sábado, 26 de maio de 2018

NA POEIRA DO MITO - FIM


          Quando Brás do Pedro saiu do carro encaminhou rapidamente Waldick Soriano para o camarim do Clube,ou coisa parecida com camarim. 
       - Tenho que tomar algumas providências, Waldick.
       - Fique a vontade, meu chapa - Disse o cantor.
         Brás do Pedro saiu,sem antes colocar vigilância na porta, e determinar que nem Deus entrasse ali. No Clube já havia uma grande animosidade pelo atraso do cantor, coisa que gerava nos incrédulos comentários maldosos, principalmente de pessoas vindo da cidade de Pedro II. Ora, onde já se viu um cantor como Waldick Soriano se meter num buraco daqueles?
         O produtor, para tranquilizar a todos, fez o grupo pé de serra de seu Armando Cachoeira parar o forró e anunciou para o alivio de todos.
        - Ele está qui gente!  Waldick Soriano já se encontrava no Abacateiro!
        Foi um zum zum geral no ambiente. As moças se agitaram e os rapazes assobiaram dando vivas, para o descontentamento dos que apostavam ao contrário.
         Tina Rodrigues, percebendo a ausência de seu noivo, foi ao camarim onde estava Waldick Soriano. Não teve diabo que ímpatasse a moça de entrar por aquela porta. Ela não só entrou como ainda deu ordens para que ninguém mais o fizesse. 
          Waldick Soriano estava trocando de roupa e, naquele momento, enxugava o rosto com uma toalha. A moça não contou conversa. Puxou a toalha das mãos do cantor e se jogou em seus braços como uma criança carente. Depois enroscou-se em sua cintura. O cantor, como um gigante bravo, colocou  Tina na cintura e levantou seu vestido de seda, sem antes beijar-lhe a boca com sofreguidão e arrancar suas calcinhas com violência. Em pouco tempo o homem amado pelas multidões tinha se colocado entre as pernas de Tina, penetrando-lhe seguidas vezes, de forma ardente como tantas vezes já se fizera com tantas outras. Tina continha o grito, numa mistura de riso e gozo. O tempo foi curto,mas de intensa ação. 
            Ao término,disse o cantor:
         - Sentir que você era virgem. Agora se limpe, viu moça. E vá dançar.
           Tina ficou se limpando no local. Waldick Soriano foi levado ao palco e, ao ser anunciado por Brás do Pedro, foi aplaudido entusiasticamente pelo público presente. Naquela noite ele faria um dos melhores shows da sua vida. Quanto a Tina Rodrigues estava ao lado do noivo Miguel Aguiar, de mãos dados, olhando para seu ídolo e imaginando de como poderia ir atrás dele, nem que para isso tivesse que atravessar o país. 
               
         

