuara do texto  para Santana Silva, diretor e ator de teatro, meu amigo, ele não contou conversa. Disse que era amigo de Petrônio Portela, e na realidade era, que naquele período era Ministro da Justiça, e que ele daria um jeito. O mais interessante de tudo foi que o Ministro Petrônio Portela, responsável pela abertura politica do pais, veio a Teresina para dar uma palestra. E eu fui a palestra no auditório do Ministerio da Fazenda quase obrigado por Santana e Silva, para falar com o Ministro, vejam só. Terminada a palestra, Santana furou caminho até o ministro, e sapecou. Ministro este é o Ací Campelo, ele é diretor de teatro, tem uma peça sua que foi censurada, e coisa e tal. O ministro simplesmente olhou para mim e não disse nada, só que passei muito tempo sem esquecer daquele olhar. Um olhar que parecia dizer muita coisa.
                    A peça Pau a Pau continuou a se apresentar com o mesmo final que foi escrita. Um roceiro matando um coronel em pleno palco por motivo de terras. Naquele tempo um desafio.
                  

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

ARTE INDEPENDENTE


           Vez por outra esse tema volta a discussão. Arte independente, artista independente. Sempre me perguntei, quando me deparei pela primeira vez com  esse tema, o que seria isso, melhor dizendo - arte ou artista  independente de que? 
           Lembro que foi no ano de 1981 que aconteceu em São Paulo, capital, o I Encontro de Arte Independente, se não me engano no Sesc - Pompeia, onde inúmeros grupos de teatro e de arte do Brasil se fizeram presente. As discussões foram muitas, varavam as noites, e os botequins. O Piauí se fez presente com dois espetáculos e a presença dos membros da Federação do Teatro. Para chegar a São Paulo precisamos contar com a ajuda do governo do Estado, o evento era bancado além do Sesc, também, do governo do Estado de São Paulo e do governo Federal, então, a pergunta que eu me fazia era, I Encontro de Arte independente de que, se tudo era pago dos cofres públicos?
            Ainda hoje essa discussão permeia com o mesmo tom, o mesmo pensamento. No mês passado, na Câmara Municipal de Teresina, numa audiência pública sobe a Lei A. Tito Filho, um artista vociferou do microfone - Enquanto nós artistas piauienses vivermos atrás do poder público continuaremos na miséria, nunca seremos artistas de verdade. O rapaz dizia isso enchendo o peito como se estivesse descoberto o ovo de Colombo. Primeiro dizer que o poder público não cria arte, segundo dizer de sua deselegância com artistas e produtores culturais que estavam na audiência e que,  naquele momento, defendiam a Fundação Cultural do Município como funcionários da casa. Ora, esse argumento de que o artista que precisa do poder público para viabilizar sua arte não é artista é, no minimo perigoso, é igualar toda criação artística e toda forma de cultura ao mercado. Mas tem manifestação artística, principalmente da cultura popular, portanto, menos conhecida e visível que necessitam de proteção para se manter como identidade de um povo.
        Depois voltamos a pergunta lá do inicio - Arte Independente de que? Por não precisar do Estado para se manter? Por não precisar de empresas privadas para viabilizar seus projetos? Seria independente aquela arte que se mantêm  apenas pelo público que a consome? Mas esse público não tem suas preferências, seus gostos e só consume aquilo que quer ou aquilo que lhe metem de goela abaixo. Nesse caso o criador continuaria independente?
         Nunca me prendi a esse tipo de dilema. O Estado como ente federativo deve cuidar com equidade e da mesma forma  de todas as necessidades de seus cidadãos, e se o cidadão precisa de educação, saúde, segurança e casa própria, também, precisa de cultura e arte. Ou será que só quem pode exigir do governo são os empresários? O agronegócio? Os banqueiros? Os taxistas? Os donos de empresas de ônibus? Os artistas não podem exigir que se cumpra as leis de incentivo? Que se destine dinheiro para a preservação do patrimônio, seja material e imaterial? Que papo é esse? 
        Quem deve ser independente é o artista e sua criação. Nunca se vender nem se render a regras que possam tolher sua criatividade. No momento em que a forma de viabilizar sua obra seja tolhida ou direcionada ai sim, o artista deve ser independente e agir como um ser criador. Mas se em nenhum momento ele é proibido de fazer o que quer com sua arte, o dinheiro pode vir de onde vier, pois o que importa é a sua manifestação e a sua criação livre e soberana. 

sábado, 3 de outubro de 2015

FLORIANO. 4º FESTIVAL NACIONAL DE TEATRO.