quarta-feira, 9 de maio de 2018

NA POEIRA DO MITO - TRÊS


        Miguelzinho Aguiar depois de ouvi o drama do amigo, não se fez de rogado:
      - Deixe comigo, Brás do Pedro! Despacho quem ia levar e levo o homem, será uma grande honra!
        Depois de apresentar Miguelzinho a Waldick, o cantor foi aboletado no assento da frente da Caminhoneta Rural Willys. 
      - Vou despachar o pessoal ali, e a gente ruma pra Roça dos Pereira, 'tá certo.
         Em pouco tempo Miguelzinho voltou trazendo a namorada Tina de lado. O noivado de Miguel Aguiar com Tina Rodrigues unia duas das mais ricas e tradicionais famílias das redondezas da Roça dos Pereira, os Aguiar e os Rodrigues. O noivado dos dois eram festejado por todos. 
        Quando Tina entrou na Caminhoneta e soube que o ilustre passageiro da frente era o cantor Waldick Soriano quase dar um troço. A moça tinha sido uma das dezenas de tantas outras que tinham se preparado noites e dias para aquela festa. Agora  pensar que estaria junto ao cantor tão rápido daquele jeito seria sonhar demais. Ainda que Tina tivesse traçado na cabeça todo um roteiro para ficar um instante que fosse sozinha com Waldick Soriano. Um homem que ela amava acima de tudo.
      - Meu Deus, eu não acredito! É Waldick Soriano?! - Disparou a moça, o coração em chamas.
        Ao ouvir a exaltação da moça o cantor, já embriagado de Vodka, sentiu aquela velha chama tantas vezes experimentada por ele em tantos lugares que já passara, e a certeza que ela seria sua naquela noite.
        Aquela pequena viagem acabou com a paz e ao sossego de Miguelzinho Aguiar, que via a noiva escapar de suas mãos como sabonete molhado. Tina sabia tudo sobre o cantor, não só o que diziam mas o que inventavam da sua vida, e falava disse com a maior emoção.
      - Tenho tudo, Waldik, tudo sobre sua vida! Num é Miguel?
      - É Tina - Respondia o noivo com um aperto no coração.
        Não precisava sentir que o mal estar gerado por aquele encontro de Tina com seu ídolo poderia explodir mais adiante. Brás do Pedro não sabia o que fazer para desviar a atenção da amiga Tina e tirá-la daquela tagarelice com Waldick Soriano, que por precalção mantinha-se calado, mas já sentia o cheiro da fêmea exalar em sua narinas como a espernear debaixo dele.
      - E Chiquinho Aguiar, meu amigo Miguel? Perguntou Brás tentando mudar de assunto.
      - Vem pra festa, sim. Trabalhou na Rádio como um danado.
      - Eu sei.
        Quando a  Caminhoneta se aproximava do Clube Abacateiro, local da festa,  as veredas e os caminhos que levavam ao local pareciam formigueiros humanos. Era gente que saia não se sabe de onde. Uma coisa de espantar. Brás do Pedro pediu a todos que estavam no carro que fossem discretos, e que não falassem da chegada de Waldick. Miguel Aguiar entrou pelos fundos do Clube, como de costume, e estacionou o carro.  

segunda-feira, 23 de abril de 2018

NA POEIRA DO MITO - DOIS


           Brás do Pedro mal fechou a boca Waldick meteu os sapatos no lamaçal, atolando-se todo. Ele também desceu meio atordoado e fincou os sapatos na lama. O motorista do Toyota e seu ajudante ficaram calados sem saber o que dizer.
           - Podem continuar, não se incomodem comigo. Já empurrei muito carro por esse país, até em porta de puteiro- Disse Waldick - Se precisarem de mim estou aqui.
           O local do atoleiro era em céu aberto o que ajudava a visão do ambiente e, ao mesmo tempo, a imperícia do motorista. Vendo que a situação não era fácil, Waldick deixou a garrafa de Vodka de lado e meteu a mão na massa, ajudando os dois homens. Começaram a colocar galhos e paus na frente dos pneus do carro, e agora o litro de Vodka passava de mão em mão.
           O show do cantor Waldick Soriano estava marcado há mais de três meses, e ia acontecer no Clube do Abacateiro, o maior clube campestre da Roça dos Pereira, distante da capital do Estado cerca de duzentos quilômetros. Parecia que todos os habitantes dos lugarejos vizinhos tinham rumado em polvorosa para a Roça, sem contar o enorme contigente da cidade de Pedro II, ainda incrédulos de tamanho feito. Pareciam não acreditar que Waldick pudesse fazer show em tão insignificante lugarejo. A única rádio da cidade tinha passado os últimos dois meses fazendo programação especial sobre a vida do cantor: eram concursos, gincanas e perguntas que premiavam os ouvintes e fãs. Não é preciso dizer que foi um verdadeiro inferno de gente aos borbotões invadindo a estação atrás de participar das promoções. Sem contar que o Clube Abacateiro, nome só de fachada, por que na realidade acobertava mesmo era um cabaré de terceira categoria, tinha recebido pintura nova e luzes coloridas. Portanto, tudo estava a mil para receber o grande cantor.
         Brás do Pedro, o promotor do evento, quando saiu da capital com o cantor a bordo do Jeep tinha ligado para o radialista Chiquinho Aguiar assegurando que Waldick Soriano estava chegando á Roça dos Pereira, e que a festa seria de arromba. 
         Mas agora ali atolado an estrada, metido num lamaçal desgraçado até as canelas, não sabia o que ia acontecer.
         - Vamos lá pessoal! Caralho, já estamos atrasados para a festa, pombas! Gritava ele aos berros.
         - Isso aqui num vai ter jeito bicho - Disse Waldick  calmamente sorvendo outro gole de Vodka e olhando para as estrelas.
           Decidido a chegar de qualquer jeito na Roça dos Pereira, Brás do Pedro propos a Waldick que caminhassem até os Lajedos, que ficava a uns três quilômetros, e de lá com certeza pegariam outra condução cedida por seu amigo de infância, Zé do Pão. O cantor não se fez de rogado e ganhou a carroçal com Brás do Pedro, deixando o motorista e o ajudante na estrada, sujos como dois porcos na lama.
          Brás do Pedro ainda esbravejou:
        - Caramba, eu espero que vocês desatolem este carro até amanhã, picas!
          Brás do Pedro levava a maleta de Waldick, que continuava com o litro de Vodka na mão. No caminho não houve lamúria dos dois sobre aquela situação, pelo contrário, falaram de mulheres, noitadas e das andanças do cantor pelo Brasil afora.
          Em pouco tempo deram com a venda de Zé do Pão, que naquele momento estava apinhada de homens, e de algumas moças, bebendo e conversando alto, pois todos se preparavam para chegar até o Clube Abacateiro. Brás do Pedro para poupar o ídolo entrou na quitanda sozinho.
        - De quem é aquela caminhoneta parada ali fora? Perguntou de vez.
        -  É nossa, ora! - Adiantou-se seu amigo Miguelzinho Aguiar.
        - Meu amigo preciso alugar esse carro até o Clube do Abacateiro, com urgência!
        - Pois é pra lá que nós vamos, Brás do Pedro...
          De tão assustado que estava Brás do Pedro não percebeu a gafe que dera, não reconhecendo o amigo Miguelzinho.
       - Meu amigo Miguelzinho me perdoe!
       - Não há de que, homem. Parecia que viu uma alma.
       - E vi mesmo.
         Brás do Pedro puxou o amigo de lado e começou a contar o que estava acontecendo.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

NA POEIRA DO MITO - UM


                   O Jeep Toyota rodopiou no lamaçal feito uma banheira em corrente de água, e terminou afundando os dos pneus traseiros. O motorista ainda tentou várias vezes tirá-lo do atoleiro, mas a situação só piorou. A lama ameaçava os quatro pneus do veículo. 
                   Sem saída, o motorista sentenciou:
                 - Estamos atolados, pessoal.
                - Caralho, isso eu já sei! Disse o cantor Waldick Soriano ilustre passageiro do Jeep, e o maior ídolo da música popular brasileira naquele ano de 1969.
                 O cantor estava sentado no banco traseiro do veiculo, que mais parecia um banco de praça, com um litro de Vodka entre as pernas e, mesmo o dia escurecendo, conservava o chapéu de massa preto na cabeça, sua marca registrada. A seu lado Brás do Pedro, uma mistura de empresário artistico e promotor de eventos por todos os lugarejos ao redor da Roça dos Pereira, um município perto da cidade de Pedro II, que naquele ano tinha descoberto a pedra de opala em suas terras. Um feito que ficaria na história do lugar.
                 - Não se preocupe, Waldick, vamos dar um jeito - Falou Brás do Pedro, descendo do carro e melando os sapatos - Caramba, foi muita barbeiragem. Temos que sair daqui logo, hem! Por que senão como é que fica? Bravejou.
                O motorista e seu companheiro sairam do carro, tiraram os sapatos e arregaçaram as calças. Começaram a ver como desatolar o Jeep, o que certamente a luz clara no meio da amplidão da estrada carroçal, ajudaria. Os dois homens atolaram os pés na lama e começaram a missão de desatolar o Jeep, na certeza de que levavam dentro do veículo o homem que milhões de fãs adoravam país a fora. A prova da fama do artista eram eles próprios, ardorosos fãs e Waldick.
                 Brás do Pedro vendo a labuta dos dois homens, sem resultado, gritou:
              - Puta que pariu! Tem que tirar esse carro daqui. Temos que fazer um show, caramba!
                O motorista e seu ajudante estava atolados na lama tentando descobrir os pneus do Jeep com pedaços de paus. A noite era de um céu límpido, apesar do inverno, com estrelas reluzentes e uma lua clara bonita de se apreciar. Waldick continuava a tomar a sua vodka tranquilamente.
               Acostumado a enfrentar todo tipo de situação, o cantor romântico mais amado do país estava mais uma vez fazendo uma turnê pelo nordeste brasileiro, onde além de fazer shows em cada capital, saia pelas cidades interioranas se apresentando em qualquer biboca. Podia ser em praças públicas, clubes e cabarés famosos. Para o ídolo das multidões nada daquilo o constrangia.
               - Desculpe, Waldick, desculpe ai velho pela situação - Lastimava-se Brás do Pedro.
               - Pode deixar, bicho.  Vamos desatolar o carro, eu espero.
               - Claro, vamos, sim.
    