             O 4º Festival Nacional de Teatro Pontos de Cultura e Grupos Independentes, aconteceu no período de 23 a 27 de setembro último, na aprazível e acolhedora cidade de Floriano, no Piauí, numa promoção do Grupo Escândalo Legalizado de Teatro - ESCALET. O Festival  demonstrou, entre outras coisas, o amadurecimento e o profissionalismo das pessoas que estavam a frente do evento.
              Foram 12 estados da Federação presente com mais de vinte espetáculos divididos nas categorias, adulto, monólogos, infantil e de rua, que inundaram a cidade durante cinco dias, e fizeram a alegria dos espectadores e apreciadores do teatro de uma forma surpreendente, com os espaços - Teatro Cidade Cenográfica e Teatro Maria Bonita sempre lotados. As oficinas, palestras e workshops realizados durante o festival abordaram diversos temas, como dramaturgia corporal, contação de histórias, oficinas de palhaços e teatro de rua despertando o interesse daqueles que queriam se aventurar nas artes cênicas ou mesmo capacitando os já iniciados nesta área. Quanto aos homenageados, nada mais justo, pois tanto o ator e homem de teatro Rosivaldo Olivetto como Fábio Novo se identificam profundamente com o fazer artistíco-cultural.
              Em relação aos espetáculos, nós que participamos do júri nas categorias adulto e monólogos, assistimos com muita atenção as apresentações  em todas as categorias e, desta forma, podemos dizer que vimos um universo muito grande de montagens abordando vários temas, e que deram para fazer um juízo, ainda que muito superficial, do que está se fazendo ou se propondo em termos de dramaturgia no cenário brasileiro. Afinal de contas, tivemos grupos que vieram de Goiás, Santa Catarina, São Paulo, Distrito Federal, Paraná, Pernambuco, Paraíba, Ceará, Minas Gerais e Maranhão, retrato significativo das artes cênicas no Brasil.
               Em relação as oficinas e workshops verificamos muita prática e pouca teoria, neste sentido, e aqui não vai nenhuma critica, ficou faltando um pouco de comentário, de debate, de conversa sobre os espetáculos- sua dramaturgia, concepção, vivência do grupo. A sensação que a gente teve é que tudo está as mil maravilhas, por que todos aplaudem efusivamente todos os espetáculos, sem restrições, quando sabemos que não é bem assim. Dessa forma, infelizmente o papel antipático fica com o júri. Portanto, fica como dica.
             Quando colocamos profissionalismo e maturidade na realização do Festival, é por que acompanhamos o trabalho do grupo Escalet há muito tempo e sabemos do esforço e da dureza que é chegar onde o grupo se coloca hoje no panorama da cultura piauiense. Floriano e seus habitantes devem ter orgulho desse grupo, e as autoridades do setor cultural têm a responsabilidade de manter essa chama, para o bem dos que apreciam o palco como vetor cultural,  para o bem do próprio teatro e de todos aqueles que comungam e vivem o seu dia a dia.
                 

domingo, 16 de agosto de 2015

BRECHT: UM TEATRO PELA PAZ


                                                                     (Publicado no Jornal da Manhã, em 1986)

             Neste ano de 1986 comemora-se em todo o Brasil os trinta anos de morte (Ou seria eternidade?)do grande dramaturgo alemão Eugen Berthold Friedrich Brecht ou Berthold Brecht ou simplesmente B.B. (E, nesse caso, cuidado para não confundir com Brigitt Bardot) Aqui em Teresina acontecerá nos dias 8 e 9 de dezembro próximo a comemoração BRECHT: UM TEATRO PELA PAZ, no Theatro 4 de Setembro, com conferências, exposição, interpretação de poemas, numa promoção da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, com apoio da Federação de Teatro Amador do Piauí. Já confirmada a presença de Lélia Abramos, João das Neves e o diretor teatral Aderbal Júnior.
                    Quem foi realmente Berthold Brecht? Do homem dizia-se que era arisco, meio sujo, barbudo, óculos aro de aço, grosseiro, solitário, sensual, dom juan, com seu eterno boné na cabeça e seu eterno charuto na boca. Do artista, que era rebelde, inconformista, sensível, revolucionário, cheio de dilemas políticos, acusado até de ter violentado seu talento ao aderir ao partido comunista, paradoxo intelectual do engajamento artistico, quando sofria restrições na própria orbita do partido ao mesmo tempo em que servia para propagar a cultura marxista  aos intelectuais do ocidente. Simples conjecturas? Não sabemos. O importante é que Brecht é, inegavelmente, um dos mais brilhantes e iluminados gênios da literatura deste século.
                   Brecht nasceu em Ausburgo, a 10 de fevereiro de 1898, filho de pais abastados, frequentou bons colégios onde era tido como um menino taciturno, de uma certa quietude negativa, mas que logo revelara sua rebeldia ao fazer uma redação condenando o conflito armado. Aos dezoito anos, quando estudava medicina e e ciência na Universidade de Munique foi convocado para a guerra como atendente de um hospital militar. Veio daí, talvez, a sua angustia permanente e a sua perseguição implacável a favor da paz, quando na sua poesia e duro e seco, torturado por imagens sofridas, injustiçadas, o que dar bem o tom da sua revolta, da sua quase impotência e, ao mesmo tempo, o sentido da sua sensibilidade, da sua delicadeza diante  dos horrores e das tragédias que afetam os homens. Em  "A Lenda do Soldado Morto" um poema duramente Brechtiano ele falava de um cadáver que é exumado e posto a desfilar gloriosamente, pronto a retornar ao campo de batalha, por que a guerra precisa de homens  como buchas de canhão. No final, o poema sentencia: "Era tanta gente que ele nem se via/da multidão em volta soltando vivas!/Do alto, pode ser que fosse visto:/ mas lá, a não ser astros, não há nada."
                A contribuição de Brecht ao teatro, a poesia e ao pensamento político do artista o fazem como um dos mais importantes do século vinte. Premiado aos 24 anos com a peça "Tambores da Noite" teve outra proeza aos escrever a sua primeira peça "Baal" em 4 dias, quando havia assistido a uma outra peça e não gostara, apostando com um amigo que escreveria sobre o mesmo tema e melhor - e assim o fez. Brecht não gostava do exibicionismo gratuito e simples e nem da emoção ilusionista no teatro. Colaborador do encenador Erwin Piscator, que fazia um teatro de esquerda, tipo "Agir Prop", e que via o palco como um instrumento para a mobilização das massas, Brecht aprofundou-se. Nasceu, então, o seu teatro dialético e o seu teatro épico, com a teoria baseada na rejeição da empatia e do desenvolvimento emocional do público com as personagens apresentadas no palco. É o badalado efeito do distanciamento ou efeito V, compreensão fundamental de todo seu teatro.
               Brecht era um artista que lutava com sua genialidade para amenizar a distancia entre os homens, entre as classes sociais, entre os povos, com enorme senso político de justiça, de compreensão e de amor. Ganhador do prêmio Stalin da Paz, em Moscou, em 1956 morre de trombose coronariana. Antes de morrer, porém, Brech viu realizado um sonho, a Fundação Berliner Ensemble, onde ele praticava seu teatro espalhando pelo mundo seu ideal artístico, um alerta geral em nome da humanidade: um grito poético em nome da paz. Para sentirmos a dimensão da coisa basta citar um escrito de sua autoria bem conhecido: "Lutem pela paz!É preciso denunciar a bomba, decida o futuro da cultura! Já foi dito que a liberdade é uma conquista. Comecemos já com a liberdade de trabalhar pela paz!" Sem dúvida alguma um aviso final aos navegantes.