domingo, 11 de março de 2018

CINE - REX UM PATRIMÔNIO CULTURAL INVISIVEL.

                                    
            A Praça Pedro II é o corredor cultural de Teresina, coração da cidade, imponente e bela. Além desses atributos tem uma relação de carinho e de mística com o imaginário popular teresinense. Pois ali, de frente para ela que pulsa há mais de 120 anos, o Theatro 4 de Setembro, não menos belo e imponente.
          Ao lado do monumental Theatro 4 de Setembro, sempre bem cuidado e iluminado, fica o Cine-Rex, ou ficava o Cine-Rex, pois há mais de 10 anos se encontra fechado, sujo, escuro e decadente, denunciando o pouco descaso com o patrimônio cultural da cidade. O Cine-Rex, outrora tão vibrante e alegre, enfeia a Praça Pedro II.
         Regredindo algumas décadas, vamos saber que o Cine-Rex foi construido por um mestre de obras chamado Júlio, que aplicou o modelo da Art Deco, em voga nos anos 30,  e inaugurado no ano de 1939, com o filme "A Grande Valsa", um orgulho para a sociedade. Seus primeiros proprietários foram os senhores Bartolomeu Vasconcelos e Dr. Area Leão, em 1953, foi arrendado pelo senhor Otacilio Soares, que o comprou no ano de 1968. Este senhor vendeu o Rex para a firma JODISA-Jose Omatti Diversões S/A, da qual eram sócios os senhores David Delphino Cortellazzi, Jorge Azar Chaib, Elicio Pereira Terto, José Omatti, Gervásio Costa e Maria Luiza Tajra Melo.
         O Cine - Rex entrou numa fase áurea e, no ano de 1973, teve sua primeira e única reforma, feita pelo escritório de arquitetura  Maloca Arquitetura e Decoração Ltda, realizado pelo arquiteto Luiz Dutra de Araújo, onde foram reformados o sistema de ar, tirando os velhos ventiladores de teto, no hall de entrada, plateia e fechada, acrescentando ao fundo construção de sanitários e casa de máquina.O filme que reinaugurou o Cine-Rex foi o famoso "Sansão e Dalila". Quando ia começar a sessão, o teto do cinema ficava colorido de azul,verde, vermelho como sinal de inicio da sessão. Uma delicia para o espectador. 
        Com o término da Jodisa os senhores David Cortellazzi e Elicio Terto  ficaram de donos do Cinema, até o ano de 1984, quando o Cine-Rex passou para o Dr. David Cortellazzi e a senhora Theresa Maria Thomas Tajra Cortellazzi. Doutor David fez do cinema um orgulho para a cidade. Ele adorava aquilo ali.
           No ano de 1995, o Cine-Rex, a pedido do próprio Dr. David, foi tombado pelo Patrimônio do estado através do Decreto 9.310., escrito no livro tombo em 25.02.1997. O tombamento deu-se pela importância do Cine-Rex para a cidade, seu valor histórico-arquitetônico, pelo significado na vida das pessoas, sua destinação como centro de arte e presença na paisagem da cidade.
           Mas, como vemos, não basta apenas tombar um patrimônio cultural para que ele tenha vida. Não é apenas um simples reconhecer de valor histórico, é muito mais estabelecer uma troca com a cidade, um servir a sua população, um cuidar de verdade para que o bem tenha vida. 
            Quem não lembra do Cine-Rex de tantos acontecimentos? Os jovens também precisariam usufruir desse bem, e não só os que viveram e viram. Quanto custa revitalizar o Cine-Rex? Já que ninguém pode derrubá-lo, pois é tombado pelo patrimonio, ainda que parcial, é preciso torná-lo um prédio vivo, garantindo o desenvolvimento da cidade. Um centro cultural? Um Cinema? Um espaço multimidia? Tantas são as opções.
             O que não podemos é continuar a olhar a bela Praça Pedro II, o coração da cidade, faltando um pedaço: O Cine-Rex. Um pedaço do coração de todos aqueles que amam a cidade.
          
                         
                          

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

EMPREENDEDORES CULTURAIS E O SIEC


        No último mês de dezembro, ao findar do ano, encontraram-se com o Secretario de Estado da Cultura, Deputado Fabio Novo, onze pequenos produtores culturais, representando quinze projetos aprovados pelo Sistema Estadual de Incentivo a Cultura - SIEC. Quando colocamos pequenos produtores, referimo-nos a média orçamentária dos projetos aprovados, nunca superior a quarenta mil reais.
         A pauta tratada no encontro foi tão somente o SIEC. Todos os empreendedores se colocaram e ouviram as ponderações do Secretario, dentro do respeito e da ética. Na demanda principal, as dificuldades de captação de recursos junto a iniciativa privada. Foi unânime o  desinteresse da maioria das empresas que aplicam na Lei em apoiar os pequenos projetos. A preferência é dada aos grandes projetos com retorno de mídia imediata. Claro, uma opção dessas empresas. A solicitação ao Secretario foi no sentido de que o fizesse intermediação juntos aos investidores e os pequenos produtores, para captação de seus projetos. Fez-se ver, que a concorrência predatória e, as vezes, desleal da maioria dos grandes empreendedores culturais, inclusive, com pagamento de propina, termina contaminando o Sistema, e atingido os pequenos. Neste sentido, os presentes colocaram que os pequenos projetos são de fundamental importância para movimentar a economia criativa do Piauí. Essa demanda foi prontamente atendida pelo Secretario.
        Mas teve outras solicitações, e reclamações. Pediu-se a prorrogação dos certificados de todos os projetos que não conseguiram investimento, principalmente dos projetos permanentes. De pronto, o Secretario afirmou ser impossível, pois todos os certificados perdem a validade no final do ano, com a extinção do número que o identifica no sistema da Secretaria de Fazenda. Isso foi discutido e compreendido pelos produtores.
        Bateu-se na velha tecla de que o SIEC precisa ser mais divulgado entre os investidores, uma divulgação técnica, pois o investidor precisa ter segurança do retorno de seu investimento junto ao governo, e não apenas o retorno de estar aplicando em um projeto cultural.
         Uma das questões mais sérias do SIEC, sem dúvida, ocorre na sua operalização. É impossível o corte de 40,50 e até 60 por cento no orçamento de um projeto, e aprová-lo. Peca o Conselho da Lei e peca o produtor que aceita o corte. De duas uma, ou o Conselho tem medo em reprovar projetos ou o produtor superfaturou o mesmo. No primeiro caso, o Conselho poderia chamar o empreendedor para rediscutir o projeto, está na Lei,, no segundo, se o produtor recebeu com cortes que inviabilize o projeto, tem consequências terríveis para a produção cultural, pois saem produtos mal feitos, mal realizados, e sem visibilidade nenhuma para o mercado. Neste sentido, uma das soluções seria o Conselho se valer de pariceristas, técnicos em projetos, que poderiam auxiliar os Conselheiros. Isso, inclusive, acabaria com outro gargalo do próprio SIEC, que é ter apenas uma pessoa para sistematizar e colocar em pauta do Conselho todos os projetos.
         Foi marcante o diálogo dos produtores com o senhor Secretario, uma demonstração de civilidade, sem o ranço da pura e simples reclamação. O mais importante foi a demonstração de resolução da demanda maior dos produtores, quando todos os projetos ali representados foram devidamente captados, com a anuência firme do Secretario, o que representou 16,65 por cento do percentual orçamentário aprovado pelo SIEC que, seguramente, iam ficar sem captação, com prejuízo imensurável para a cultura do Estado.
           A reunião fez alegrar produtores culturais, e fazer pensar que a união e o diálogo, unido a determinação certamente são apontamentos seguro para todos.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