sábado, 27 de junho de 2015

O FIM MELANCÓLICO DE UM EVENTO


               No ano de 1994, como Diretor do Departamento de Arte da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, criamos o I Salão Municipal de Artes Plásticas. Era coordenadora da área a hoje professora da UFPI Polyana Jericó.
               O evento seria uma das grandes atrações da inauguração da Casa da Cultura de Teresina, criada naquele ano pelo então Prefeito Wall Ferraz, belíssima casa e um dos patrimônios culturais que orgulha a cidade. A realização do Salão seria um grande desafio, primeiro por que não sabíamos qual a aceitação dos artistas em participarem do evento, depois a pressão em fazer um evento inédito na cidade, e fazer bem feito.
                Lembro que o prefeito Wall Ferraz, de vez em quando fazia perguntas sobre o Salão, colocando dúvidas na sua concretização. Como a Fundação Monsenhor Chaves seria a gestora da Casa da Cultura acompanhamos passo a passo a reforma da antiga Casa do Barão de Gurgueia,  para transformá-la naquele espaço.  Então, no piso superior da Casa ficaria a Galeria de Artes, que denominamos de Lucilio Albuquerque, grande artista plástico piauiense. Quando vimos o espaço grande da Galeria ficamos ainda mais assustados.
               Dois episódios me chamaram atenção durante a reforma da Casa da Cultura, o primeiro foi a recusa sistemática do prefeito Wall Ferraz em não aceitar que fosse colocado um busto do Barão de Gurgueia na frente da Casa, solicitação feita pelos parentes do Barão. O professor chegou a dizer que mandaria derrubar se assim fosse feito; a segunda, foi a bronca dada por ele no cartunista Albert Piauí, que tinha diagramado um livreto sobre a casa para ser lançado na inauguração. Mas a capa foi pintada de preto, e o prefeito detestava a cor preta. Essa eu tive que amenizar, mesmo por o livrinho fazia parte do meu Departamento e o Albert sempre foi  meu grande amigo. Peguei o livro e conversei com o professor.
               O I Salão Municipal de Artes Plásticas de Teresina foi lançado no mês de agosto de 1994, na inauguração da Casa da Cultura de Teresina, com mais de 150 obras de artes de artistas plásticas piauienses,  em várias modalidades. Um sucesso absoluto que orgulhou a todos nós.Daquele ano para cá ele teria mais de quinze edições, sempre com a participação maciça dos artistas plásticos.
                Neste ano de 2015, a mesma Fundação Cultural Monsenhor Chaves resolve acabar com o Salão Municipal de Artes Plásticas, em um piscar de olhos, sem explicação nenhuma. Parece que nem sequer foi discutido a sua reformulação ou mesmo o seu legado. Simplesmente acabou-se. Mas o pior é que em seu lugar foi criado um Salão Municipal de Artes Visuais. Ou seja, vamos começar tudo de novo. É o eterno retorno. Quer dizer, é dessa forma que continuaremos invisíveis. Muito triste, para não dizer terrível.