LUCY VANESS, UMA HISTÓRIA - FINAL

           Quando terminei de tomar o café de Dona Miquilina, diga-se um belo desjejum que me tirou de uma fome canina, estava disposto a resolver a parada com a filha do casal, de uma vez por todas. Ora, bolas, onde já se viu tamanha hipocrisia? A moça, que não era mais moça, querendo se aproveitar de minha pessoa! Ainda mais acobertada pelos pais! E o tal de doutor Ambrósio, qual o papel dele? Putz, vão se a merda!
          - Bem, o negócio é o seguinte. Casar com Lucy eu não caso, não - Disparei.
          - Como é que é, moço? Interrogou Dona Miquilina, incrédula.
          - Vou casar, por que?...
          - O senhor dormiu com a minha filha! Quase grita a mulher.
          - Calma, Miquilina - Disse seu Deodato.
            Mas Dona Miquilina não se acalmou. E me fez acreditar que se eu não cassasse com sua filha não sairia ileso daquele lugar. Ileso, era modo de falar. Não sairia vivo, mesmo. 
         - Mas porque, minha gente?
           Ai me fizeram ver que eu tinha sido o único de coragem a dormir com Lucia Antonia, apesar dela já ter corneado o tal de doutor Ambrósio várias vezes, sempre com rapazes de fora. Bem, isso já tinha me dito o primo Pedro. Mas é daí?
        - Doutor Ambrósio não vai perdoar o senhor ter dormido com a namorada dele. E o desgraçado é mau que só um pica - pau. Se o senhor não casar com minha filha pode se despedir da vida, viu.
          Meu esse seu Ambrósio vai deixar eu casar com a namorada dele, mulher, sei lá?
        - Casar e levar Lucia Antonia daqui. Isso ele aceita - Encerrou Dona Miquilina.
           Meu Deus que loucura. Onde eu tinha metido meu saco. Dona Miquilina tirou a mesa do café e saiu  para a cozinha. Seu Deodato me confidenciou.
       - Moço, Miquilina, é meio avexada. Essa história de casamento...deixa pra lá. O que o senhor tem de fazer mesmo é levar Lucia Antonia daqui pra cidade. Faça de conta que vai casar com ela por lá.
        - Mas o tal de doutor Ambrósio, seu Deodato? É capaz de me matar.
        - Coisa de Miquilina, rapaz. Tudo fachada. Basta levar Lucia Antonia pra cidade e está tudo resolvido. Acredite.
       Fiquei mais calmo. Foi quando entrou Lucia Antonia na sala, mais bonita do que o desabrochar de uma rosa. 
       - Meu pai, bom dia. E tu, Tony?...Pelo visto já foi tudo conversado.
         Ela me abraçou e eu sentir como eu era frágil e tolo diante daquela moça.
      - Já, minha filha, já foi tudo conversado. O rapaz aí...
      - Antonio, meu pai...
      - Antonio Felinto...
      - O rapaz vai lhe levar para a capital.
         Os olhos de Lucia Antonia, a Lucy Vaness brilharam intensamente. E ela mais uma vez se jogou em meus braços.Não tive como não abraçá-la e sentir toda a rigidez e fortaleza daquele corpo.
     -Meu Deus, que bom! Vou me arrumar. Até que enfim vou sair dessa terra, meu pai!
      E foi assim que conheci Lucy Vaness e trouxe ela comigo para a capital. No caminho pude sentir e presenciar sua alegria por ter saído do lugar onde nasceu e viveu até ali. No caminho ela me contou  que trazia com ela o endereço de uma amiga, que há muito tempo, morava na capital.Disse também que não me preocupasse com ela, pois estava preparada para enfrentar a vida na cidade grande. Fora para isso que ela aprendera todas as artimanhas que uma mulher pode usar para adquirir o que quer. 
       Quando chegamos na cidade deixei Lucia Antonia no local que ela pediu. Era lá que morava a amiga dela. Passo muito tempo sem ver Lucy Vaness. Agora uma mulher mais do que dona de si. Dona daquilo que quer.